quarta-feira, 29 de junho de 2022

O Joio e o Trigo

"As verdades são frutos que apenas devem ser colhidos quando bem maduros." 

Voltaire

Existem vários tipos de barreiras, ou muitas formas de criar uma. Em primeira instância, refiro-me àquelas mais diretas, como uma porta, uma parede, um muro, uma pedra, um monte e até mesmo um curso d'água. Entretanto, gostaria de focar em outras mais engenhosas.

Durante a pandemia, foi implantada a política do isolamento social, que culminou em algumas polêmicas. Entre elas, discutiu-se a possibilidade de uma cidade litorânea proibir a entrada de visitantes, na ocasião do primeiro feriado prolongado. No fim, o acesso não pôde ser negado, devido a alguma questão legal – algo relacionado ao direito constitucional de ir e vir. Porém, isso não impediu que um "bloqueio" fosse estabelecido: deixou-se somente uma cancela de pedágio aberta na autoestrada. Ou seja, não era que a cidade havia impedido o acesso, mas eram os turistas que "não queriam" visita-la – afinal, se as filas nos pedágios levam horas mesmo com todas as cancelas abertas, imagine com somente uma disponível. Em suma, uma barreira simples e eficaz foi engenhosamente implantada.

Este tipo de bloqueio indireto fez eu considerar algo maior. Um universo imensuravelmente grande é um tipo de barreira muito singular – no sentido matemático da expressão –, pois impede que seus limites sejam alcançados e superados precisamente por serem indetermináveis. É isso o que torna tudo muito "curioso". Aliás, isso torna o Universo singular ou engenhoso? Pondere por um instante o tipo de realidade que estaríamos vivendo se existisse um muro no céu. Enfim, assunto para outra ocasião.

Desviando: Há algum tempo tenho enxergado o Universo como uma festa surpresa de aniversário. Não pela comemoração em si, mas sim pela imprevisibilidade da situação do ponto de vista do aniversariante. A pessoa chega em casa, passa pela entrada com o cômodo principal ainda escuro. Ela joga a chave do carro sobre o aparador, tira os calçados, pendura o casaco no cabideiro, afrouxa os primeiros botões da camisa e, então, acende a luz. Nesse momento, o aniversariante toma um susto, ao perceber que aquele cômodo, indubitavelmente vazio em sua mente, acomodava dezenas de pessoas o espreitando, além de estar organizado completamente diferente do que presumia há poucos segundos. É como não saber que se poderia saber algo. Pois eu fico imaginando se, um dia, a "luz deste cômodo", que demos o nome de Universo, irá se acender.

Voltando: E então, qual o meu interesse em barreiras? É ter identificado bloqueios caracterizados pela forma como algumas palavras tem sido escritas. Você já leu algum texto na internet, ou viu a legenda de algum vídeo, ou qualquer outra escrita, usando palavras da seguinte maneira, M O R T E, VI0LÊNC14, S3X0, 4B0RT0, por exemplo?

Eu deduzi que, se estamos precisando usar "máscaras" para expressar ideias, significa que os algoritmos moderadores – ou as pessoas – não estão conseguindo "separar o joio do trigo". E isso, talvez, culmine em uma barreira indesejável.

Aliás, a descoberta da nossa incapacidade de moderar não é algo novo, mas é uma percepção milenar: "Os servos do dono do campo dirigiram-se a ele e disseram: 'O senhor não semeou boa semente em seu campo? Então, de onde veio o joio?' Então respondeu ele: 'Um inimigo fez isso.' Os servos lhe perguntaram: 'O senhor quer que vamos tirá-lo?' Ele respondeu: 'Não, porque, ao tirar o joio, vocês poderão arrancar com ele o trigo. Deixem que cresçam juntos até a colheita'." – destaque para o fato de que o trigo não foi impedido de crescer por causa da presença do joio.

Pois bem, se o que é autorizado expressar está precisando se disfarçar, concluo que não temos conseguido identificar o que não é autorizado. E mais, questiono se nossa incompetência se limita apenas à incapacidade de fazer diferença entre o que é permitido e o que não é, ou se ela se expande também à definição do bem e do mal. Quero dizer, por que confiamos tanto em nossos julgamentos a ponto de acreditarmos que sabemos distinguir o que "pode" do que "não pode"? Não estou dizendo que não existam diferenças entre o bom e o ruim, mas estou colocando em dúvida se sabemos identificá-las. Como se não bastasse, também estamos acreditando inocentemente que o "não permitido" seja incapaz de se disfarçar, assim como o "permitido" tem feito – como diria um texto judaico, "as verdades podem ser nuas, mas as mentiras precisam estar vestidas."

Negligenciar nossa incapacidade de estabelecer os limites pode resultar em um efeito colateral significativo. Imagine que em um campo desportivo qualquer exista algo relevante para a sociedade ou para o indivíduo, alguma ideia que possa – ou deva – ser expressada. Em contrapartida, nas arquibancadas, cada torcedor representa uma mentira. A figura abaixo esclarece o que estou tentando dizer, mesmo que seja exagerada, em certa medida. O primeiro quadro é a condição inicial, sem nossa interferência. O segundo quadro é o que poderíamos fazer, não tirar o direito dos três indivíduos de escolherem onde desejam focar a atenção – uma interferência legítima de nossa parte, por exemplo, seria garantir que o jogo fosse cativante. O último quadro é o que estamos fazendo, bloqueando tudo, sob a prerrogativa de proteger das mentiras os três indivíduos.

Alguém poderia perguntar: não deveríamos impedir de alguma forma a propagação de ideias nocivas? Gostaria de oferecer mais perguntas. Não seria mais apropriado desenvolvermos consequências em vez de cerceamento? Do contrário, não estamos correndo o risco de silenciar algo que não deveria ser censurado? Nós temos tanta certeza assim que sabemos a partir de que terras a verdade pode brotar?

Fato é que, em vez de ajudarmos na superação de barreiras através de esforços individuais ou colaborativos, mantendo atrativo apenas aquilo que é válido do outro lado, nós estamos "expandindo o universo" e, consequentemente, tornando tudo muito "curioso". Ao criar obstáculos para tudo, agora definidos precisamente pela impossibilidade de serem alcançados, tornamos também tudo inevitavelmente atraente, até a mentira, ou principalmente ela. Quem nunca entrou em um estádio se fascina até com a torcida.

Enfim, nossa colheita antes da hora vai precisar de um pouco mais de tempo para mostrar seu resultado. Porém, em tempo, não posso deixar de registrar que não me arrisquei tratar de algo ainda mais crítico. Entre tudo o que foi exposto, não considerei o fato de que nossas ideias estão sendo submetidas à autorização sabe-se lá de quem. V0c3 s4b3 qu3m t3m f3it0 a c01h3it4?

terça-feira, 31 de maio de 2022

Mundo Caído

"Posso partilhar tudo, menos o sofrimento." (Oscar Wilde)

Eu já vi algumas situações... muito intensas. Por exemplo, vi uma mulher sendo esbofeteada, de mãos dadas com o filho – em torno de três anos – que a encarava assustado, enquanto ambos caminhavam para o local de suas execuções, apenas porque professavam uma religião diferente daquela dos donos das metralhadoras – eu os vi serem mortos e já falei disso aqui. Também vi um bebê de dois meses morrer após ter sido arremessado pelo próprio pai através da janela de um apartamento. Eu vi animais de estimação serem vestidos, alimentados e abrigados em melhores condições do que crianças com fome, sede e frio. Eu vi crianças morrerem desnutridas e doentes. Vi recém-nascidos serem encontrados embrulhados dentro de caçambas de lixo e até em um lago – no caso do lago, o bebê tremia de frio e chorava com os lábios roxos. Também vi fetos, de todos os tamanhos, abortados e acondicionados em frascos de vidro. Eu vi um jovem e seu fiel cão de estimação morrerem em um acidente de carro, lamentável e ironicamente, como uma "punição" à coragem de terem escolhido viver. Enfadonhamente, vi pessoas sem coragem terem vidas mais longas. Aliás, vi pessoas boas se darem mal e pessoas más se darem bem. Também vi um homem muito franzino, após um dia pesadíssimo de trabalho, sem coragem de levantar a cabeça e encarar os olhos de outro homem, apenas porque o outro homem tinha sido socialmente "condecorado" com o título de chefe – de qualquer coisa. Vi pessoas agradecendo displicentemente um serviço prestado, sem olhar nos olhos de quem executou o favor, sem lhe dar a devida importância – o choque veio quando meu olhar cruzou o olhar do funcionário, nos entendemos. Eu vi um cachorro abandonado na rua, com espasmos, com fome e com sede, não ser alimentado para que não fizesse morada no lugar onde se encontrava – seria um incômodo, um estorvo. A propósito, falando de cachorros, certa vez eu vi um cão atropelado em uma autoestrada, com os ossos quebrados, tentando se levantar. Acho que a falta de racionalidade dos animais não os permite entender que não conseguirão se mover com os ossos quebrados, talvez por isso, ele repetia constantemente os mesmos movimentos, como um disco riscado, que toca sempre os mesmos segundos de música até que alguém puxe a tomada da vitrola. Ninguém desconectou a tomada do cão – pensando friamente, teria sido menos cruel se fosse feito. A inocência dos animais definitivamente nos comove. Eu vi o vídeo de um homem que, para mostrar virilidade, sem qualquer outro motivo, deu um tiro de espingarda, "à queima roupa", na testa de uma égua – ele falou algumas palavras idiotas antes. Eu vi quando o equino caiu morto. Eu vi um homem morrer asfixiado dentro do porta-malas de um carro, por causa da fumaça de uma bomba de gás lacrimogênio lançada por policiais. Vi pessoas se jogando pelas janelas de prédios em chamas – também ouvi o barulho do impacto no solo. Vi homens degolando outros homens à base do facão. Eu vi imagens de corpos sem vida e mutilados nas ruas de países em guerra. Também vi questões "menores", como desrespeito a pais, avós e professores, impaciência com filhos e crianças, intolerância entre familiares, crimes entre irmãos, disputas por dinheiro e tantas outras desavenças no âmbito familiar, todas praticadas por pessoas que defendem um mundo melhor, desde que, sem perceber, seja um mundo longe delas – aquela antiga história dos revolucionários que querem salvar os povos, mas não querem arrumar a cama. Enfim... Não estou dizendo que sei que essas coisas acontecem, mas estou dizendo que eu vi tudo isso e muito mais e, como diz o ditado, "com estes olhos que a terra um dia há de comer".

Ah, eu vi um homem que viu tudo isso e não fez nada, ou pior, que até fez algumas dessas coisas.

No conto "História Interrompida", de Clarice Lispector, a personagem principal disse, em certo momento: "Peguei numa folha de papel e enchi-a de alto a baixo: 'Eternidade, Vida. Mundo. Deus. Eternidade. Vida. Mundo. Deus. Eternidade...' Essas palavras matavam o sentido de muitos de meus sentimentos e deixavam-me fria por umas semanas, tão minúscula eu me descobria."

Seguindo essa "sugestão", eu tentei fazer o mesmo, pensar em coisas grandiosas que tornariam minhas visões insignificantes. Já falei aqui, por exemplo, que colocar todo o tempo da existência do Universo dentro da escala de um ano, faz os últimos cinco milênios da humanidade caberem nos 15 segundos finais do ano. Outro fato interessante é que a nossa galáxia, a Via Láctea, possui 100 mil anos-luz de diâmetro. Isso significa dizer que, se nós pudéssemos viajar à velocidade da luz – 300 mil quilômetros por segundo – levaríamos 100 mil anos para percorrer a galáxia de uma extremidade à outra. A próxima curiosidade está relacionada à orbita de Plutão, pois ele leva 248 anos para completar uma volta no sol. Portanto, considerando o ano de 2022, na última vez que Plutão esteve no ponto onde ele está agora, o rei Luís XV da França estava sendo sepultado – em 1774. Como se não bastasse, também podemos dizer que existem mais estrelas no Universo do que grãos de areia na Terra. A nossa galáxia possui uma média de 300 bilhões de estrelas, e ela é somente uma em 140 bilhões de galáxias no Universo. Poderíamos citar ainda o Supervazio encontrado no espaço, uma região com baixíssima densidade de galáxias, "sugadora" de luz e com diâmetro em torno de 1,8 bilhão de anos-luz – e já sabemos qual a grandeza de um único ano-luz. Por fim, gostaria de mostrar a imagem abaixo, uma foto do planeta Terra, registrada em 1990 pela sonda Voyager 1, quando ela alcançava os limites do nosso sistema solar – ínfimos 6 bilhões de quilômetros de distância. Isso, nosso planeta é aquele pálido pontinho azul, quase imperceptível, coincidentemente riscado por um raio de luz refletido pelas lentes da sonda. Aliás, recomendo este poema de Carl Sagan, com o mesmo título, "Pálido Ponto Azul".

Sim, eu tentei, mas novamente fui estimulado pelas ideias de Clarice Lispector, desta vez, escritas no conto "Gertrudes Pede Um Conselho": "Cada pessoa é um mundo, cada pessoa tem sua própria chave e a dos outros nada resolve; só se olha para o mundo alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que sobrenada e que não é o vital; o 'mal de muitos' é consolo, mas não é solução." Assim, é este tipo de ideia que explica minha incapacidade de transformar a grandiosidade do espaço sideral em solução para as minhas visões. A nossa imponente realidade consegue ser um consolo, mas não o remédio.

Não sou capaz de imaginar nenhum bem nesta Terra que, subtraído do mal, possa resultar em zero. Quantas crianças sorrindo seriam necessárias para assumir que o choro de apenas uma não tem importância? Quantas crianças alimentadas nos autorizaria negar comida a somente uma faminta? Uma única criança sofrendo é mais relevante que o deleite de todas as crianças que já existiram e existirão juntas. Quero dizer, não conheço nenhum bem que faz o mal ser como se não fosse, ou não tivesse sido. Algo que diga, "ah sim, agora o mal está explicado, ou está autorizado acontecer". E não estou falando somente de crianças, tampouco somente sobre choro e fome, como bem mostraram minhas visões.

Desviando: Curioso, lembrei-me de um aforismo de Jesus: "Haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam arrepender-se." Parece que encontro apoio na sensação explicada pelo seguinte ditado, "basta uma fruta podre para estragar toda a caixa".

Voltando: Para fechar aquela equação, é necessário algo além de nosso Universo, algo inimaginavelmente impensado, inexplicavelmente inconcebível, sobrenaturalmente além do mundo natural. Não há bem suficiente na nossa realidade para extirpar o mal futuro e dar cabo de qualquer sombra do mal passado, como se nunca tivesse sido. Antes é necessário algo que ainda não exista do lado de cá do véu. Logo, é imperativo que as profecias estejam certas, ainda que hoje elas sejam somente um arquétipo surrealista de um absoluto incompreensível.

Quero dizer... O Céu existe? Não sei, tampouco saberia dizer o que esperar dele. Se ele existir, um dia saberemos. Entretanto, hoje, eu acredito em sua existência, por pura necessidade, para não enlouquecer, no "menos pior" dos finais possíveis.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

O Quarto Poder

"Em tempo de revolução, cuidado com a primeira cabeça que rola. Ela abre o apetite ao povo." 

Victor Hugo

O futebol foi criado na Inglaterra por volta de 1863. Desde então, ocorreram algumas mudanças, principalmente com as regras – mas que não descaracterizaram o esporte como concebido. Atualmente, o regulamento é composto de apenas dezessete diretrizes. Entre elas, a diretiva de que uma partida deve ser conduzida por um árbitro (regra número 5). Um fato curioso é que, até 1868, os dois times acertavam as faltas entre acordos de cavalheiros, pois não havia árbitros. Mesmo após a introdução da figura do juiz de futebol, tudo continuou sendo decidido entre os capitães das duas equipes, por algum tempo. O árbitro foi munido de autoridade somente a partir de 1894.

Outra curiosidade sobre o futebol está relacionada aos cartões amarelo e vermelho. Em 1966, num jogo conturbado entre Argentina e Inglaterra, problemas de comunicação, entre o árbitro alemão e os atletas, dificultaram a expulsão de um jogador sul-americano e a punição de dois jogadores britânicos. O líder da arbitragem daquela ocasião, Ken Aston, viu a necessidade de tornar a comunicação independente do idioma e dos gestos. A inspiração veio dos semáforos de trânsito. Entretanto, somente na Copa do Mundo de 1970, os cartões seriam utilizados pela primeira vez, quando foram incorporados à diretriz número 12 das regras do futebol.

É extremamente complexo submeter decisões a dois lados que se opõem, pois: há conflito de interesses; há vozes simultâneas; não se garante a idoneidade entre todos os agentes; pode haver subjetividade de interpretação; talvez haja ignorância quanto às regras; corre-se o risco de haver manipulação por causa de ganhos (extracampo, no caso do futebol); pode envolver emoção; pode haver erros, enganos e equívocos; entre outros.

Considerando a dificuldade de desenvolver um jogo de futebol mesmo com um árbitro e todas as suas regras, tentei imaginar qual deveria ser a complexidade quando os próprios atletas tomavam as decisões. E fui além, cogitei, por um momento, o que ocorreria se as torcidas tomassem as decisões de uma "simples" partida? Foi isso que me fez lembrar de um comportamento social recorrente.

Há alguns poucos meses, um apresentador de podcast brasileiro e um deputado federal sofreram um "cancelamento" virtual de significativas proporções. Ambos defenderam a ideia de que o Nazismo não deveria ser criminalizado e que, inclusive, um partido deveria ser autorizado. Entre os motivos, encontra-se a "preocupação" de que os ideais extremistas se desenvolvam nas "sombras". A lógica do raciocínio deles consiste em considerar que é "melhor" ter um inimigo à mostra do que um escondido. Ainda assim, eles disseram acreditar que grupos inclinados ao extremismo, uma vez expostos, seriam – e deveriam ser – combatidos diretamente pela sociedade.

De minha parte, o Nazismo deve, precisa e tem que ser criminalizado, mas não vou expor os porquês, pois já foram todos exaustivamente esgotados nos meios de comunicação ao longo de semanas. Basta fazer uma pesquisa rápida na internet. A discussão que quero promover é outra...

O que gostaria de colocar em pauta é a confiança dos dois "cancelados" no absolutismo do povo. Eu considero os poderes Legislativo, Judiciário e Executivo como extensões da sociedade. Então, uma vez que esses poderes decretam que o Nazismo é crime, passam a sentenciar de acordo com essa diretriz e dão cabo da condenação, isso é o mesmo que dizer que a sociedade encontrou seu modo de repudiar e combater aquelas atrocidades, ainda que "indiretamente".

Aliás, já paramos para ponderar o motivo pelo qual os Três Poderes foram criados? Que necessidade, ou deficiência, eles vieram suprir? Portanto, a minha dúvida é, por que "precisamos" tanto de uma intervenção direta do povo? É mesmo o povo quem tem interferido? Enfim, fiquemos com as perguntas, pois não tenho as respostas. Entretanto, suspeito que poderíamos encontrar algo na história, um certo "fetiche", de alguns grupos, por revoluções.

Desviando: Reitero, eu tenho dificuldade em compreender a ideia que separa o povo do governo, pelo menos em países ocidentais democráticos. Mas sim, entendo que o governo não atende à todas as demandas sociais como deveria, por diversos motivos. Seria leviano, ingênuo e negligente de minha parte esperar que ele me representasse cabalmente. Por isso, sob certos aspectos, o povo deveria "assumir as rédeas" de algumas "melhorias" diretamente. Por exemplo, suponhamos que nossos representantes vetem a distribuição gratuita de absorventes a quem necessita, seja por interesses partidários, seja por sinceridade no controle dos gastos públicos. Porém, o que me impediria de comprar mensalmente alguns itens e entrega-los gratuitamente a quem precise deles, caso eu considere isso uma pauta válida e necessária? A não ser que a sugestão por essa benfeitoria possa ser também apenas uma manobra político-partidária (como saber?). Essa é outra dúvida, até que ponto eu acho mesmo pertinente uma pauta que anuncio aos quatro ventos (facebook, instagram, youtube e twiter) ser válida e necessária? Certa vez alguém disse: "Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma."

Voltando: O mais irônico, no caso do "cancelamento" do apresentador e do deputado, é que os dois foram submetidos àquilo que disseram apoiar, um repúdio direto da "sociedade" aos potenciais ideais nazistas. Aconteceu exatamente o que eles sugeriram. A "sociedade" fez o primeiro deles perder a participação no programa de entrevistas e ser bloqueado nas mídias sociais de maior relevância – perdendo o direito, inclusive, à monetização de seus conteúdos. O outro foi submetido a uma investigação da Procuradoria Geral da República – aliás, ambos foram, mas não pesquisei qual foi o desfecho disso.

Isto posto, o apresentador e o deputado entenderam o que aconteceu com eles? Perceberam que foram submetidos àquilo que sugeriram? Foi isso mesmo que idealizaram? Uma vez à mercê da materialização de suas idealizações, eles continuam defendendo a "nova" organização da sociedade (intervenções diretas) em detrimento da "tradicional" (intervenção das partes competentes)? Ou essa é só mais uma daquelas "brilhantes" ideias que deveriam servir apenas para os outros?

Supondo que todo o caso anterior tenha sido, de fato, guiado pelo povo, converge-se, inevitavelmente, à outra dúvida, qual deveria ser a voz da sociedade? Aquela que sai diretamente de suas bocas e de seus cliques? Ou aquela manifestada pelos Três Poderes? Não, não foi bem colocado. Pode parecer que meu posicionamento seja contrário à voz do povo. A pergunta correta é, que parte da sociedade deveria criar as regras, julgar e executá-las? O "juiz de futebol" ou a "torcida"? E quanto a todos aqueles problemas que ocorriam quando não havia árbitro em uma partida de futebol? Como lidar com eles? Isso é um avanço ou um retrocesso?

Enfim, como acredito que não haverá retorno, talvez precisemos de uma reestruturação. Alguém poderia dizer que a "sociedade" agiu desproporcionalmente contra os dois "cancelados". Porém, esse é o meu ponto, quem faz a regulação do Quarto Poder, a voz do "povo"? Pois, os Três Poderes há muito estabelecidos regulam-se entre si – aliás, o objetivo da divisão de poderes é justamente esse, definir os limites.

Outro exemplo de desproporcionalidade: você deve se lembrar do caso do cachorro Manchinha, morto por um segurança no estacionamento do Carrefour, mas talvez não se lembre do jovem morto em um supermercado no Rio de Janeiro. Veja, eu nem sei o nome do supermercado do segundo caso, quanto mais o nome do rapaz. Além disso, o homem que matou o cachorro foi sentenciado e condenado pelo "povo", e está pagando a pena até hoje. No caso dos assassinos do jovem, ainda nada.

Lembro de outro caso icônico, em 1994, quando uma emissora de televisão tradicional e outros veículos de reportagem divulgaram o caso da Escola Base, no qual o senhor e a senhora Shimada – e mais seis pessoas ligadas à escola – foram acusados de molestar e praticar orgias com crianças no horário escolar. Indignado, o "povo" imediatamente assumiu às "rédeas" da situação. Os envolvidos, por pouco, não foram linchados. A escola foi depredada e fechada e o casal Shimada foi à falência, com dificuldades financeiras pelo resto de suas vidas. Entretanto, tudo não passou de "fake news", sem que ninguém (no caso, o "povo") fosse responsabilizado pelos danos causados às verdadeiras vítimas, a família Shimada e seus funcionários. Sugiro esse link para conferir a história na íntegra.

Desviando: "Você deixou seus pés correrem livremente

O tempo passou enquanto caíamos

(...)

Você teria coragem de olhá-los bem nos olhos?

Porque eles vão te perseguir

Até a escuridão

Sim e eles vão perseguir você

Até você cair

E eles vão te perseguir

Até o seu interior

Até que você não possa mais rastejar

E ladeira abaixo nós vamos"

Way Down We Go - Kaleo

Voltando: A história mostra que o "povo" já julgou, sentenciou e executou muitas pessoas (até o próprio Deus), mas foge ao meu conhecimento quantas vezes ele realmente esteve certo, neutro, idôneo e, principalmente, autônomo. E, infelizmente, não consigo imaginar formas de garantir isso. Como citei, não confio tanto assim em um "povo" absolutista.

domingo, 20 de março de 2022

A Miopia de Pandora

"Eu não procuro saber as respostas, procuro compreender as perguntas." 

Confúcio

Na mitologia grega, o titã Prometeu entregou aos homens o segredo da manipulação do fogo. Como castigo, Zeus o sentenciou a uma vida eterna amarrado a uma rocha e, dia após dia, uma águia lhe devorava o fígado, que se regenerava todas as noites.

Os homens não ficaram sem punição. Pandora foi a primeira mulher criada a pedido de Zeus e enviada à Terra para se casar com o irmão de Prometeu. A ela, foi entregue uma caixa, com uma única recomendação, a de não abrir o artefato. Porém, dotada de grande curiosidade – não por acaso –, Pandora não se conteve. Ao abrir a caixa, acabou liberando diversos tipos de males ao mundo, ganância, inveja, ódio, dor, doença, fome, pobreza, guerra, morte etc. Desesperada, Pandora tentou fechar a peça imediatamente, de modo que reteve o único dom que os deuses haviam colocado na caixa, a esperança.

Uma análise do caráter didático do mito nos permite inferir que o desejo e a desobediência humanos são causas para os males observados no mundo. Enquanto, a esperança, sempre guardada conosco, nos impede de sucumbir, ajudando-nos a superar a realidade adversa. Poderíamos ainda sugerir que, enquanto o mal se exterioriza, a esperança não requer ser percebida.

Com mais ênfase no século XIX, Nietzsche tratou de uma possível nova interpretação para o mito da "Caixa de Pandora". Segundo ele, a esperança também seria uma forma de punição dos deuses, pois ela manteria os homens "amarrados" às causas de seus sofrimentos a despeito do nível de tortura.

A psicanalista, pesquisadora e professora Maria Homem reafirma a ideia de Nietzsche neste vídeo. Enquanto discorre sobre Ghosting – grosso modo, termo usado para designar o término repentino de um relacionamento sem deixar explicações –, ela pontua que, a esperança é a mãe de todas as desgraças liberadas da "Caixa de Pandora", pois nos prende a uma expectativa que não é e nunca se tornará real, a do alívio.

Veja, não sinto a necessidade de discordar de Nietzsche, ou da Maria Homem. Entretanto, sinto-me impelido a não discordar do mito grego. Neste último a esperança é um dom, não uma desgraça. Também nele, foi o desejo e a desobediência que liberaram todos os males. O mito diz que a esperança foi colocada na caixa como um desafogo aos homens, devido tamanho castigo dos deuses, assim como foi com Prometeu, que podia descansar pelo menos durante às noites.

A esperança existe porque as desgraças existem, não o contrário. Em um mundo vazio de infortúnios, tampouco teríamos condições de conhecer o que é a esperança. Outro sábio discorreu muito bem sobre esse nexo causal...

"Mas, quando vier o que é completo, então o que é incompleto será aniquilado. (...) Porque agora vemos como num espelho, de forma obscura; depois veremos face a face. Agora meu conhecimento é incompleto; depois conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior deles é o amor."

Paulo de Tarso

Perceba que Paulo, assim como no mito, também associou a esperança a uma realidade incompleta e imperfeita, de modo que, em um mundo pleno, onde o que se espera já chegou, a esperança perde a função e desaparece. Não é ela quem gera a espera.

Para especular sobre a causa dos desgostos, à vista do mito, eu pensei em uma criança que possui um cilindro em mãos e uma caixa com uma entrada triangular. Sem dificuldades, consegui imaginá-la se "irritando com o mundo" por não conseguir colocar o cilindro dentro da caixa. E então, o que move a criança em sua luta e lhe gera angústias? Seria a esperança de que a peça vai em algum momento se encaixar? Não, imagino que não. O que a impulsiona é um desejo além da realidade. O que a irrita é a impossibilidade da satisfação de sua vontade. O que lhe causa desassossego é a "mão pesada" das leis da física lhe aplicando o corretivo contra a desobediência.

Portanto, o que seriam o desejo e a desobediência do mito da "Caixa de Pandora", senão manifestações do egocentrismo e do narcisismo humanos? Apenas "recentemente", o adulto – ou alguns deles – achou útil colocar tudo na conta da esperança, pois aplaca a agonia da frustração sem responsabilizar o egocentrismo, já que o mal passa a encontrar sua causa na virtude, mas não na indecência da egolatria. Isso me parece muito oportuno, para uma sociedade que supervaloriza o "Eu", para uma época em que cada um tem sua própria verdade.

Desviando: Interessante, criei uma frase: "Negue a si mesmo e o diabo se revelará". Acho que influenciado por outro aforismo, mesmo que eu tenha me lembrado dele somente depois: "(...) resistam ao diabo e ele fugirá de vocês." (Tiago)

Voltando: Supondo, por um momento, que meu intuito com esse texto seja apenas tentar elucidar o conceito de esperança, eu poderia dizer que ela é o levantar-se da cama a despeito de todas as intempéries da realidade. A esperança é como andar... Nós não prestamos atenção aos passos, não os planejamos, não os calculamos através de raciocínios exaustivamente minuciosos. Nós somente andamos. Nós somente continuamos. Nós somente vivemos. A esperança é um "anjo de luz", que não precisa ser reconhecido para exercer sua influência e obter seus resultados. Ela não requer glória.

Entretanto, assim como citei no início do parágrafo anterior, meu objetivo vai além da petulância de tentar definir qualquer tipo de virtude e ou de desgraça. Não obstante, eu entendo que esse tipo de discussão tem seu valor, não como forma de encontrar respostas, mas como meio de ponderar a realidade – e as narrativas.

Talvez possam também pensar que eu tenha tentado refutar o filósofo Nietzsche e a psicanalista Maria Homem, mas o fato é que as chances jogam a favor deles. Tenho que me render, considerando a diferença entre os currículos, é mais provável que seja eu o equivocado. De qualquer forma, também não sei se almejo ter, um dia, gabarito que me autorize disputar ideias em pé de igualdade com pessoas de tamanha envergadura acadêmica e intelectual.

Desviando: O professor Clóvis de Barros Filho tem uma história interessante sobre a disputa de ideias apenas por ideias, quero dizer, sem o apadrinhamento da autorização social. Ele menciona um exemplo próprio, quando descobriu que o valor do discurso não está no que se diz, mas na legitimidade do porta-voz. Como professor iniciante, ele teve seu microfone cortado enquanto fazia uma pergunta que colocava em xeque o que estava sendo debatido, em um congresso sobre ética nas profissões. Quinze anos depois, então com o atual reconhecimento público, ele foi convidado para discursar no mesmo congresso, tendo, desta vez, seu discurso – de quinze anos atrás – sido socialmente autorizado. Recomendo ouvir a história diretamente dele, neste vídeo.

Voltando: Finalmente, apesar de todo aquele palavreado pseudo-filosófico, meu ponto é observar que, se não ficarmos atentos, deformam as narrativas, acobertam a realidade, pensam por nós e quando nos dermos conta – se nos dermos conta –, teremos retornado à caverna cheia de sombras, sem oferecermos nenhuma resistência. E não me refiro a estar certo ou errado, mas ao conhecimento formado através da "mastigação moderna" por parte de outros.

Quando se ganha uma caixa de presentes – cheia de ideias – como garantir que seu conteúdo não se torne desgraça, mas se manifeste como virtude? Não consigo imaginar outra forma, senão corrigindo nossa miopia com os ótimos óculos da leitura e dos estudos. Isso nos capacita questionar com propriedade, pois não o fazemos por nós mesmos, mas através das lentes de grandes pensadores anteriores a nós. E, acredite, a imponência intelectual deles é de dar inveja. Além disso, como diz um antigo provérbio: "o primeiro a se manifestar está sempre correto, até que venha alguém e comece a lhe fazer perguntas." E temos ficado atentos a todos os aspectos das perguntas?