domingo, 17 de julho de 2016

Os Artistas Passam, o Espetáculo Continua

"O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou."

Bobos da corte eram funcionários encarregados de fazerem reis e rainhas rirem, isso lá pelas tantas dos séculos XIV a XVI. Justamente por causa dessa incumbência, eles eram as únicas pessoas autorizadas a criticarem os monarcas sem que corressem risco de vida. Entre suas peripécias, muitas vezes apontavam os vícios e as ignorâncias da sociedade de forma bem grotesca. Por isso, com exceção do casal real, as pessoas sempre consideravam os bobos bem desagradáveis.

Não devemos confundir bobo da corte com palhaço. A principal diferença é que este último tem como base a ingenuidade e a inocência, expondo a si mesmo ao escárnio, enquanto o bobo da corte desnudava o ridículo e as incoerências das autoridades e da sociedade. Pensando na etimologia da palavra, pelo menos para o Português, palhaço vem do italiano paglia, que quer dizer palha. Por volta do século XVI esse material era muito utilizado para preencher colchões de dormir. Os precursores das palhaçadas vestiam-se do mesmo tipo de pano usado nos colchões, preenchendo as partes mais salientes do corpo também com palha, para poderem dar suas cambalhotas sem se machucarem.

Eu nunca tive a chance de conhecer um bobo da corte, em função do século que eu nasci, claro. Porém já vi bastantes palhaços. Muitas crianças tem medo deles. Eu não lembro-me de temê-los, mas de fato, não eram seres sobre os braços de quem eu me atirava. Eu gostava de manter certa distância e confesso que ainda hoje prefiro rir de longe.

Enquanto lembrava de palhaços e da minha infância, eu me dei conta de algo "inédito". Até por volta dos meus vinte e cinco anos de idade, eu, inconscientemente, mantive-me separado do conceito de adulto. Como assim? Durante a maior parte a minha vida, os meus pais foram adultos e eu fui criança, adolescente, ou  jovem. Dias atrás, percebi que aos vinte cinco anos eu entrei em uma faixa de idade que, enquanto criança, eu vi os meus pais terem. Isso mudou drasticamente a forma de olhar para mim mesmo, foi quando eu "percebi" que eu sou adulto. Não que eu não soubesse disso a mais tempo, mas é diferente quando você realmente toma consciência disso e deixa de ser apenas uma ponderação. Parece que quando esse tipo de percepção acontece os fatos tem mais peso. Já falei aqui, por exemplo, que faz muito tempo que eu sei que a morte existe, mas apenas poucos anos atrás eu ponderei de fato que ela está a um suspiro de distância de cada um de nós.

Desviando: Mario Sergio Cortella disse nesse vídeo que o primeiro ato de uma pessoa após o nascimento é inspirar o ar. O último ato, imediatamente antes da morte, é expirá-lo. E que entre esses dois momentos existe vida.

Voltando: Já que tocamos no assunto morrer, lembrei-me de outra abstração (é intrigante como um tema puxa outro e tudo parece se conectar – espero que se conecte). A morte é algo que está ao nosso redor, sempre presente, e todos sabemos que o nosso dia chegará. Ela é tão natural quanto o nascimento. Porém, tratamos o fim bem diferente do começo. A morte nos espanta mais do que o nascimento nos arrebata. É estranho como, apesar de tão presente e trivial durante toda a nossa existência, nós não nos adaptamos a ela. Acho que isso acontece porque é uma experiência individual e consciente. Quando uma criança nasce, a casa se enche e a mente do bebe é como um computador vazio que ainda precisa ter os softwares instalados (como diria um amigo meu). A criança não faz ideia do que está acontecendo, por isso o nascimento é muito mais uma experiência de quem já está aqui do que de quem está chegando, pelo menos de forma lúcida. No dia do nosso fim, a viagem será uma experiência mais de quem está partindo, solitária, deixando para trás todos os que ficam e consciente do que se passa (salvo algumas exceções). Aliás, fico curioso ao tentar imaginar quais seriam nossas ansiedades se existisse uma fila para nascer.

Até certo ponto, nós podemos considerar que a vida nos generaliza, mas a morte nos individualiza. Quando nascemos, entramos para o grupo. Quando morremos, deixamos o grupo e vamos sozinhos. Acredito que, naquele momento final, devemos ter a sensação de que o tempo passou mesmo, de que não era apenas uma história para crianças, como aquelas que contamos para que se mantenham afastadas do perigo. Acredito que, naquele instante, nós devemos sentir um grande peso por termos evitado pensar no assunto, da mesma forma como eu prefiro manter os palhaços a certa distância, pois do contrário teríamos tido coragem, ou motivação suficiente para fazer escolhas diferentes.

Desviando: Depois que a vela é acesa, não precisamos fazer mais nada até que ela se consuma até o final. A diferença entre nós e uma vela? Ela não sabe que está acesa. Ou isso seria uma semelhança?

Voltando: Para mim, elucubrar sobre tudo isso é bom e ruim. É bom pois permite reduzir um pouco o peso lá no final, ao guiar-me por alguns lampejos de escolhas que realmente importam. É ruim, pois sinto-me como um doente terminal, que sabe do valor de fazer só o que realmente importa, mas sem a doença propriamente dita, sobre a qual eu poderia apoiar-me para que a sociedade não me considerasse um lunático, já que me falta a coragem. Enfim, eu estou vivendo esta fase, de trabalhar a ousadia na tentativa de aproveitar melhor o tempo sem ser considerado um desequilibrado (já falei disso aqui). Tenho que dar um jeito de ser considerado no máximo um excêntrico, pois está mais na moda e a sociedade considera a moda o máximo.

"Tempo, fique parado
Eu não estou olhando para trás
Mas quero olhar ao meu redor, agora
Tempo, fique parado
Ver mais das pessoas
E dos lugares que me rodeiam, agora.
(...)
O verão está passando rápido
As noites ficando mais frias
Crianças crescendo
Velhos amigos ficando mais velhos"

Eu não disse que tudo tinha que se conectar de alguma maneira? Pois então, o tempo é um grande bobo da corte de pseudo reis sentados em seus pseudo tronos, que estão sendo ridicularizados por fazerem bobagens para parecerem sérios. Porém, existem alguns palhaços que, percebendo suas ingenuidades, passaram a rir ou a chorar de si mesmos. Eu estou tentando migrar para o grupo dos palhaços, que fazem bobagem para parecerem bobos.


Agradecimentos: A PB, de quem tirei a ideia de que um bebê é como um computador vazio e a SR que sugeriu o tema sobre o tempo que passa.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Há Coisas Que Ganhamos Mesmo sem Acreditar Nelas

"Mesmo as pessoas que dizem que tudo está predeterminado e que não podemos fazer nada para mudá-lo, olham para os dois lados antes de atravessar a rua."
Stephen Hawking

Foi Gregor Mendel quem, em 1866, estabeleceu pela primeira vez, através de estatística, padrões de hereditariedade em algumas espécies de ervilhas. Hoje, já sabemos que a genética é o que nos determina biologicamente, geração após geração. Em síntese, um conjunto de características herdadas de nossos antepassados, todas codificadas em cadeias moleculares e armazenadas em cada uma de nossas células. Nosso código genético possui todas as informações necessárias para "montar" cada estrutura de nosso corpo, desde um fio de cabelo até um órgão extremamente complexo, como o nosso cérebro. Porém, e os nossos comportamentos? Eles estariam também registrados nesses códigos? Se sim, nossas formas de agir, pensar e reagir poderiam ser pré-definidas? Nossa personalidade vem "pronta de fábrica", ou é construída ao longo de nossa vida?

É muito interessante ver um pássaro chocando um ovo, ou uma criança com minutos de vida sugando o peito da mãe pela primeira vez, ou ainda um bezerro tentando levantar-se segundos após ter nascido. De onde vieram estes comportamentos, uma vez que não são conscientes? Estariam registrados nos códigos genéticos?

Desviando: É prudente tomar muito cuidado ao dizer que comportamentos podem ser definidos geneticamente, o que chamamos de determinismo genético. Esse raciocínio pode levar a perguntas como, quanto uma pessoa é culpada de um crime de fato e quanto ela não teve opção e foi programada a tais tendências? Também surgiram na História pessoas que tentaram eliminar alguns grupos étnicos baseando-se na ideia de perfeição genética. Tudo bem, naquele caso as motivações foram outras e o DNA teria sido usado apenas como subterfúgio. Mas já parou para pensar na lenda do Tarzan? Homem branco, olhos claros, filho de aristocratas, criado por gorilas, que conseguiu se desenvolver sozinho mesmo perdido em uma floresta, que virou líder dos símios e que, de volta ao mundo civilizado, também apresentou habilidades físicas superiores aos demais seres humanos. Pois então, essa lenda foi criada em 1914.

Voltando: Existem sim tendências de comportamentos armazenados em nossos genes, mas é importante lembrar que a classificação do que é bom contra o que é ruim somos nós que fazemos e não a Natureza. Aliás, justamente por não lembrarmos disso, nós temos dificuldade em aceitar que alguns comportamentos sejam tendências genéticas. Eu já falei aqui, por exemplo, que não temos dificuldade nenhuma em associar diferentes comportamentos entre diferentes raças de cachorro, mas que quando olhamos para nós, tendemos a desconsiderar a possibilidade de que ansiedade, passividade, impulsividade, entre outros, possam "estar no nosso sangue". Até levantei a pergunta, nos medicamos para voltar a ser, ou para deixar de ser?

Vamos pensar em uma máquina, pois são ótimos exemplos. Se um computador conseguisse imitar a consciência humana em todos os seus aspectos, poderíamos dizer que ele possui personalidade? Não seria apenas um software extremamente complexo executando linhas de código? Pois então, nós fomos programados, ou somos livres? Quanto de nós está mesmo sob nosso controle? A pergunta central, ou o devaneio de hoje: e a nossa liberdade?

Eu acredito que o livre arbítrio é impreterivelmente resultado de sermos pretendidos. Se admitirmos que fomos colocados aqui, propositadamente, só nesta condição podemos acreditar que nossa liberdade existe. Pense no contrário. Se considerarmos que tudo não passa de probabilidades, então não temos escolhas. Nós seremos o resultado de pura causalidade, de eventos baseados em causa e efeito. Uma bola de bilhar batendo em outra, que bate em outra, que bate em outra e assim por diante.

Imagine que você encontrou alguém com quem deseja passar o resto dos seus dias. Se você acredita que tem livre escolha, você sabe que pode parar de procurar um(a) companheiro(a), que você tem mérito na manutenção do seu relacionamento, que você está construindo algo com alguém, que você está do lado de quem você escolheu continuar ao lado. Porém, se você considerar que a existência não passa de "lançamento de dados", você terá que acreditar que tudo que ocorreu no Universo, inevitavelmente, levaram-te até o momento em que reações bioquímicas do seu corpo fizeram você se aproximar do(a) seu(ua) amado(a). E pior, tudo continua sendo apenas reações, causa e efeito que prendem você a pessoa "amada". Neste caso, você não tem escolha, nunca teve. Pura causalidade e você teria que se perguntar, o que é o amor, o respeito, as conquistas, o talento, a própria vida? Uma realidade, ou uma ilusão?

Desviando: Certo homem tinha a função de cruzar cidades para ajudar pessoas a tornarem-se indivíduos melhores. Porém, havia uma cidade específica, cujo povo ele detestava. E o que o homem temia aconteceu, foi incumbido de ir também àquele local odiado e mostrar às pessoas como poderiam ser mais evoluídas. Sem cerimônias, ele negou, pois não queria que aquele povo se tornasse melhor, queria sim que todos desaparecessem da face da Terra. Porém, acabou indo obrigado. Literalmente capturado, ele foi transportado até a cidade. Uma vez no povoado, sem outra alternativa, concluiu com sucesso o seu trabalho, mesmo ainda abominando aquelas pessoas. Pois bem, essa história sugeriu-me duas perguntas. Primeira, o livre arbítrio daquele homem foi suprimido? Tenho para mim que ele possuía uma função, por isso, se quisesse mantê-la, era obrigado a executar a sua tarefa. Porém, o direito de amar ou odiar as pessoas daquela cidade não lhe foi tirado. A mente dele não foi transformada, como um software de computador, para que ele obrigatoriamente passasse a amar aquela gente. A individualidade dele foi respeitada. A segunda pergunta, quem pode garantir que o objetivo daquela jornada não seria ensinar justamente o instrutor a ser uma pessoa melhor? Para quem se interessou pela história, o nome do homem era Jonas e o nome da cidade era Nínive.

Voltando: Qual a reposta correta? Fomos ou não fomos colocados aqui? Somos ou não somos livres? Quando algo parece ter várias respostas não quer dizer que signifique tudo necessariamente, mas sim que ninguém conhece ainda qual é a verdade.

O meu palpite? Seguir regras e códigos não significa não ter livre arbítrio, assim como não segui-los, não significa ser livre. Todas as nossas escolhas, por mais pesadas ou mais leves que sejam, estão relacionadas aos ganhos que pretendemos, a quão valiosos os consideramos. Se nunca soubéssemos que há uma opção diferente daquela que escolhemos e vivêssemos presos a uma única alternativa como realidade, nesse caso sim, nós não teríamos livre arbítrio. A verdadeira liberdade é ter opções de individualidade. É nunca ser como o lado de uma moeda, que jamais saberá que o outro lado existe.

Enfim, você é livre para escolher se prefere acreditar na causalidade ou na liberdade. Ninguém conseguirá provar o contrário do que você optar, pois se fosse possível provar, isso inevitavelmente tiraria seu livre arbítrio.


quarta-feira, 22 de junho de 2016

Fisgados pelo Nariz

"Nenhum preço é alto demais quando se paga pelo privilégio de ser dono do próprio nariz."
Friedrich Nietzsche


O conceito entre o bem e o mal não é tão antigo quanto aparenta. Começou a despontar com Demócrito, através de seus significados absolutos, em 400 A.C., período da filosofia pré-socrática. Resume-se a avaliação de objetos, pessoas e comportamentos sob um espectro dualístico. O bem refere-se a aspectos pró vida, continuidade e felicidade, enquanto o mal destaca-se pelas características contrárias a estas. Porém, atualmente, está cada vez mais difícil separar os dois lados. Às vezes encontramos motivações maldosas no bem que é praticado e outras vezes até conseguimos identificar alguma nobreza em situações de cunho negativo. Não é à toa que os anti-heróis tem feito muito sucesso. Uma mistura entre o bem e o mal, o dia e a noite, deuses e homens. Tenho a opinião de que essa mescla é vital para que os Homens elevem-se à condição de deuses. Precisamos dar um jeito de explicar um Universo em que seus senhores podem ser imperfeitos. O que fazemos? Fundimos o bem com o mal.

Nesta matéria, sobre os dez momentos nos quais o "politicamente correto" passou dos limites, entre as várias situações bem intrigantes, uma chamou mais a minha atenção. Uma atleta brasileira foi assaltada e levou um tiro dos agressores. Ela foi entrevistada e questionada sobre o que gostaria de dizer aos bandidos...

"Entrevistador: Você diria alguma coisa aos rapazes que lhe assaltaram?
Vítima: Só consigo pensar em desculpas. Eu sinto muito, porque, infelizmente, o que aconteceu comigo é reflexo da sociedade em que vivemos.
Entrevistador: Você gostaria de pedir desculpas a eles?
Vitima: Sim.
Entrevistador: Por quê?
Vitima: Porque assim como fui vítima, eles são vítimas de tudo que vivemos hoje. É muito frustrante passar por uma situação como essa e ver que as pessoas se colocam nessas posições para sobreviver."

Uma dúvida me ocorreu, que tipo de discursos temos ouvido para que passemos a questionar o mal? Por que estamos ficando em dúvida sobre o que realmente é mau e o que de fato é bom? Quem tem feito esses discursos? São conclusões inevitáveis, ou são ideias alicerçadas tijolo a tijolo nas nossas mentes?

Desviando: Existe uma história antiga que diz que o Homem vivia na inocência. Naquele período, ele habitava o Paraíso. Em algum momento, por quaisquer que tenham sido as razões, o Homem deixou a pureza e fez distinção entre o bem e o mal. Conta a história que, a partir daquele instante, o Homem iniciou seu processo de decadência. Continuando na linha do tempo, agora olhando para o futuro, o mesmo livro faz uma previsão. Diz que chegarão tempos em que o Homem não mais distinguirá o bem do mal, mas os dois conceitos irão misturar-se em sua mente, por consequência, reverberando em tudo que seja proveniente de sua mão. O livro conclui que esse período será o último estágio da decadência. Será o período da autodestruição.

Voltando: Imagine que você possui um amigo que, frente a atual crise política e econômica, passa por sérias dificuldades financeiras. Ele acaba sendo despejado de casa, pois deixou de pagar as parcelas do financiamento imobiliário. Você, sensibilizado com a situação, oferece abrigo a ele e família até que possam equilibrar-se novamente. Poucos dias após instalarem-se na sua casa, acontece algo inesperado. O filho deste amigo faz um mal terrível ao seu(sua) filho(a). Algo chocante, "imperdoável" (imagine o que quiser). Você não sabe se chora de tristeza ou de raiva. Emocionalmente, você não consegue separar a responsabilidade do garoto da responsabilidade do amigo. Racionalmente, você sabe que precisa ponderar tudo com muita calma para chegar a melhor solução possível. Ou vice-versa. A culpa é do garoto, ou é do pai dele? O garoto é malvado, ou ele é a consequência da criação que recebeu? Do ponto de vista do seu(sua) filho(a), a culpa poderia ser sua, por ter aberto a porta de casa para "estranhos"? Ou foram todos vitimas da situação econômica e política do país?

Tudo bem, você poderia responder que nunca passaria por uma situação assim. Por que deveria ficar imaginando situações como esta? Talvez você tenha razão. Porém, os governantes europeus não podem dar essa mesma resposta, pois são justamente situações como estas que eles estão enfrentando, com as imigrações a partir de países do Oriente Médio. Algumas pessoas que fugiram de crises civis de seus países, que receberam abrigo, fizeram muito mal a mulheres europeias (filhas de alguém). Como resolver essa questão? Por mais que não aconteça diretamente conosco, é uma situação da qual fazemos parte. E o ponto é, nossos julgamentos estão distorcendo a fronteira entre o bem e o mal, ou esse limite nunca existiu de fato?

Sabe o que acontece quando o Homem perde-se em seus valores, tomando aquilo o que lhe é conveniente como certo ou errado? Abre-se a brecha para outro Homem apresentar um interesse que possa ser compartilhado. Então, o primeiro Homem, confuso, pode ser guiado cegamente. Já ouviu aquela famosa frase do conto "Alice no Pais das Maravilhas" que diz, "se você não sabe para onde vai, qualquer caminho serve"? Enfim, será que eu estou exagerando? A última experiência que tivemos com esse tipo de situação foi no período da Segunda Guerra Mundial, com Adolf Hitler. Aliás, a Segunda Grande Guerra foi uma das consequências das ações de um povo que deixou-se guiar, levianamente, por um líder que dizia conduzi-los à grande guinada para fora do caos.

Desviando: Sabe o que é interessante? O mesmo livro que citei no "desviando" anterior conta que quando os seres humanos, globalmente, perderem-se em seus valores, um homem surgirá com a resposta e os guiará ao seu próprio extermínio. Você acha que isso nunca mais poderá acontecer de novo? Então recomendo-lhe assistir o filme "A Onda", informar-se sobre a cadeia de eventos que embasaram o Terceiro Reich e comparar com o que tem acontecido nos dias de hoje, mundialmente. Não sei você, mas eu fico muito espantado com essas coisas. Se fosse eu quem tivesse escrito o livro que venho citando, eu colocaria essa frase no final, incluindo a interrogação: "Isso é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência (?)". Ou, talvez, eu apenas desse o nome de profecia.

Voltando: Nós não aceitamos mais fazer o que tem que ser feito apenas porque é o correto a se fazer. Nós relativizamos os conceitos, pois sempre há alguma conveniência. Nós não nos guiamos mais nem pela razão, nem pela emoção. Não nos guiamos mais nem pelo ceticismo, nem pela fé. Já falei aqui que, mesmo sabendo que temos 171.452 vezes mais chances de morrer a caminho da lotérica do que de ganhar na Mega-Sena, nós ainda assim escolhemos sair de casa para fazer uma aposta. Outro exemplo? Um religioso que segue uma vida reta porque tem medo de passar a eternidade sofrendo e não porque é o que deveria ser feito. Os ideais são avaliados em função de nossos interesses. Infelizmente, isso nos trará o caos um dia. Basta que a situação fique crítica o suficiente, então estaremos suscetíveis a liderança de alguém que apresente um caminho coletivo, que nos guie por entre os vales das nossas dúvidas, mesmo que não saibamos bem onde iremos chegar.

Minha conclusão? Não é que o bem e o mal não são tão bom e mau, respectivamente, mas o verdadeiro bem é muito mais sublime do que podemos imaginar e todo o resto é mau. Nós sentimos isso, mas não assumimos, pois é mais conveniente que tudo seja circunstancial. Pensar assim nos dá a sensação de que somos donos do próprio nariz, seja qual for o preço. Uma pena que não consigamos enxergar as consequências um palmo a frente deste mesmo nariz.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Um Otimista Idealista ou Pessimista Sem Expectativas?

"O que esse país realmente precisa é que alguém apague a luz no fim do túnel"
Millôr Fernandes


Semanas atrás, almoçando com amigos, eu fui questionado por um deles (é importante contextualizar que, naquele dia em específico, o processo de impeachment da até então presidente do Brasil seria analisado). A pergunta foi, "seus textos são somente filosóficos, ou você vai aproveitar a atual situação política do país e dar sua opinião?" Eu respondi, "não sabia que meus textos eram filosóficos." Aquele meu amigo conseguiu criar a inquietação em minha mente. A pergunta ficou lá, coletando informações, formando e estruturando uma raciocínio, até que finalmente, três ou quatro semanas depois, acabou virando um texto. Tudo bem, irei dar minha opinião sobre política, mas não sem ir mais além.

Desviando: Há muito tempo, vendo o programa Show do Milhão no SBT, eu ouvi o Silvio Santos fazer um comentário que nunca mais esqueci. O objetivo do jogo era responder perguntas de conhecimentos gerais, acumulando dinheiro a cada acerto. Quando o participante tivesse somado um montante considerável, as regras do jogo forçavam-no a arriscar nas perguntas seguintes o que ganhara nas anteriores. Um dos participantes, tendo acumulado uma quantia significativa em dinheiro, abandonou o jogo praticamente na reta final. Ele ficou com o que tinha conquistado e desistiu de seguir em frente até a pergunta de um milhão. Foi aí que o Silvio Santos fez o comentário. Não lembro exatamente as palavras, mas foi praticamente isso: "Você começou o jogo com algum dinheiro? Tudo o que você ganhou até aqui era seu? Então porque você está com medo de arriscar aquilo que você nunca teve na tentativa de conquistar mais?"

Voltando: Recentemente, um pensamento veio a minha mente. Se eu fosse eterno, provavelmente viveria todos os meus dias sempre iguais, pois as possibilidades de viver um dia diferente seriam infinitas. Eu teria incontáveis chances de escolher diferente quando quisesse. Continuei ponderando... Se eu fosse eterno e tentasse imaginar uma vida finita, provavelmente eu diria que, nesse caso, aproveitaria ao máximo a minha vida diariamente, sabendo que ela poderia acabar a qualquer momento.

Eu aprendi três lições com esse raciocínio. Primeiro, eu vivo uma vida finita como se ela fosse infinita. Segundo, o meu planejamento nunca condiz com a realidade, ou seja, quando a situação idealizada se torna realidade, não faço o que digo que faria. Eu penso em possibilidades diferentes apenas pelo prazer de imaginar outro contexto. Terceiro, eu tenho muito medo de perder o que nunca foi meu.

Desviando: Em certo trecho de um discurso, Steve Jobs fala sobre o fim da vida. Transcrevo as palavras dele.

"Pelos últimos 33 anos, eu olho-me no espelho toda a manhã e questiono-me: 'e se hoje fosse o último dia da minha vida, eu faria o que eu estou prestes a fazer hoje?' E mesmo que a resposta tenha sido não para muitos dias seguidos, eu sei que preciso mudar alguma coisa. Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que encontrei para ajudar-me a fazer grandes escolhas na vida. Porque quase tudo, todas as expectativas externas, todo orgulho, todo medo do constrangimento ou fracasso, essas coisas simplesmente somem frente a morte, restando apenas o que é verdadeiramente importante. Lembrar-se que você vai morrer é a melhor maneira que conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu, não há razão para não seguir seu coração. (...)"

Voltando: Eu particularmente não acredito em "vida loka". Então, o que eu projeto como vida plena? Deixe-me refletir um segundo... Ah sim. Pense em tudo o que existe no mundo e que é bom, mas que não foi construído pelo homem, ou não sofreu sua interferência. Não vou dar exemplos, pois não quero ser tendencioso. Eu sinto-me desapontado comigo mesmo, por ajudar a esculpir um mundo em que as coisas que consideramos boas estão sendo fabricadas. E fico mais frustrado ainda em reconhecer que tenho medo de apostar o que eu nunca tive para conquistar o que é bom de fato. Paradoxalmente, se eu tivesse a vida que idealizo, provavelmente eu ainda iria querer construir um mundo diferente.

Onde eu quero chegar com todo esse discurso? Eu estou tentando dizer que, como ser humano, é de minha natureza acreditar que "a grama do jardim do vizinho é sempre mais verde que a grama do meu jardim", mesmo que o vizinho não tenha um jardim. E para continuar acordando de manhã, levantando da cama, eu transfiro o vazio que eu sinto para causas tangíveis, como um emprego, um cargo, uma casa, um relacionamento, a política. Tão logo um objetivo seja conquistado, outro propósito precisa ser criado, para que o ciclo se reinicie. Quando isso vai terminar? Nunca, pois eu tenho uma fome e uma sede que não serão saciadas por nada que eu possa fazer. Cortinas de fumaça, iludindo-me a acreditar que um dia o ciclo se encerrará. Tudo isso para que eu não precise olhar para dentro, para o meu próprio jardim, para a verdade, de que eu sou limitado.

Talvez agora seja a hora de dar a minha opinião sobre política. Pense nas principais civilizações humanas da história. Tenha em mente os Sumérios, Babilônios, Assírios, Egípcios, Hebreus, Persas, Fenícios, China Antiga, Grécia Antiga, Roma Antiga, Império Bizantino, Império Mongol, Idade Média, Império Otomano, América Pré-Colombiana, Europa, Alemanha, Rússia, EUA e até o Brasil. Dentro do Brasil vamos nos lembrar do Império, da Republica e da Ditadura Militar. Pense no primeiro presidente brasileiro após a Ditadura e que foi deposto. Pense na presidente atual, do partido de esquerda, a esperança de mudança e que também está sofrendo processo de impeachment. Responda, quando o ciclo se encerrará? Quando vai melhorar? Com quem vai melhorar? A partir de qual governo as coisas serão mesmo diferentes? A humanidade está mesmo evoluindo? Os dias de hoje são menos violentos? Passa-se menos fome? Respeita-se mais? Os interesses atuais são mais nobres do que foram nas civilizações passadas? Que plano, que ação, que revolução foi realmente eficaz? Tudo bem, atualmente temos o sofá, a TV, o controle remoto, o celular, a Internet e o quarto com banheiro (para quem pode tê-los). Talvez as coisas realmente tenham melhorado um pouco (espero que tenha entendido que tentei ser irônico).

Por piores que sejam e mereçam mesmo a punição, os depostos de todas as civilizações não passaram e não passam de "bois de piranha", mais uma vez a cortina de fumaça, para que um novo ciclo possa recomeçar. Assim tira-se a atenção do verdadeiro responsável pelo mundo construído, nós mesmos. Nós ficamos sempre lutando contra um vilão que está lá fora, pois se ele está lá, não pode estar aqui. Se o bicho-papão é ele, não pode ser eu. Todos os problemas deveriam ter sido resolvidos por ele, mas não foram, então é hora de colocar outro ele no lugar. Assim, não precisamos assumir o fato de que não conseguiremos.

Enfim... Se eu não consigo transformar a minha essência através das minhas próprias forças, assim como a humanidade nunca terá um futuro diferente do que teve nos últimos dez mil anos, então a última opção é algo além, para que sejamos completos, para que sejamos plenos, para que a humanidade evolua no mais absoluto do sentido da palavra. Não adianta mais continuar me enganando, o mundo nunca ficará melhor através das minhas mãos, o que me conduz a uma última esperança, de que a solução só poderá vir de longe.

"Eis que eu lhes digo um mistério: nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados. Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade."
1 Coríntios 15:51-53

Talvez eu não seja tão pessimista, mas seja um baita de um otimista, visto que eu não tenho mais a expectativa sobre as promessas dos homens, porém esteja susceptível as promessas excelsas. Ou eu sou mesmo um pessimista sem expectativa nenhuma, ou eu sou um otimista bem idealista. No entanto, não descarto a possibilidade de que os dois conceitos sejam meros sinônimos.

Agradecimento: ao FOS, que perguntou-me se eu escreveria um texto sobre a atual situação política do Brasil e que acabou inspirando o texto de hoje.

Abraço: aos amigos RLC, PB e RT, que também estiveram junto no almoço relembrando tempos bons.