quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Um Sonho de Liberdade

"Amigo é aquele que a gente seja, sem precisar de saber por quê é que é."

Às vezes, eu vejo na TV Cultura o programa Café Filosófico. Uma das edições foi conduzida pelo historiador Leandro Karnal, e o assunto foi "O medo à liberdade: dos ditadores à auto ajuda". Ele discorreu sobre o trabalho do filósofo francês Étienne De La  Boétie, intitulado "Discurso sobre a servidão voluntária". O filósofo, em sua publicação, tentou entender porque a submissão é tão sedutora, mas, diferente da maioria, fez uma análise avaliando os tiranizados ao invés dos tiranos.

É de se admirar que um garoto de apenas 18 anos, no século XVI, tenha tentado entender as medidas de dor e de prazer que podem haver na submissão. Por exemplo, como colocou Karnal durante a palestra: a feminista Betty Friedan citou no livro "A Mística Feminina", "o lar é um campo de concentração confortável"; Étienne provavelmente perguntaria, "mas se é confortável, quem o decorou?"

Segundo Étienne, "um tirano pode estar em um sistema político, mas também em uma droga, uma tradição, um hábito, um modismo, um guru". Dessa maneira, por que as pessoas sempre se prendem a algo? Por que sempre obedecem? Por que abrem mão da capacidade de decidir? Por que precisam que seja dito o que devem ser? A quem se entregam depois de conquistar a liberdade?

Em determinado ponto do programa, Karnal disse: "Aquele que perde a liberdade ganha a servidão. A servidão é mais confortável do que a liberdade". Já citei aqui o caso dos hebreus que, ao tornarem-se livres, e portanto responsáveis por si mesmos, reclamaram das dificuldades encontradas durante a liberdade, à ponto de desejarem nunca terem deixado a escravidão no Egito. Karnal disse ainda: "Ser livre nos torna responsáveis diante da escolha. Ser livre representa angústia. Curiosamente, a liberdade profunda, que não existia até há pouco tempo – escolha de profissão, de casamento, de estado civil e até de gênero sexual –, essa escolha que não existia de forma tranquila, não nos tornou brutalmente felizes". Eu não sei você, mas, de fato, eu sempre tive certa dificuldade em preparar meus pratos em restaurantes do tipo self-service.

Étienne trata ainda, em seu trabalho, de algumas estratégias do tirano: "Trair o pássaro com um apito, ou o peixe com a isca do anzol é mais difícil que atrair o povo para a servidão, pois basta passar-lhe junto a boca um engôdo insignificante. O teatro, os jogos, as farsas, os espetáculos, as feras exóticas, as medalhas, os quadros e outras bugigangas eram para os povos antigos engôdos da servidão, preço da liberdade, instrumentos da tirania."

No caminho das estratégias de controle, Karnal tentou estabelecer as diferenças entre a imposição e o voluntariado. Ele usou um exemplo: "Celulares. Nossa vida exposta ao mundo. Nossas coleiras eletrônicas. Somos localizados onde estivermos. Fornecemos as informações alegremente. Hitler dirigiu uma ditadura bárbara com o auxílio da Gestapo. Hoje, uma central de celulares tem mais informações sobre o cidadão do que a Gestapo jamais sonhou. Na democracia atual há mais controle do que na ditadura, mas há mais liberdade. Somos um exemplo jamais sonhado por Étienne de servidão voluntária. Construímos nessa época de liberdade a gaiola mais dourada que o ser humano já criou. As gaiolas durante as ditaduras eram feitas de chumbo. A nossa gaiola é brilhante, decorada com o que há de mais moderno. A gaiola que Étienne denunciou poderia ser derrubada, a nossa eu creio que não, pois é gostoso morar nessa gaiola. Outro aspecto da servidão, que Étienne não tratou: nosso amor a gurus. Por que queremos que alguém nos diga o que fazer, o que comer, o que ler e o que pensar? Por que há programas de como se vestir, como cozinhar e como cantar? Por que eu quero tanto que me digam o que eu devo ser? O sucesso da autoajuda não é apenas dizer coisas doces, mas é dizer o que eu quero ouvir. O que se coloca no lugar da liberdade? O problema não é derrubar a ditadura, não é sair da casa dos pais, não é romper com o marido opressor, não é deixar um emprego com chefe autoritário. O problema é, o que eu coloco neste lugar?"

Citando Marcel Conche, "o tirano tiraniza graças a uma cascata de tirania". Karnal acrescenta: "Quem humilha, também foi humilhado. Quem controla, foi controlado e se vinga controlando mais. Assim o tirano vai do topo a base da pirâmide, sendo respeitado voluntariamente por pequenos tiranos que se produzem na sala de aula, no trânsito, nos condomínios e nas famílias."

Para encontrar a alternativa a uma vida de tirania, uma vida de controle, é necessário entender algumas pistas deixadas por Étienne. Ele diz que quando os maus se reúnem, há uma conspiração, mas não uma sociedade. Como a amizade floresce na igualdade, o tirano não pode possuir amigos, pois coloca-se acima de todos. O preço da tirania é o isolamento. Assim, a opção para escapar de controles é a única relação humana onde o controle não pode existir, onde a isonomia é muito grande: a relação de amizade.

Finalmente, a frase de Michel de Montaigne, em homenagem póstuma a seu amigo Étienne: "E se me esforçarem a dizer por que eu o amava, sinto que isso não possa ser expresso. Apenas, eu responderia, porque era ele, porque era eu."

Karnal concluiu sua palestra dizendo: "Meu amigo é diferente e é igual, porque é ele. Meu amigo me permite que eu seja eu mesmo. O amigo faz que eu seja mais eu. O tirano faz que eu seja menos eu. O amigo se dirige a mim sendo ele. Eu me dirijo ao tirano sendo súdito." Ele ainda extrapola o conceito: "Parem de seguir gurus de moda, de culinária, de comportamento, de expressão. Parem de seguir gurus que ditam coisas. Parem de querer que te digam o que ou quem você deveria ser. Libertem-se da servidão voluntária."

Desviando: Às vezes, você passa uma vida inteira ouvindo algumas frases e justamente porque as escutou tantas vezes, repetidamente, você acha que entendeu o que elas significam. Após assistir a palestra de Leandro Karnal, se Étienne De La Boétie e Michel de Montaigne tiverem razão em seus conceitos, eu passo a compreender de fato, em toda a sua complexidade, a seguinte mensagem, proferida dezesseis séculos antes de Étienne:

"Já não os chamo servos, (...) em vez disso, eu os tenho chamados amigos (...)"



segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

À Espera de Um Milagre

"Que o teu orgulho e objetivo consistam em pôr no teu trabalho algo que se assemelhe a um milagre."

Estudando um pouco a história de algumas instituições filantrópicas, achei interessante divulgar um caso. Não é que eu tenha elementos para assegurar a entidade escolhida como a mais idônea, ou que eu a considere como minha representante, ou mesmo como a melhor entre as pesquisadas – apesar de identificar-me com ela. O ponto é que eu precisava de um exemplo para a reflexão, então acabei selecionando aquela que está ao meu alcance.

O Exército de Salvação é de denominação cristã protestante e uma das maiores instituições de caridade do mundo (se quiser ajudar clique aqui). Foi fundada em 1865, por William Booth, em Londres. Ela chegou ao Brasil em 1922 e atua em mais de 120 países através de igrejas, lojas beneficentes, abrigos, centros comunitários, hospitais, escolas, lares para idosos, creches, centros de recuperação, veículos e equipes de emergência. O lema da instituição são os três "S": Sopa; Sabão; e Salvação.

Desviando: Uma curiosidade do período da fundação foi que, à medida que o Exército de Salvação crescia em seu país de origem, no final do século XIX, também crescia uma oposição. Formou-se o Exército do Esqueleto, que perturbava os encontros e as atividades sociais do Exército de Salvação. Quem fazia parte da resistência? Donos de bares e tabernas que estavam perdendo suas clientelas, já que as pessoas deixavam seus vícios para se juntar as causas sociais.

Voltando: E pensando em socorro (cogitei usar a palavra caridade, mas ela aponta mais para quem doa do que para quem recebe), lembrei-me de uma discussão com um colega. Devemos mesmo fazer algo pela sociedade? Ou melhor, devemos mesmo socorrer quem precisa, fazendo algo que, a princípio, seria responsabilidade do Estado?

Eu não queria entrar nesse mérito, mas sinto-me compelido a esclarecer. Eu não acredito que o Estado tenha que dar um prato de comida a todos os necessitados, mas ele poderia atuar nesse problema de outra forma, investindo na sociedade – por exemplo, na economia, na educação, na indústria etc. Assim, haveria um melhor casamento entre as disponibilidades de emprego e de mão de obra. E foi exatamente aí que surgiu a dúvida. Se todos dermos um prato de comida a quem precisa, a incompetência do Estado não ficará mascarada? Não seria melhor que não socorrêssemos?

Não consigo divagar sobre essa dúvida sem "começar do começo". Existe o caminho mais fácil, que, inclusive, é o que está em vigor desde os primórdios. E ele é tão fácil – por não exigir esforço de raciocínio – que torna-se extremamente difícil evitá-lo. É uma corrente quase sem elos fracos. Exemplos? Se uma pessoa leva um tapa no rosto, é justificável, ou pelo menos explicável, que ela "pague na mesma moeda". Se falam mal dela, compreende-se por que ela fala mal de outras pessoas também. Se mentem para ela, não é estranho que ela também tenha suas "mentirinhas". Se não podemos ter, então vamos procurar alternativas paralelas, não é justo que somente nós fiquemos sem.

Desviando: Lembro-me de, quando criança, pedir autorização a minha mãe para poder acompanhar amigos em alguns passeios. Quando ela desconfiava de algum risco, prontamente me proibia. Eu tentava argumentar, "mas meu amigo vai". Ela respondia, "se ele se jogar no poço você também vai?". Parece ingênuo, mas nós ainda nos comportamos como as crianças que fomos outrora, a única diferença é que nossas brincadeiras estão mais sérias.

Voltando: A situação pode se complicar caso as leis e os códigos morais comecem a ser colocados em cheque. Não pense que estou exagerando. Já ouviu a história, recente, de que cada um tem sua própria verdade e que é politicamente incorreto contrariá-la? Se matarem um ente querido meu, eu posso agarrar-me a minha verdade e procurar por vingança. Se me roubarem, é simples, eu roubo outra pessoa e reponho a minha parte. E por aí vai...

Hoje o revide ainda é crime, mas qual será a evolução de um mundo de quase oito bilhões de verdades? Sabe qual o problema em aplaudir versos como, "é pela paz que eu não quero seguir admitindo"? É que qualquer tipo de ideologia pode se apoderar deles, principalmente em um mundo de verdades relativas.

Cada um por si, "olho por olho e dente por dente". Essa é a "lei da selva", mas não da consciência. Essa é a lei de animais, mas não de seres que pensam. Em épocas "menos" abastadas intelectualmente, mas não conceitualmente, o "poeta" diria que isso é "carne", mas não "espírito" (concordo, seria ultrajante pensar que os donos contemporâneos do Universo pudessem aceitar explicações utilizando palavras tão primitivas, mesmo que seja necessário pensar para entendê-las).

Como eu disse, é difícil quebrar a corrente, mais fácil é terceirizar a responsabilidade. É confortável dizer que eu sou o produto do sistema, pois isso não exige mudança de minha parte – inclusive, a responsabilidade do sistema já tornou-se um postulado, como se define em filosofia. Desconfortável é pensar que o sistema é o produto da minha existência. Eu reclamo do mundo, mas não tenho a mínima intenção de deixar de ser seu facilitador. Eu continuo achando que não faço parte do Estado.

É óbvio que, ao levar um tapa no rosto, eu sinto uma ânsia em retribuir na mesma medida, ou em proporções até maiores, para que não seja descontado apenas a violência física, mas também a moral. É óbvio que, quando eu vejo poucas pessoas ajudando, eu fico desanimado e penso em desistir. Porém, como diria a personagem Neo, no filme Matrix Revolutions, o problema é a escolha. Somente através da escolha é possível quebrar a corrente, e ela exige esforço. A escolha faz parte da consciência, enquanto o instinto é pura inércia. Aliás, já falei um pouco de escolha aqui.

Infelizmente, eu não acredito que a Humanidade vai melhorar, tampouco que teremos cada vez mais pessoas construindo um mundo melhor. Nós matamos tanto quanto matávamos há mil anos. Estupramos, roubamos, mentimos, traímos, distribuímos mal tanto quanto há dois mil anos (já mencionei isso aqui). Nossos Governos não são melhores do que os Governos das civilizações que nos precederam, mas são apenas mais organizados, ou, mais especificamente, só estão gerenciando em maior escala – hoje é mundial. Nós somos os responsáveis pelo nosso fim.

Se acho que não vamos melhorar, porque quebrar a corrente? Por que não se entregar para acelerar o processo de degeneração? Por que não desistir e deixar cada um por si? Por que ajudar? Não sei responder essas perguntas. O que sei é que existem dois tipos de pessoas e com qual delas quero ser comparado. Existem as que esperam por milagres e existem as que são parte do milagre.

Desviando: Existem duas formas de entender a multiplicação dos pães. A primeira é a maneira tradicional, com um cesto onde, à medida que pães e peixes eram retirados e entregues a multidão, novos eram gerados lá dentro (já discorri aqui sobre o gênio da lâmpada). A segunda forma é prestar atenção aos detalhes: disse aos discípulos, "deem vocês de comer à multidão"; pediu que a multidão (pelo menos 5 mil homens, sem citar mulheres e crianças) se sentassem em grupos de cinquenta; ergueu os cinco pães e os dois peixes (para que todos vissem o que seria feito), deu graças, os partiu e entregou aos discípulos que distribuíram às pessoas; consequentemente, aqueles que estavam sentados e tinham o que dividir entenderam o exemplo e fizeram o mesmo; a multidão se fartou e ainda juntaram-se doze cestos com as sobras.

Voltando: Não é que os milagres não virão, pois eles virão sim. O ponto é que nós somos o gatilho para eles. Lembrando de outra história daquele livro antigo, já que hoje eu estou bíblico, o Mar Vermelho se abriu somente depois que Moisés, expondo-se ao julgamento de milhares de pessoas, arriscando seu orgulho próprio e sua reputação, caminhou até a praia e ousou esticar o braço sobre água. Aliás, ele fez isso sozinho, ninguém caminhou com ele até o mar, nem ao menos como apoio moral.

A pergunta, portanto, não é se devemos ou não. A questão correta é se queremos ou não. Quem sabe o que esse mundo esteja precisando seja de mais Exército nas ruas.


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

História que Não se Conta em Palestras Motivacionais

"Os sonhos nos quais estou morrendo, são os melhores que já tive."

Os pais dela tiveram muita dificuldade em dar as condições que eles acreditavam serem necessárias para ela crescer física, intelectual e psicologicamente saudável. O básico nunca faltou, como um prato de comida, a higiene, um calçado, um vestido, um lápis, um caderno e eventualmente uma boneca, simples, de aniversário – o Natal resumia-se a um panetone, ofertado por um dos moradores da vizinhança, onde o pai dela trabalhava como jardineiro. A mãe montava guarda-chuvas para uma cooperativa.

Ela crescia sem sentir que precisasse de mais. Já citei aqui a seguinte frase de Stephen King , "uma criança, cega de nascença, só sabe de sua cegueira se alguém lhe conta". Porém, ao completar seis anos de idade – ou foram sete? – ela comeu do fruto do "conhecimento do bem e do mal". Naquele aniversário, assim como nos anteriores, a mãe dela colocou a fôrma de bolo surrada sobre a mesa, sentou a irmã em um pote de feijão sobre a cadeira – para que a caçula alcançasse a mesa – e posicionou-se de pé, junto ao pai, para todos cantarem Parabéns. Mas ela, desta vez diferente, indagou a mãe, "não vai ter velinha?". Ela nunca mais esqueceu o olhar que seus pais trocaram, enquanto o pai fincava no bolo aquela vela branca usada durante as tempestades, quando faltava energia elétrica. E seria mesmo difícil de esquecer, pois percebeu que repetiam-no todo último dia do mês, quando sentavam-se a mesa para fechar o balanço. Ela demorou para entender os motivos daquele tipo de olhar, precisava amadurecer para tanto, mas nunca teve dúvidas sobre o significado.

Ela era uma boa aluna, o pai a ajudava com os estudos. Porém, sempre estudou em escola pública, o que dificultava reconhecer se o sucesso se dava em função da capacidade intelectual, ou pela qualidade de ensino pouco desafiadora. Fato que, diariamente, ao chegar da escola, logo preparava a lição de casa. Sentava-se frente a uma das paredes frias e sem acabamento do quarto e tratava de deixar tudo pronto, pois quando seu pai retornasse do trabalho, após um banho rápido, iria conferir os "rabiscos" da garota. Ela parava apenas alguns instantes, para conferir pela janela a brincadeira das crianças na rua, e para lavar os pratos do jantar da noite anterior. Ela gesticulava com a boca, imitando a fala que o pai religiosamente citava enquanto saía do quarto, após conferir as tarefas da garota, "lembre-se, para continuar dependendo apenas de si mesma, dedique-se aos estudos".

Os pais dela sempre assumiram as responsabilidades financeiras da casa. Eles se esforçaram para que a filha fosse aquela que iria quebrar a corrente de "pobreza" da família e, consequentemente, teria um vida mais abastada. A única exceção foi o período em que ela frequentou a faculdade de Direito, pois precisou trabalhar durante o dia para custear as mensalidades da graduação noturna. Após pagar as contas na faculdade e comprar algum material, deixava o dinheiro restante debaixo do travesseiro do seu pai, enquanto ele dormia. Ele nunca teve coragem de enfrentá-la olho no olho para devolver aquelas sobras, preferia "engolir o orgulho à seco".

Durante um período de estágio, em uma consultoria de advocacia, ela conheceu seu noivo. Após a formatura, ambos decidiram se casar. Foi mais difícil deixar a casa de sua infância do que ela imaginou que seria. Talvez os cabelos grisalhos do pai tenham sido um golpe emocional baixo demais. A festa de casamento não esbanjou luxuosidade, mas foi melhor do que os seus pais jamais poderiam lhe oferecer. O noivo fez questão de bancar todas as despesas e prover ao seu grande amor, se não o mais glamouroso, o máximo que suas economias lhe permitiram. A maior parte da caderneta de poupança foi direcionada ao apartamento de 60 metros quadrados, que levaria 30 anos para ser quitado. Se as paredes não foram planejadas pelo casal, pelo menos os móveis e a decoração o seriam – lembre-se da criança cega de Stephen King.

Foram muito felizes. E agora, não por coincidência, lembrei-me de Vinícius de Moraes discorrendo sobre o amor: "que não seja imortal, (...) mas que seja infinito enquanto dure."

Passados dois meses do casamento dela – aliás, a lua de mel no litoral foi fantástica, mais pela companhia e o contexto do que pelas paisagens propriamente ditas –, voltando de um restaurante para o escritório, em horário de almoço, um carro avançou o sinal e a atingiu na faixa de pedestres. Foram duas noites de muita expectativa para seus pais, sua irmã e seu marido, até que os médicos decretassem a morte cerebral.

Desviando: Não há nada melhor do que a realidade para nos libertar da ilusão de que temos o controle.

"Pensei ter ouvido você rindo
Pensei ter ouvido você cantar
Eu acho que pensei ter visto você tentar
Mas aquilo foi apenas um sonho
Tentar, chorar, por que tentar?
Aquilo foi apenas um sonho"


Voltando: Dois anos após a morte dela, o motorista encerrou os trabalhos sociais que lhe foram sentenciados – ele foi responsabilizado por não fazer a manutenção correta no automóvel. Na praça em frente ao prédio onde continuou morando, o viúvo está brincando com o casal de gêmeos que teve com a atual esposa – uma colega de faculdade que reencontrou em uma reunião de trabalho. Os cabelos do pai dela agora estão brancos. A mãe acabou de tirar do forno um bolo recém assado na mesma velha fôrma surrada, enquanto a irmã prepara as malas para se mudar para o litoral – recém formada em oceanografia.

Sessenta anos após a morte dela, a irmã, a última pessoa na Terra que ainda possuía lembranças de que ela um dia existiu, está sendo sepultada. E essa mesma Terra, em nenhum momento durante todo esse tempo, deixou de dar uma volta sequer em torno do seu eixo. E nunca deixará de fazê-lo.


"A terra de certo homem rico produziu muito bem. Ele pensou consigo mesmo: 'O que vou fazer? Não tenho onde armazenar minha colheita'. Então disse: 'Já sei o que vou fazer. Vou derrubar os meus celeiros e construir outros maiores, e ali guardarei toda a minha safra e todos os meus bens. E direi a mim mesmo: Você tem grande quantidade de bens, armazenados para muitos anos. Descanse, coma, beba e alegre-se'. Contudo, Deus lhe disse: 'Insensato! Esta mesma noite a sua vida lhe será exigida. Então, quem ficará com o que você preparou?'"

sábado, 25 de novembro de 2017

Por Água Abaixo

"Só uma coisa morta segue a correnteza. Tem que se estar vivo para contrariá-la."

A primeira referência a universos paralelos data de 1952 com Erwin Schrodinger. Em uma palestra, naquele ano, o físico teórico disse que as equações que lhe renderam o Nobel aparentam descrever várias histórias diferentes, mas que estas não são alternativas. Nas palavras dele, "tudo realmente acontece simultaneamente". Pelo menos ele concordou que o enunciado parece lunático.

A proposição de Schrodinger durante seu discurso foi uma Interpretação da Mecânica Quântica que, ao contrário da Mecânica Quântica em si, não é uma ciência estabelecida. Por exemplo, como se infere que existam multiversos?

Vamos tentar uma analogia. Imagine que a localização de um cão de estimação dentro de uma casa seja descrita pelas equações de Schrodinger. Se tentarmos descobrir com exatidão o cômodo onde o bicho se encontra – ou seja, se tentarmos reduzir a função de onda a partir de um estado emaranhado –, concluiremos que, enigmaticamente, o animalzinho deve estar na cozinha e no quarto ao mesmo tempo. Para sermos mais precisos que isso, seria necessário tomar a decisão de entrar na casa e procura-lo lá dentro. Porém, com essa interferência, o cachorro viria ao nosso encontro e, consequentemente, estaria no cômodo onde nós estivéssemos. Assim, com o enunciado de Schrodinger, conclui-se que vários universos existam e nós vivemos naquele cujas decisões quânticas adequadas nos trouxeram a este momento.

Desviando: Pense em um castelo de areia deixado na praia. O vento sopra e, grão a grão, o castelo vai se desfazendo. Em algumas horas, ou no máximo poucos dias, não há mais nenhum rastro da pequena construção. Mas, seria possível que o vento também colocasse novos grãos nos locais corretos, de modo que o castelo não se desmanchasse, ou até mesmo aumentasse em complexidade? Matematicamente é possível sim, mas qualquer um que já tenha brincado na areia sabe que isso é astronomicamente improvável. Então, fico imaginando que interpretação daríamos para os castelinhos se, ao invés de crescermos construindo-os, tivéssemos aprendido a matemática por trás deles primeiro.

Voltando: Não coincidentemente, foi pensando na questão "o que eu faria se fosse você?" que acabei recordando esses conceitos sobre universos paralelos. Inevitavelmente, a minha resposta convergiu para "eu faria exatamente a mesma coisa que você, já que eu seria você".

Há uma grande diferença entre ser aquecido na água desde o começo e ser lançado na panela com a água já borbulhando. Todos os sapos morrem igualmente, se aquecidos junto com a água. E todos eles pulam da panela também igualmente, se jogados na água fervendo. Já falei de sapos em água quente aqui e aqui, mas com outro enfoque.

Todas as outras pessoas foram, são e serão minhas vidas alternativas. Somos todos os universos paralelos uns dos outros. Todos os lances sorteados. Todas as conjunturas, todas as alternativas e todas as escolhas possíveis distribuídas sobre a mesa. Olhe para qualquer um e veja a si mesmo. É exatamente você lá, sob aquelas circunstâncias, diante daquelas alternativas e fazendo as mesmas escolhas.

Desviando: "Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti."


Voltando: Frente a isso, talvez tenhamos que rever nossos julgamentos, se é que temos direito de possui-los. Mesmo assim, não nos esqueçamos que compreender não é sinônimo para apoiar. Se nossos olhos foram abertos de alguma forma, se é que o foram de fato, não temos o direito de rotular, mas temos o dever de indicar o mesmo colírio que nos sugeriram.

"Você diz: Estou rico, adquiri riquezas e não preciso de nada. Não reconhece, porém, que é miserável, digno de compaixão, pobre, cego e que está nu. Dou-lhe este aconselho: Compre de mim ouro refinado no fogo e você se tornará rico; compre roupas brancas e vista-se para cobrir a sua vergonhosa nudez; e compre colírio para ungir os seus olhos e poder enxergar."


A vida é uma enchente e, arrastados pela correnteza, estamos todos tentando nos agarrar aos galhos que existem pelo caminho. Alguns poucos, quase se afogando, conseguiram segurar em alguma coisa, mas, agora, ao invés de ajudar os demais a também se ancorarem, ficam gritando para quem passa submergindo, "vocês deveriam ter feito aula de natação". Estique o braço, esteja você dentro da água, ou fora dela.