sábado, 27 de abril de 2019

A Bolha Vai Estourar

"O início da salvação é o conhecimento da culpa."


De forma muitíssimo resumida, o minério de ferro é extraído das jazidas e transportado para as usinas de pelotização. Em forma de pelotas, o minério, junto com o carvão (ou coque), alimenta os altos-fornos, onde, a elevadas temperaturas, ocorre a formação do ferro-gusa. O gusa, então, pode seguir dois possíveis caminhos: ser enviado para a indústria de fundição, onde será utilizado para a fabricação de peças de ferro fundido; ou passar por um processo de conversão em vários tipos de aço, dentro de uma siderurgia. No caso da produção do aço, os lingotes de metal finalmente destinar-se-ão a diferentes tipos de indústria para a manufatura dos mais variados tipos de produtos.

O aço é utilizado para produção de tubulações, equipamentos industriais, motores, estrutura civis, automóveis, navios, ferrovias, ferramentas, utensílios domésticos etc etc etc. E entre os utensílios domésticos, encontramos a panela.

Em 25 de janeiro de 2019 ocorreu o rompimento da barragem de Brumadinho, sob administração da empresa Vale. O caso dispensa qualquer tipo de detalhamento. Até a data de 24 de abril de 2019 foram identificados 233 mortos e continuavam desaparecidas 37 pessoas.

Peço perdão pela falta da fonte, mas acreditem em mim. Entre 25 e 28 de janeiro de 2019 (não lembro o dia exatamente), enquanto eu acompanhava o noticiário sobre o desastre, vi uma reportagem na TV sobre alguns manifestantes em Brumadinho. Eles protestavam acertadamente pelo ocorrido. Eu revirei a internet buscando essa reportagem, mas não a encontrei. Acho que ficou limitada a TV mesmo. Fato é que eu vi a imagem de algumas pessoas se manifestando contra os responsáveis pela barragem. E por que isso ficou guardando na minha memória? Os manifestantes usavam panelas para protestar. O tal do "panelaço", método recém popularizado pelo povo brasileiro em manifestações.

Eu achei muito irônico, pessoas utilizarem materiais que são extraídos de jazidas como a que se rompeu (senão da própria), protestando contra a empresa que viabiliza a chegada dessas mesmas peças ao mercado. Aliás, mais do que contra a empresa, elas gritavam para que qualquer processo de mineração fosse extinguido. Você não acha isso irônico?

Desviando: Já ouviu aquela discussão sobre a batalha da sociedade contra as drogas, onde se levanta a dúvida: quem são os responsáveis pelo tráfico de entorpecentes, o fornecedor ou o consumidor? Minha opinião?

Voltando: Somos todos Brumadinho? Somos todos Mariana? Somos todos Marielle? Somos todos Garotos do Ninho? Somos todos Charlie Hebdo? Somos todos Bataclan? Somos todos vítimas da Boate Kiss? Somos todos Colégio de Suzano? Somos todos Columbine? Somos todos Realengo? Somos todos Refugiados?

Somos todos culpados! Mas lavamos as nossas mãos. Ops, digo, mas batemos nossas panelas.

Ainda utilizando o exemplo da mineração, mas não limitando-se apenas a ele, desejamos mesmo que as mineradoras deixem de existir? Queremos mesmo que o mundo deixe de ser o que ele é? Acredito que não (com exceção daqueles que perderam seus "corações" na tragédia e não tem mais o que perder), pois esse mesmo mundo alimenta as ilusões que sustentam nosso íntimo, ou pelo menos é isso o que ele promete. De fato, é ele quem fornece as nossas panelas.

O que desejamos é sermos intocáveis, inabaláveis, imunes às falhas da estrutura construída, mas não que essa mesma estrutura seja alterada. Reflita, se o nosso castelo de areia não correr riscos, "pouco importa" se há pessoas sendo exploradas, escravizadas, assassinadas, doentes, famintas, desabrigadas, etc. E "pouco importa" que elas sejam a maioria. Sim, nós pensamos nelas de vez em quando e sinceramente nos consolamos por saber que há alguém cuidando de algumas poucas. Nós conseguimos viver em paz, pois sabemos que onde há injustiça, também há alguém fazendo uma manifestação contra, mesmo que os gritos de ordem sejam apenas um emplastro sobre as trágicas feridas. De fato, mesmo nós, às vezes, praticamos alguns protestos, seja através de uma mensagem no Facebook, de uma postagem em um blog (opa!), ou de uma presença em uma passeata. E sempre sustentamos nossa inocência sobre a justificativa cabal, a crença de que estamos colaborando com a melhoria do mundo através do nosso trabalho.

Desviando: Lembro-me do filme Matrix Reloaded, mais uma vez, quando o super-herói descobre que não é o salvador da humanidade, mas apenas mais um instrumento de controle.

Voltando: Nós não estamos indo em direção ao progresso, mas estamos colaborando com a sustentação da base. Eu particularmente acredito que o mundo só se transformaria, se alterássemos a sua estrutura. Pense na mineração novamente. Para que as mineradoras deixem de existir e não corramos mais riscos de acidentes como aquele de Brumadinho, o que seria necessário alterar na nossa realidade? De que tipo de conforto deveríamos abdicar? Por isso, concordo, é extremamente difícil uma mudança nesse nível partir de nós, de mim. "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que o rico entrar no reino do Céus" (Calma, pense! Desfaça-se do que você acha que entendeu! Pense na palavra "rico" como alguém que está bem confortável e na palavra "Céu" como uma realidade plena).

Assim, vivo somente uma esperança, talvez uma utopia. Eu vivo esperando o dia que a semente será lançada na terra para morrer e dar origem a uma bela árvore. Fico aguardando a chegada de uma cidade que não tenha sido construída por mãos humanas. Só consigo acreditar em um herói que tenha prometido transformar tudo, mas não viver apenas apagando fogo.

Enquanto isso? De dentro da minha bolha, de meu escudo protetor, também protegendo-me da realidade que não queremos que nos alcance, tento derrubar algumas poucas cartas de baralho, mesmo que não seja suficiente para trazer à baixo o castelo inteiro. De fato, sei que estou apenas dando algumas poucas machadadas, sem sequer conseguir arranhar o alicerce. Se é que estou mesmo dando machadadas. O que quero dizer? Você pode encontrar meus emplastros aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Tudo bem, sem tempo para clicar em todos os "aqui"? Talvez seja suficiente se você separar um tempo para refletir nas possíveis implicações de uma última citação. Reitero, pense nas implicações.

"O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."


É esse amor, descrito na citação de Paulo, que pode alterar as estruturas, mas não o amor criado por anseios humanos. O verdadeiro amor não luta a favor das bolhas, mas ele as estoura, inclusive e principalmente a sua própria. Inevitavelmente, a bolha de cada um de nós vai estourar e naquele dia em que tipo de mundo iremos nos apoiar.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Muito Blá Blá Blá

"Só é útil o conhecimento que nos torna melhores."


Nestes dias que se passaram lembrei-me da fórmula matemática para força.

F = m x a
Onde,
F = força em Newton
m = massa em quilograma
a = aceleração em metro por segundo ao quadrado

Fiquei pensando, qual a diferença entre a força do mundo físico e a força do universo matemático? Concluí que aquela escrita sobre o papel não produz nada, não move nada, não executa nada.

No filme "O Homem Irracional", um professor de filosofia, autor proeminente de artigos críticos às fúteis aspirações da sociedade moderna, passa por uma crise existencial. Em determinado momento da narrativa, ele ouve uma desconhecida lamentar-se que perderá a guarda dos filhos para o ex-marido, que é um péssimo pai. Sem saber que está sendo ouvida pelo professor, a mulher detalha que o juiz designado para o caso será partidário de seu ex-marido em troca de dinheiro.

O professor de filosofia começa a reverter sua crise, encontrando, então, um motivo para viver. Ele passa a se ver como um potencial herói para aquela desconhecida. Nos dias que seguem, ele planeja matar o juiz, para que a mulher tenha ao menos um julgamento justo. Foi então que, após executar o plano, o professor descreveu uma ideia que, apesar de eu já conhecer há muito, só nesse momento passou a fazer sentido para mim.

Desviando: Já aconteceu isso com você? De repente, você ouve uma ideia que está longe de ser novidade, mas só a partir daquele momento passa a fazer sentido. Alguém poderia dizer que nós só aprendemos algo quando estamos preparados para isso. Acho que é mais simples. Nós só aprendemos as coisas quando pensamos sobre elas. Preste atenção em você mesmo, repare quão automático é o seu falar e o seu ouvir no dia a dia.

Voltando: Segue o relato do professor após a conclusão do plano: "Na manhã seguinte, fui correndo comprar o jornal. E lá estava [a noticia da morte do juiz]. Um sentimento enorme de realização tomou conta de mim. Não escrevi um artigo cáustico e bem fundamentado sobre abuso judicial que somente destilaria um palavrório, e não realizaria nada. Tomei ação direta e eliminei um câncer. O mundo ficou um lugar melhor por uma porcentagem infinitesimal. Aquela mulher [que temia perder a guarda dos filhos] nunca saberia que teve um benfeitor, mas agora, na audiência, ela teria uma chance de obter um julgamento justo."

Mais adiante, a "namorada" do professor discute com ele sobre moralidade, assim que ela descobre o crime que ele cometeu. Parte da discussão segue a mesma lógica da elucubração anterior do professor.

Professor: "Este foi o ato de significância que eu buscava. Achei que era uma coisa muito razoável a se fazer."
Namorada: "Ela [mulher que temia perder a guarda dos filhos] desejou que ele [juiz] tivesse câncer!"
Professor: "Mas o que diabos é essa esperança [o desejo que o juiz tivesse câncer]? Esperança não vale nada. Entende? Você tem de agir."

Como eu disse anteriormente, apesar de já ter ouvido tanto falar sobre o fato de que querer é diferente de fazer, foi só então que essa ideia colocou em cheque a efetividade dos meus textos. Você pode perceber no meu blog que eu tenho "destilado um palavrório" que não realiza nada há muito tempo. Então, resolvi sair do papel. Parafraseando Platão, resolvi sair da caverna. Obviamente, guardadas as devidas proporções de liberdade.

Portanto, hoje, não discursarei sobre amor, sobre justiças ou injustiças. Não haverá falatório sobre verdade ou sobre manipulação. Sem palavras sobre o que somos, de onde viemos e para onde vamos. Sem lógicas pseudorracionais. Sem cálculos pseudomatemáticos. Sem análises pseudoastronômicas. Sem filosofia pseudometafísica. Sem dúvidas. Afinal de contas, o que os 91 textos postados anteriormente produziram? O que esse presente texto produzirá? Todos tem prazo de validade, se é que já não venceram.

Eu quero acomodar-me diante daquela pessoa que, ao me ver, repete sempre as mesmas histórias, testando minha paciência. Eu a ouvirei com atenção, escutá-la-ei com gosto. Eu estarei cem por cento presente. Porque aquela pessoa não está interessada de fato nas histórias que me conta, tampouco se preocupa se estou assimilando o que ela diz. Aquela pessoa está com saudades e quer aproveitar a minha presença. Ela está querendo ser vista e ser ouvida por mim, seja lá o que esteja sendo dito e quantas vezes o esteja. Portanto, eu retribuirei com a mesma vontade de estar junto. Ela, sem coragem de invadir o meu espaço e me abraçar com os braços, abraça-me com as palavras. Assim, retribuirei o abraço com os meus ouvidos.

Eu olharei no olho de quem me atende no balcão da mercearia, no caixa do supermercado, no posto de gasolina e na mesa do restaurante. Eu farei o meu pedido, o meu pagamento e o meu agradecimento olhando nos olhos. Se houver alguma chance de que eu realmente exista nesse Universo fugaz, todos que cruzarem comigo sentirão que também existem, pelo menos para mim.

Eu não buscarei justiça apenas a mim. Não serei como aquela pessoa que acionou a Justiça porque se sentiu prejudicada em um teste, mas que não queria que sua petição fosse escalonada a níveis mais elevados, pois se outros percebessem a brecha, ela teria que disputar a chance com mais indivíduos. Se eu quero justiça para mim, então que eu queira para todos, mesmo que isso signifique o risco de perder a minha oportunidade. Sem meias justiças.

Não vou mais participar de disputas políticas. Nenhum candidato, nenhum "salvador da pátria", nenhuma ideologia política vale mais que a oportunidade de continuar olhando nos olhos das pessoas que amo, das pessoas com quem relaciono-me, ou daquelas com quem poderia me relacionar. Nunca tive problema de relacionamento com ninguém por causa de disputas partidárias. Por que eu iria querer ter a partir de agora? Enfim, sem polarização.

Desviando: O que aconteceu com o ditado a "união faz a força"? Acreditamos ou não acreditamos nesse discurso? Talvez só queiramos que ele seja válido quando termina com "portanto, unam-se a mim". Ou quem sabe ele seja só mais um palavrório.

Voltando: Passarei a fazer doação àquele que me pedir no semáforo, sem tentar descobrir se ele a usará para bebida ou para comida. Eventualmente, eu darei dinheiro a quem usará com drogas? Certamente. Porém não posso punir aquele que precisa por causa daquele que erra. A maldade, o erro e a falha não podem vencer. Eles não podem determinar como será praticada a caridade. Antes, que seja sustentado aquele de bom caráter e de honestidade. Que a maldade coma das migalhas do pão destinado a bondade, mas que a bondade não seja privada do pão por causa da maldade.

Eu não deixarei de auxiliar a quem precisa, com uma assistência que esteja ao meu alcance, usando a justificativa de que a minha pequena ajuda não resolverá os problemas do mundo. Provavelmente, se eu tivesse dinheiro para resolver todos os problemas do planeta, eu não o faria, mas guardaria toda a riqueza para mim. Pelos menos é assim que fazem os 26 mais ricos do mundo, que concentram uma riqueza equivalente ao montante dos 3,8 bilhões mais pobres. Então, aproveitarei que eu tenho pouco "a perder" e repartirei. Já que é pouco, não me fará falta. A realidade mostra que faltaria apenas se fosse muito.

Enfim, eu poderia listar uma infinidade de itens, bem "insignificantes" e simples, que eu posso fazer sem ninguém saber. Poderia listar algumas pouquíssimas coisas que eu já faço e ninguém vê. Porém, não tenho tempo e nem competência para pensar em tudo. E mesmo que tivesse, não o faria porque eu estaria somente "destilando um palavrório". Melhor que não escreva nada, mas que faça tudo o que poderia ter sido escrito. Pois hoje não falamos sobre esperança, mas sobre atitudes. E estas não precisam ser gigantes.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Falso Moralismo

"Ninguém se conhece tão bem como aquele que mais desconfia de si próprio."


A pirataria moderna refere-se ao desrespeito aos contratos e convenções de cópia, venda e distribuição de produtos, de forma que não haja a devida remuneração aos verdadeiros proprietários intelectuais, criadores, autores ou distribuidores. Copia-se de tudo, roupas, calçados, utensílios domésticos, remédios, livros, filmes, séries de TV, softwares, jogos eletrônicos e músicas. Estima-se que o Brasil perca em torno de 130 bilhões de reais por ano com pirataria.

Na maioria das vezes é muito fácil diferenciar os produtos falsos dos verdadeiros. Destaca-se o fato de que os produtos piratas estão muito aquém dos originais em qualidade. Mas é claro que há tanto quem não se preocupe em ter produtos falsos, quanto quem prefira adquirir apenas produtos genuínos.

Uma pessoa que critica os produtos falsos, inevitavelmente está defendendo a autenticidade dos produtos verdadeiros. Em outras palavras, ao ser contra o falso, se opta pelo verdadeiro. Não dá para ser contra o falso e o verdadeiro. É uma posição booleana. Esse raciocínio é tão claro em nossa mente que, ao ler o que eu escrevi, parece que estou tornando complexo algo muito simples. Porém, o ponto é que quando fazemos essa conta com laranjas e não com maças, esse raciocínio não fica tão claro assim. Então, vamos falar de laranjas...

Recentemente, chegou aos meus ouvidos uma declaração de uma atriz e bailarina brasileira. Ela disse que está cansada de falso moralismo. Perguntei-me então, se existir moralismo verdadeiro, ela buscará praticá-lo?

Vamos pensar em uma lista de padrões postulantes a moralmente verdadeiros, entre eles: roupas decentes (tanto para homem quanto para mulher, obviamente; nós já pensamos em sexo muitas vezes ao dia, ser lembrado com imagens nos raros momentos em que não pensamos pode ser estressante); sexo com um único parceiro (como profilaxia); manter durante toda a sua vida um único matrimônio (sinônimo de sexo com um único parceiro, que é sinônimo de profilaxia); não usar palavras de baixo calão (afinal de contas, usá-las demonstra também um vocabulário escasso diante de tão rico idioma); ser fiel ao parceiro(a) e aos amigos; tomar decisões pautadas pela honra e não pelos ganhos (pode até salvar sua vida); ensinar os filhos a "guardarem" seus corpos para o matrimônio (sinônimo de profilaxia e de método contraceptivo); dar audiência a músicas que tenham bom conteúdo poético, melódico e harmonioso, ao invés de nádegas em vídeo clipes (ajuda as crianças a "guardarem" seus corpos até o matrimônio, aquela história de profilaxia e métodos contraceptivos); achar que o problema da retomada dos altos índices das doenças sexualmente transmissíveis é da cultura pró-sexo, mas não da moralidade, ao contrário do que esta matéria está dizendo.

Desviando 1: Para mim é muito estranho acreditar que o aumento das taxas de açúcar no sangue é causado por uma dieta pobre em açúcar, mas sei que há quem possa acreditar nisso. Se a moral é responsável pelo aumento das taxas de doenças sexualmente transmissíveis, estamos perdidos, pois duvido que a libertinagem seja a cura. Sinto como se fosse contra o falso e o verdadeiro ao mesmo tempo. Mas enfim, deve haver um motivo para pensar assim.

Desviando 2: Pensando especificamente naqueles exemplos, lembrei-me de uma piada. Um homem leva sua esposa ao zoológico. De frente à jaula do gorila, ele pede para que ela se insinue para o macacão. Ela aceita o desafio e tira algumas peças de roupa. Até ameaça se despir completamente. Quando o gorila fica descontrolado, o marido abre a jaula e fala à mulher, "agora convença-o de que você está com dor de cabeça". É só uma piada, mas tem um grande fundo de verdade. Pensemos em todos os estímulos sexuais aos quais todos são submetidos diariamente. Destaque-se que os que mais sofrem são aqueles cujas doses cavalares de hormônio estão circulando nas veias. Depois de bombardeá-los com estímulos como esses, intensamente, tente alertá-los de que precisam ter autocontrole, para evitarem doenças sexualmente transmissíveis, ou gravidez precoce. Ah sim, ainda resta a alternativa do "meu corpo, minhas regras".

Voltando tudo: Tenho certeza que cada um de nós teria pelo menos uma dezena de padrões morais verdadeiros para listar (caso você não concorde com os meus poucos exemplos, pegue papel e lápis, liste os seus, vai funcionar também, com o resto deste texto). Portanto, eu me pergunto, dessa pequena lista (ou da sua), quais entre esses itens são padrões morais falsos?

Onde quero chegar? Se aqueles itens puderem mesmo ser considerados padrões morais verdadeiros, e se eles prevalecessem na nossa atual sociedade, com extremo rigor (refiro-me a prática e não a imposição), aquela atriz seria contra eles, ou ela os apoiaria? Ela é contra algum desses itens, ou ela é contra quem se diz a favor deles, mas não os pratica? A crítica dela é para que a moralidade seja adotada? Posso assumir que ela não é uma falsa moralista, portanto, exerce aqueles preceitos listados (ou os que você listou)? O que ela está criticando de verdade?

Na minha opinião, nós não pensamos antes de falar, tampouco pensamos no que ouvimos. Valemos-nos de um bocado de clichês carregados de significados, mas que não significam nada de fato. Já falei aqui, aqui, aqui e aqui que algumas palavras e expressões já foram usadas tantas vezes que não pensamos mais nas definições delas, mas apenas as engolimos.

O problema é a hipocrisia (ou a solução para nossas dúvidas?). A nossa sociedade não quer moralismo, ela quer libertinagem. Porém, para que durmamos em paz à noite, nós não discutimos moralidade, mas discutimos hipocrisia como se estivéssemos discutindo moralidade. Já ouviu essa expressão "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço"?

Eu te pergunto, qual a sua opinião? Você está cansado de falso moralismo? Se estiver, vamos botar a moralidade verdadeira para funcionar? Ou você não dá a mínima para a moralidade propriamente dita, mas apenas se irrita com a hipocrisia? Perceba, não estou dizendo que temos que ser moralistas, ou libertinos. Cada um se responsabilize por si. O que eu estou tentando fazer é conhecer a mim mesmo. Quero saber quem eu realmente sou. Quero ser sincero comigo mesmo. Pois, sei que tem uma onda aí fora que tenta me empurrar, mas não sei para onde, portanto não sei se quero ir.

Nós nos satisfazemos em parecer, mas não queremos ser de verdade. Eu já falei aqui e aqui sobre a nossa mania de querer validar o que desejamos acreditar, ao invés de querer conhecer a verdade em si mesma. Já prestou atenção no significado da expressão "a verdade doa a quem doer"? Você se dispõe a deixar doer em prol da verdade? Ou é só mais uma expressão usada por pessoas que estão cansadas de falso moralismo? Usando a metáfora da pirataria, você topa pagar mais caro pelo produto verdadeiro?

Desviando: Certa vez conheci um jovem muito sincero, ou talvez o mais consciente de si mesmo. Ele era ateu (ou ainda é, perdi contato). Perguntei, "você decidiu ser ateu lendo a Bíblia?" Ele respondeu, "eu não me a risco a ler a Bíblia, não quero passar a acreditar."

Voltando: Certa vez forcei o seguinte diálogo com uma pessoa.

Eu: Você quer conhecer a verdade ou quer ter razão?
Ele: Quero conhecer a verdade.
Eu: Você é progressista?
Ele: Sim.
Eu: Você lê livros sobre conservadorismo?
Ele: Não.
Eu: Então, você não deseja ponderar os pontos prós e contras em busca da verdade. Você é apenas uma criança querendo ser alimentado com coisas que você gosta. Você quer que massageiem seu ego, reforçando aquilo em que você quer acreditar. Você quer ouvir apenas pensadores que concordem com você.

Terminei o dialogo dizendo: "Não pense que eu sou diferente de você. Não foi esse o meu propósito com essa conversa. Não pense que eu estou tentando mudar a forma como você é. Eu apenas estou querendo que você duvide de si mesmo."

Em tempo: Como imagino que tenham surgido algumas discrepâncias entre as nossas listas de padrões morais, mesmo considerando que foram apenas exemplos pensados sem tanto critério, deixo esse link aqui sobre a questão, se a moral é obsoluta ou não. Talvez você possa se interessar.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Faca de Dois Gumes

"Coisa rara: teu espelho tem minha cara"

Meu palpite é de que os humanos passaram a reconhecer a própria imagem refletida no espelho, de que passaram a ter consciência de sua existência, por causa de um "simples" raciocínio lógico. Provavelmente, há alguns milhares de anos, uma dupla se aproximou de um riacho para refrescar-se. Um dos indivíduos olhou as duas imagens refletidas na superfície da água e viu o seu parceiro ali ao lado, naquele reflexo. Ele deve ter olhado para o amigo real e o comparado com o amigo virtual, concluindo que a figura na água era o seu colega. Logo, a imagem da outra pessoa, aquela ao lado do parceiro, só poderia ser dele próprio. Finalmente, deve ter feito alguns movimentos com a mão, olhando-a ao mesmo tempo que olhava para o reflexo dela na água e, bingo, "eu existo".

O processo de reconhecer a própria imagem é muito complexo. Algo que corrobora essa dificuldade é o fato de que, entre todos os seres vivos no planeta, apenas alguns tem essa capacidade, entre eles o homem, alguns primatas, os golfinhos e os elefantes.

Desviando: Apesar de destacar uma possível conexão entre a autoconsciência e a capacidade de reconhecer a própria imagem, essa sugestão está se limitando apenas ao sentido da visão. Por exemplo, um cachorro não se reconhece ao ver seu reflexo em um espelho, mas sabe quem ele é quando compara cheiros de urinas diferentes. Ao reconhecer o cheiro de outros cachorros, ele logo marca o território. Porém, ao reconhecer o próprio cheiro, ele não sente necessidade pela remarcação. Então, pelo cheiro, um cachorro tem consciência de si mesmo.

Voltando: Eu me perguntei onde, na nossa mente, fica armazenada a capacidade de se auto reconhecer. Eu imaginei o cérebro como um prato de espaguete. O prato não é uniforme ou homogêneo. Ele tem um pouco mais de massa aqui, ou ali. Pode estar um pouco mais temperado aqui, ou ali. Porém, em essência, o prato não é nada além de vários fios de espaguete amontoados uns sobre os outros. O cérebro pode ter várias partes e funções, mas, no micro, ele é só um emaranhado de neurônios, para qualquer lado que você olhe. Então, essa é minha dúvida, a autoconsciência faz parte do hardware, ou do software? Existe um software?

Avançando sobre o meu palpite de como o homem passou a reconhecer a si mesmo, mas resumindo a cadeia de eventos desde a dupla no riacho, hoje nos tornamos especialistas em tirar fotos de nós mesmos com os aparelhos celulares. Então, eu fiquei com outra dúvida, eu cuido da minha imagem porque a reconheço, ou porque reconheço a imagem do outro? Eu sou um egoísta, ou sou um imitador?

Se eu não soubesse que existo, eu seria menos egocêntrico? Sentiria menos necessidade de ser compreendido? Sofreria menos angústias? Se eu acreditasse que apenas o outro existe, nossa realidade seria melhor? Seríamos um bocado de seres humanos tentando facilitar a vida de outro ser humano? Eu choraria apenas a dor do outro e não mais a minha própria? Entenderia a dificuldade do outro, sem a necessidade de tentar convencê-lo de que a minha é tão grande quanto a dele, senão maior? Eu perceberia que somos iguais, mais parecidos do que imaginamos, ou melhor, mais semelhantes do que gostaríamos que fossemos? De fato, a única coisa que muda entre as pessoas são os rótulos. Já os processos, eles são sempre exatamente os mesmos.

Em uma conversa com uma conhecida, ela desabafou:

"Depois que tornei pública a minha escolha pelo homossexualismo, comecei a ser tratada diferente. Não refiro-me somente às manifestações diretas, mas também àquelas pequenas, quando você está em um ambiente e percebe que os outros medem as palavras, ou tomam cuidado com o rumo que a conversa vai tomar. Sinto claramente que a minha escolha cria mais barreiras para as outras pessoas do que para mim. São elas que temem falar sobre o assunto, não eu. Elas agem como se fosse eu quem não tolerasse falar sobre isso, simplesmente porque permaneço em silêncio. Por que deveria ser eu a iniciar uma conversa sobre homossexualidade? E quando uma pessoa na roda de amigos, corajosamente, tenta iniciar um diálogo, outras duas ou três logo nos interrompem, com uma clara certeza de que estão me protegendo.

As pessoas olham-me como se eu não soubesse nada sobre biologia, como se eu a ignorasse, assim como um abstêmio que, dando o primeiro gole, ignora a repreensão dos 'inabaláveis'. Sinto-me como herege da ciência, como se não soubesse distinguir fatos de opiniões. É tão claro na minha mente que a ciência retrata apenas um único aspecto do Universo, aquele que cabe em formulações matemáticas apenas.

Para que as pessoas pudessem me entender, ou enlouquecer comigo, elas precisariam desconstruir conceitos em suas mentes. Elas precisariam ouvir a palavra 'homossexual' e me perguntar sinceramente o que isso quer dizer, como uma pessoa que teve amnésia, ou como um ser de outro planeta que acabou de pousar no nosso. Elas precisariam tentar criar os conceitos novamente em suas mentes, esquecendo-se das palavras que já foram usadas, pois nosso padrão de linguagem sempre se demonstrou muito limitado, e agora se demonstra também muito resoluto. Certa vez li nos seus textos a ideia de que Alice não se maravilharia com o País das Maravilhas se tivesse nascido nele. Enfim, a conversa precisaria começar do zero. Porém, quem está disposto a dialogar dessa maneira?

Agora fico na dúvida, se as pessoas tentam me proteger, ou se protegem a si mesmas. Será que temem tanto assim algumas palavras mais acaloradas? Estou certa sobre o que acredito? Não sei. Estou errada? Não sei. Eu só queria poder ser livre dos julgamentos quando digo que as coisas não são necessariamente o que parecem. Gostaria que eles considerassem apenas por um momento a ilusão. Como dizer aos sabidos que eles estão tão perdidos quanto eu, mas não assumem para não perderem o conforto? Como eu posso convencê-los de que a organização, o esclarecimento, a certeza e a sanidade deles são mais delirantes que a minha loucura?"

Desviando: Chesterton contou em seu artigo "Uma tragédia de dois centavos", no livro Tremendas Trivialidades, que certa vez tentou convencer um dono de restaurante alemão de que havia esquecido de pagar os charutos que comprara. Como ele não sabia falar alemão, tentou usar mímica para explicar que estava de volta para sanar sua dívida. Não obteve sucesso e concluiu:

"A civilização está fundada sobre abstrações. A ideia de dívida não pode ser transmitida por movimentos físicos, porque é abstrata. E a civilização obviamente não seria nada sem dívidas. Assim, quando indivíduos de cabeça dura que estudam sociologia científica (que não existe) vêm e lhes dizem que a civilização é material ou indiferente ao abstrato, perguntem-se a si mesmos quantas das coisas que formam nossa sociedade, a Lei ou as Ações da Bolsa ou a Dívida Pública, vocês conseguiriam transmitir com suas faces e dez dedos, fazendo caretas e gesticulando para um dono de restaurante alemão."

Voltando: A minha resposta para aquela conhecida? "Não consigo encontrar palavras que possam lhe guiar, ou ao menos consolar; mas gostaria de lhe pedir permissão para colocar o seu desabafo no meu blog, apenas trocando a palavra 'homossexual' por 'cristão'". Obviamente, fui autorizado, porque ela também não conseguiu encontrar palavras que pudessem me guiar ou me consolar.