domingo, 27 de junho de 2021

Resistência Hiper-Realista

"O mundo recompensa com mais frequência as aparências do mérito do que o próprio mérito." 

François La Rochefoucauld

No livro "Simulacros e Simulação", Jean Baudrillard começa introduzir seus conceitos sobre hiper-realidade no seguinte trecho: "A Disneylândia é colocada como imaginário a fim de fazer crer que o resto é real, quando toda Los Angeles e a América que a rodeia já não são reais, mas do domínio do hiper-real e da simulação. Já não se trata de uma representação falsa da realidade (a ideologia), trata-se de esconder que o real já não é o real e, portanto, de salvaguardar o princípio de realidade. (...) O mundo quer-se infantil para fazer crer que os adultos estão noutra parte, no mundo 'real', e para esconder que a verdadeira infantilidade está em toda parte, é a dos próprios adultos que vêm aqui fingir que são crianças para iludir a sua infantilidade real."

Desviando: Apenas como curiosidade, a personagem Neo, no filme Matrix, usa o mesmo livro citado no parágrafo anterior para guardar os programas de computador que desenvolve.

Voltando: Eu li aquele trecho da obra de Baudrillard coincidentemente na mesma ocasião em que ponderava sobre os contemporâneos embates sociais em países ocidentais democráticos. Então, cheguei à conclusão que as lutas são somente simulações da resistência real. Seria como compará-las a uma suposta tribo indígena restaurada pela civilização atual, que, confinada e protegida, passa a crescer em número de indivíduos mais do que conseguiria a virgem e morta tribo real. O exemplar moderno seria uma simulação, nunca o original. Em suma, a finalidade da dissimulação é tirar de nós a habilidade de distinguir entre realidade e fantasia.

Em países ocidentais democráticos, as batalhas são utilizadas para promover o ideal de democracia e esconder duas possíveis observações: primeiro, o dia em que a democracia ideal for colocada em prática, teremos que buscar outro regime; segundo, talvez ela seja isso que já se obteve e nada mais, quer gostemos ou não. Particularmente, voto na segunda opção, inclusive acreditando que ela é uma extensão da primeira. Em outras palavras, ou os embates modernos servem para a sombra da democracia no fundo da caverna de Platão reivindicar a posição de objeto, ou para esconder o fato de que ela não brilha tanto quanto imaginávamos fora da caverna.

Vejamos alguns paradoxos... Luta-se contra a censura publicando críticas e manifestos nos veículos de imprensa tradicionais e também nos modernos. Denuncia-se a agressão contra as mulheres, e a falta de voz delas, entoando cânticos (se assim podemos chama-los) pejorativos à masculinidade e às religiões (não todas) em emissoras de televisão estatais, em "horário nobre", ou até lançando bexigas com sangue, em completa nudez, nas fachadas de igrejas (novamente, não de todo tipo). Delata-se a falta de direitos civis unindo-se civilmente.

Perceba, as razões das pelejas citadas são pautadas em direitos "merecidos". Meu intuito é chamar a atenção para dois pontos somente: ora se enfrenta o mal usando a mesma arma contra a qual se luta; ora calça-se o sapato apertado apenas pelo prazer de descalça-lo, ou melhor, para validar a necessidade por um sapato mais confortável, mesmo que ele já esteja disponível no armário.

Desviando: Usei aspas na palavra "merecidos" no parágrafo anterior, pois tanto a forma como foi escrito quanto a maneira como costumamos nos expressar sugerem que direitos são dados. Porém, quem seriam seus senhores para concedê-los? Antes, direitos não seriam prerrogativas irrevogáveis? Quero dizer, quem tivesse o poder de dar direitos não teria também o poder de os retirar? Nesse caso, não seriam os direitos um meio de opressão ao invés de libertação? Será que já não o são?

Voltando: Portanto, as lutas pró-democracia em países já democráticos são comparáveis a peixes que disputam qual deles consegue ficar mais tempo embaixo d’água. E não estou dizendo que a água não seja necessária, só estou dizendo que se fantasia um ambiente diferente do que é para a brincadeira ter lugar. Uma ilusão é criada para não se deixar perceber que é a realidade a própria ilusão. Simula-se a Serpente para não se enxergar Leviatã no reflexo do espelho.

Em países governados por ditadores, por religiões fundamentalistas, ou por guerrilheiros é onde o verdadeiro combate acontece. Nesses locais são autorizados: a morte de pessoas de gêneros "não tradicionais"; a venda de crianças sob a fachada de casamentos validados por dogmas religiosos; a mutilação genital de mulheres; o assassinato de praticantes de religiões diferentes daquela determinada pelo "Estado"; a extinção de meios de comunicação independentes, inclusive seus constituintes; etc. E como se resiste a concessões legais desse tipo? Quem os socorrem?

Mesmo em países democráticos, na camada daqueles que não se sentem representados pelos "dons quixotes", considere o exemplo de mulheres espancadas pelos maridos. Que tipo de pessoa as consola nos hospitais, as encoraja à denúncia, as acompanha até a delegacia e as acolhe em seu lar quando elas temem voltar para as próprias casas? Pense, que grupo de pessoas é esse? Tenho uma certeza, são anônimas.

A resistência verdadeira acontece em silêncio (já falei de vozes ignoradas aqui), pois as vítimas da tirania real não tem acesso a microfones, câmeras, papel e lápis (ou internet). Enquanto isso, os "cavaleiros" ocidentais, em meio de suas batalhas simuladas, dizem às vítimas genuínas, não com palavras, mas com indiferença: "cada um com seus problemas..."

Observe o meu próprio caso com esse texto, eu não estou trabalhando em prol de libertar as vítimas legítimas de seus opressores, mas estou apenas denunciando (sem muito sucesso, reconheço) problemas que nem ao menos existem. Meu trabalho aqui não faz a menor diferença, na prática, para quem realmente está precisando de ajuda.

Por que tudo isso acontece? Porque nós não queremos lutar de verdade, mas desejamos apenas ser reconhecidos como os heróis na Disneylândia.

domingo, 30 de maio de 2021

Homem ao Mar

"Estrelas não desaparecem, elas continuam brilhando, mesmo quando a noite acaba." 

Stargazing – Kygo ft. Justin Jesso

Um relato antigo diz que Deus apareceu a Moisés através de uma sarça que ardia em chamas, mas não se consumia. Durante a conversa que estabeleceram, Moisés perguntou: "Quando eu for às pessoas, lhes disser que o Deus dos pais delas me enviou e me perguntarem qual é o Seu nome, o que eu devo responder?" Então, Deus disse: "EU SOU O QUE SOU, assim responderá que EU SOU me enviou a vocês."

Lembrei-me desse diálogo dias atrás, quando ponderava se poderia haver algo absoluto. Se existir, seríamos capazes de reconhecê-lo? Que palavras usaríamos para explica-lo? Poderíamos ao menos entendê-lo? O absoluto é o que é, em si mesmo, ou é o que enxergamos? Como identificar a diferença se tudo o que conhecemos passa pelo crivo de nossas interpretações? Não me refiro à relativização consciente, mas faço alusão ao filtro de nossas limitações. Vou explicar melhor...

Desviando: Enquanto escrevia, lembrei-me de outra narrativa, que aliás já mencionei aqui também. Durante o julgamento de Jesus, Pilatos perguntou: "o que é a verdade?". Porém, ele ficou sem resposta. Arrisco dizer que a reticência de Jesus foi mais em razão de nossas ineficientes capacidades cognitivas. Ou pior, poderia ter sido por saber que nem ao menos queremos a verdade. Enfim, nossa ânsia por verdades circunstanciais não é assunto para esta postagem – de fato, já foi tema de outras.

Voltando: Leonard Mlodinow cita em seu livro "Subliminar" uma experiência feita com dois tipos de vinhos diferentes, um bom e um ruim, de acordo com a classificação de enólogos experientes. Foram separados dois grupos de pessoas e os vinhos foram oferecidos a elas sem que soubessem qual era o bom e qual era o ruim. Enquanto as "cobaias" experimentavam as bebidas, as suas atividades cerebrais eram mapeadas através de tomografias. Ao primeiro grupo foi dito que ambos os vinhos tinham o mesmo preço. Neste caso, a área do cérebro responsável pela percepção do prazer foi mais estimulada quando as pessoas tomaram o vinho bom. Enquanto para o segundo grupo, foi dito que o vinho ruim era o mais caro. Desta vez, a área do cérebro responsável pelo prazer foi mais ativada quando as pessoas tomaram justamente o vinho ruim. Conclusão, não é que as pessoas optaram por manter uma aparência de que que vinhos mais caros são melhores, mas elas realmente sentiram isso. O vinho mais caro torna-se realmente mais prazeroso para os nossos cérebros. "Das duas, uma": ou nossos juízos não são baseados exclusivamente sobre o absoluto; ou o absoluto é também constituído de aspectos externos a ele. Se a segunda opção for plausível, quem poderá negar a qualidade de um vinho? Fica a dica, da próxima vez que você quiser avaliar algo, não pergunte antes o preço, a marca ou o tipo de pessoa que consome o item sob avaliação.

Vamos considerar outro exemplo, as cores. Elas nem ao menos existem, mas são apenas diferentes comprimentos de onda do espectro visível de uma radiação eletromagnética. Todo o resto, quem faz é o nosso cérebro, junto com o sistema visual. É prudente destacar que a expressão "espectro visível" é o que faz toda a diferença. Por exemplo, os daltônicos e outras espécies poderiam não entender bem sobre o que estou falando. E, apesar de minha inquietação não ser precisamente sobre cor, este é o aspecto que estou tentando construir como exemplo, se toda a humanidade fosse daltônica, quem poderia dizer que as cores existem?

"O que é ‘real’? Como você define o ‘real’? Se está falando do que consegue sentir... do que pode cheirar, provar, ver... então, ‘real’ são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo cérebro."

Morpheus – The Matrix (1999)

Já que citei vinhos anteriormente, com o perdão por estar sendo tão... bíblico, quero avaliar um último caso para ajudar a ilustrar minha angústia – que também não é sobre vinhos.

Os relatos dizem que Jesus transformou água em vinho e que o mestre de cerimônia da festa afirmou nunca ter experimentado um tão bom quanto aquele. Nesse caso, vejo duas hipóteses: ou a água se transformou realmente em vinho, e já vimos aqui que a alteração de massas atômicas demanda e gera quantidades enormes de energia, portanto, sabemos o que teria sido feito, mas não como; ou o milagre ocorreu dentro da mente dos convidados, com todos bebendo água pensando ser vinho e então, como vimos em parágrafos anteriores, quem poderia dizer que eles não beberam mesmo vinho?

A despeito de qualquer doutrina religiosa, que nesse momento não é meu interesse, as minhas indagações são... Se um grupo de cem pessoas toma água pensando que é vinho, elas podem ser consideradas iludidas ou tapeadas. Porém, se todos os humanos do planeta tomam água pensando que é vinho, quem poderá contrariá-los? Como poderíamos dizer que não seria mesmo vinho que estaríamos tomando? O que é o vinho, aquilo que está na taça, ou o que foi processado pelo cérebro? As cem primeiras pessoas são tão loucas assim?

Sabe por qual motivo essas imprecisões acontecem? Porque não sabemos identificar e definir o que é o absoluto. Ou melhor, porque reconhecê-lo está sujeito às interpretações que podem ser traídas pela "máquina" em nós. E quem pode garantir que isso já não está acontecendo? Reitero, vinhos e cores são os menores dos meus problemas. Aliás, às vezes, vinho é a solução. Então, qual é o problema? Bem, que cada um encontre o seu.

Enfim, o que é a verdade? Cada vez mais tendo a concluir que a nossa realidade tão palpável, tão tangível, tão concreta é só um delírio, pois nós mesmos somos a ilusão. Para piorar, acredito que estejamos abrindo mão, novamente distraídos, das poucas boias que até aqui evitaram nosso afogamento.



domingo, 25 de abril de 2021

Jogo das Diferenças

"Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?" 

Fernando Pessoa

Os números são objetos abstratos da matemática, mas talvez não tenham surgido assim. Nos primórdios de nossa civilização, quem sabe o "dois" tenha sido representado pelas asas de um pássaro, o "três" por um trevo, o "quatro" pelas patas de um cavalo e o "cinco" pelos dedos de uma mão.

Mesmo usando números para orientar nosso raciocínio, a necessidade e a capacidade pela contagem é antes disso. Pense em uma sala de teatro. Sem usar qualquer representação matemática, é possível observar dois grupos, o de pessoas e o de cadeiras. Sem pensar em um algarismo sequer, conseguimos concluir qual dos dois grupos é maior e ainda se um cabe no outro. Analogamente a ideia de Einstein, que "nenhum cientista pensa com fórmulas", poderíamos dizer que ninguém conta, agrupa ou calcula com números, mas eles são apenas o idioma. Em outras palavras, um símbolo numérico é somente uma correspondência para uma quantidade, ordem ou grandeza. Já imaginou se, ao aprender a contar na escola, ao invés de "dois, três, quatro, cinco", fôssemos ensinados a "pássaro, trevo, cavalo, mão"? Pode soar estranho, mas é a mesma lógica, apenas mudaram os nomes. Isso significa que a matemática é universal, mas a forma como a representamos não.

Portanto, os algarismos são categoricamente diferentes entre si, mas as distinções não tem significado algum até que lhe atribuamos o nosso juízo de valores. O "dois" só é maior que o "um" quando ambos representam alguma grandeza. Quem sabe em um jogo qualquer, o "um" seja maior que o "dois". Talvez, sob alguma lógica, o "um" e o "dois" sejam até iguais. O ponto que quero destacar é que as diferenças entre os símbolos, apesar de evidentes, não significam nada até que decidamos a base de comparação, a referência, os valores, as grandezas. Antes disso, são só rabiscos.

Onde eu quero chegar? Atualmente, está em voga a inclusão de pessoas "diferentes" – tomo a liberdade de também incluir grupos que são discriminados, pelo fato de o discurso de defesa ser o mesmo. Os ideais partem em favor de pessoas com algum tipo de "limitação" ou "desfavorecimento". Porém, por mais correto que isso seja – e eu concordo que seja –, alguma coisa me parece não se encaixar bem, quando olho para o "herói". Então, resolvi "pensar alto" sobre isso.

Ao observar as diferenças entre os números, o fazemos baseados em quê? No volume, na massa, na moeda...? Então, quando verificamos as distinções entre humanos, qual é a base usada para a comparação? Aqui está o equívoco do benfeitor em sua luta em prol dos "desafortunados", é ele quem tem decidido o significado dos "números" e seu juízo de valores se apoia nas vantagens e desvantagens. Tente fazer um exercício mental, tire o olhar do ponto de vista dos ganhos e das perdas, do poder e do não poder e conclua, que diferença fazem as “diferenças”? As distinções são claras e universais, mas, como no caso dos números, a forma como as enxergamos não, elas perdem o significado.

Existe uma série chamada "The good doctor" e uma breve sinopse encontrada no Google é a seguinte: "Um jovem médico com autismo vindo da calma vida do interior começa a trabalhar em um famoso hospital. Além dos desafios da profissão, Shaun Murphy precisa provar sua capacidade a seus colegas e superiores". Apesar de não a assistir, mas acompanhando uma discussão nas redes sociais, o aspecto da série que estava sendo elencado como algo nobre e superior era a capacidade do autista em provar seu potencial para todos. Eu até entendo a mensagem que se projeta com esse tipo de narrativa, mas eu sinceramente não compreendo porque acreditamos que uma pessoa com alguma diferença precisaria provar sua capacidade. Principalmente hoje, quando a mensagem que se tem transmitido às pessoas "sem limitações" é a de que elas não precisam provar nada a ninguém.

Desviando:

"Estou cansado de ser o que você quer que eu seja

(...)

Eu não sei o que você está esperando de mim

Me pressionando para seguir seus passos

(...)

Fiquei tão cansado

Tão mais consciente

(...)

Tudo o que eu quero fazer

É ser mais eu mesmo

E ser menos como você

Você não consegue ver que está me sufocando?

Segurando tão apertado, com medo de perder o controle

Porque tudo o que você pensou que eu poderia ser

Desmoronou bem na sua frente"

Numb – Linkin Park

Voltando: Discursos pró-inclusão, classificando as diferenças sob o aspecto de vantagens e desvantagens, não é em si praticar aquilo contra o que se luta? Não estamos apenas escancarando mais a ferida? Fazendo uma analogia, não seria como o vegetariano fazer seu protesto vestido com roupas de couro? Enquanto tentarmos lidar com as diferenças baseando nossos julgamentos em perdas e ganhos, vantagens e desvantagens, estaremos tentando hidratar uma pessoa dando-lhe de beber água do mar.

Enfim, eu não sei mais que régua usar para classificar o "diferente" ou o "igual". Não estou dizendo que não existam diferenças, mas estou dizendo que não sei mais como interpretá-las. Desconstruí o conceito na minha mente e não sei o que colocar no lugar. E não pense que digo isso como alguém que reivindica alguma virtude. De fato, estou confuso. Deixando de olhar o mundo sob essa ótica, já não sei mais o que é essa realidade onde habitamos. Sem o olhar da vantagem e desvantagem, as estruturas que construímos perdem seus significados. Que civilização seria essa na qual nada mais se mede à base do que se ganha ou do que se perde, do que se pode e do que não se é capaz?

Nós não conhecemos a vida e a existência. Não sabemos o que é importante e o que não é, tampouco o verdadeiro valor das coisas – se é que há algum. Nem ao menos sabemos se estamos dormindo ou acordados. Porém, gostamos da satisfação proporcionada pela ilusão de que temos tudo bem classificado, medido e pesado. Isso faz parte do anseio humano de ser um deus de si mesmo e do universo.

Certa vez Jean Rostand disse: "A ciência fez de nós deuses antes mesmo de merecermos ser homens." Tomo a liberdade de parafraseá-lo: "Nossos critérios fizeram de nós deuses antes mesmo de merecermos ser homens".


sexta-feira, 26 de março de 2021

Olho Maior que a Barriga

"O cofre do banco contém apenas dinheiro; frustra-se quem pensar que lá encontrará riqueza." 

Carlos Drummond de Andrade



Você já ouviu aquela piada sobre um homem que encontra uma lâmpada mágica? Ele a esfrega e surge um gênio que lhe concede a realização de três desejos. O homem pensa um pouco e faz o primeiro pedido, "quero ir para uma ilha deserta, onde eu possa viver bem o resto da minha vida". Em um piscar de olhos, lá está ele na ilha. Segue com o segundo pedido, "quero a atriz mais bela de Hollywood aqui comigo". Outra vez, no bater de asas de um beija-flor, lá estava a moça, completamente apaixonada por ele. Finalmente, o derradeiro pedido, "quero o meu melhor amigo aqui comigo". Puft! Lá está o amigo. O gênio se vai e o amigo pergunta inquieto, "por que você me trouxe para cá?". Ao que o homem responde, "o que adianta ter sucesso na vida, se não tiver para quem mostrar?"

Desviando: Se essa história fosse criada séculos, ou milênios atrás, provavelmente seria melhor desenvolvida e se transformaria em uma fábula, já que estas sempre foram criadas para revelar algum sentido ético, moral ou realista de nossa humanidade. Como foi criada apenas nos tempos modernos, não passa de conversa fiada em uma roda de amigos (roda de amigos? eu quis dizer aplicativo de mensagem do telefone celular).

Voltando: Por que eu me lembrei dessa anedota? Ocorreu-me, por um momento, a possibilidade de que a riqueza é uma ilusão sustentada por aqueles que não são ricos. As conquistas do homem da historieta acima só fizeram sentido, pois havia alguém menos afortunado que pudesse deseja-las.

Eu já tratei aqui sobre o estranho comportamento inverso, em que a maioria se porta como o peixe fora d’água, ou melhor, que o polo pobre se sufoca cada vez mais em sua miséria, sem perceber que a transformação da realidade depende apenas de sua organização para reestruturar o mundo a partir de uma nova visão. Porém, a "fome" é muito grande.

Durante a minha infância, nos divertíamos nas ruas, com amigos, primos, vizinhos. Brincávamos de polícia e ladrão, jogávamos futebol, andávamos de bicicleta, quebrávamos vidraças com piões e bolas de gude, soltávamos pipas etc. Dependurávamos em árvores, muros e portões. Divertíamos ao sol, na chuva e no frio. À noite, ao voltar para casa, inúmeras vezes usei a escova da lavanderia de casa, embaixo do chuveiro, para limpar o encardido do pé. Quantos foram os remédios ardidos nos arranhões e que sopro nenhum fazia arder menos? Da mesma maneira como foi para Adão e Eva, as minhas melhores memórias são da época do Jardim do Éden.

Então, finalmente a era dos videogames (maldita serpente). O primeiro colega a ter um virou o centro das atenções. Agora, ao sair para a rua, desejávamos que ele nos chamasse para jogar dentro de casa. Todos passaram a querer o "tesouro" que o amigo "rico" ganhara do "gênio da lâmpada". Após finalizar os deveres da escola e sermos liberados para a rua, a bagunça que costumeiramente fazíamos já não era mais suficiente para nos divertir. Sempre faltava algo. Era um apetite inexplicável pelo que não se tinha à disposição, o telejogo.

"Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição."

Mahatma Gandhi

Eu usei o videogame como exemplo, pois ele foi o item mais valioso e duradouro para as crianças da minha geração. Porém, em ciclos menores, isso se repetia sempre que alguém aparecia com um brinquedo novo. O videogame apenas suplantou os ciclos menores. Nada do que apareceu depois foi tão legal quanto ele, tampouco conseguiu tomar seu lugar. Ele transformou-se no ápice da riqueza, segundo o valor que damos a ela.

E quer saber, chego à conclusão de que definir valores tem lá sua coerência. Em um mundo de pessoas com dor de barriga, o acesso a uma única latrina pode custar muito caro. O que me intriga é que em um mundo de diarreias, pagamos caro para vencer a disputa de quem tem o papel higiênico mais florido.

Assim, ainda sobre minha experiência com o videogame, fiquei pensando, quanto da mudança que ocorreu no meu conceito de diversão, na infância, foi em razão do presente, propriamente dito, que o garoto ganhou, e quanto foi em razão do valor que nós atribuímos ao brinquedo dele?

É o nosso desejo de ser rico que sustenta a ilusão da riqueza. Talvez alguém diga, "ah, mas eu não tenho desejo de ser rico". Eu responderia, "tem sim, todos nós temos". É a casa que gostaríamos que refletisse a nossa personalidade, que aliás e por isso, em algum momento do passado, começamos a chamar de lar, mas não mais de abrigo. É o jardim que querermos que seja o mais bonito da vizinhança. É o desejo pelo último modelo de celular, sem nos preocuparmos mais se é capaz de fazer ligações. É o carro mais chique e mais confortável, mas não necessariamente mais econômico que queremos comprar. É o restaurante, a paisagem, ou a viagem que precisam ser divididos com os contatos das mídias sociais. É a máscara contra um vírus qualquer, que desejamos que tenha uma estampa bonita, a mais bonita. Já paramos para pensar nisso? Quando foi que o propósito de uma máscara, nos proteger contra um agente patogênico, deixou de ser suficiente em si mesmo e passamos a precisar que ela tenha uma estampa?

Não sou hipócrita (talvez seja), minhas máscaras também tem estampas, tampouco acredito que os problemas do mundo irão se resolver sem elas. O que estou tentando fazer é usar um exemplo simples para buscar entender a complexidade dos problemas maiores, os quais nós mesmos criamos e neles nos metemos. Quando foi que o olho ficou maior que a barriga?

"Bebida é água!

Comida é pasto!

Você tem sede de que?

Você tem fome de que?"

Titãs - Comida

Em tempo e para fritar o cérebro: Haveria obrigação moral em praticar uma ação nobre se alguém fosse impactado negativamente por ela? Um ato elevado é caracterizado por seu objetivo ou por seu resultado? A nossa "fome" não sustenta apenas a ilusão dos ricos. Uma boa pergunta seria, a quem ela é mais importante? Quase todas as crianças, mais cedo ou mais tarde, ganharam um videogame depois. Portanto, a primeira consequência, se tivéssemos agido diferente após o surgimento do primeiro entre todos os amigos, seria o fato de que, provavelmente, não haveria emprego para os funcionários das empresas desenvolvedoras de jogos eletrônicos, ou pelo menos não teriam tido bons salários como deve ter sido. Sem falar na estrutura econômica que se estabeleceu em função daquele mercado. Quantos empregos diretos e indiretos surgiram a partir dos videogames e que existem até hoje, já que aquela onda não passou, mas ficou cada vez mais estabelecida? Setores de transporte, de embalagem, de eletrônica, de lojas de departamentos, de alimentação, de segurança, entre outros, surfaram e surfam nela também. É uma rede que se expandiu imensuravelmente e todos dependem dela. Está aí a fonte do cheiro de queimado, como resolver um problema quando dependemos dele?