domingo, 23 de janeiro de 2022

O Homem saiu da Caverna, mas a Caverna não saiu do Homem

 "Pensar me irrita, pois antes de começar a pensar eu sabia muito bem o que eu sabia."

Clarice Lispector

O câncer é uma doença causada pelo crescimento descontrolado de tecido celular. Ele pode acometer qualquer órgão do corpo humano e, por isso, existem mais de cem tipos. Segundo estatísticas do INCA – Instituto Nacional do Câncer – em 2020 surgiram mais de 626 mil novos casos no Brasil, igualmente distribuídos entre homens e mulheres. Além disso, em 2019 ocorreram mais de 232 mil mortes causadas pelo câncer, com 47% delas relacionadas às mulheres.

Por que comecei esse texto falando sobre o câncer? Pois ele tornou-se um exemplo prático na minha tentativa de compreender nossa realidade, em uma de minhas introspecções – acho que eu estava no trânsito naquele momento. Eu fiquei pensando se é justo de nossa parte, ou coerente, criticarmos o que chamamos de "injustiças" praticadas por nossos antepassados e, atualmente, por nós mesmos enquanto propagadores delas.

Refiro-me à conquista do "conforto" usufruído por nossa geração, executada pelas civilizações anteriores – usei aspas na palavra conforto, porque seu significado vai além de repousar o corpo sobre uma poltrona aconchegante. Atualmente, aquelas conquistas são, em certa medida, classificadas como "injustiças" praticadas. Adianto que concordaria com esse posicionamento, quanto aos conceitos éticos e morais que ele pode carregar. Porém, não consigo deixar de observar que nós, porta-vozes de tais reprovações, não abdicamos do "conforto" proporcionado pelas mesmas "injustiças". Parece-me – não consegui concluir cabalmente – que nossa "luta revolucionária" no mundo das ideias não avança além daquilo que abalaria o mesmo "conforto". Ou o "eu coletivo" enxerga algo que o indivíduo não vê.

Deixe-me voltar ao câncer para explicar de forma prática. Imagine que eu descubra uma cura para essa doença. Aliás, o simples fato de fazer essa descoberta carrega em si uma bagagem de "injustiças" passadas – base para a formação intelectual que me permitiu alcançar esse tipo de "conforto" –, mas não seguirei nesse sentido, pois não desejo me delongar demais. Pois bem, com a cura em mãos, eu pude elencar pelo menos três alternativas: (1) não faço absolutamente nada e privo todos da cura; (2) custeio a produção do medicamento, a partir do meu próprio bolso, para toda a humanidade; (3) cobro pela produção e pelos menos aqueles que puderem pagar terão acesso a cura.

As opções (2) e (3) também despertam em você a inquietação que provocaram em mim? A alternativa (2) não lhe sugere que minha capacidade de custear o remédio para toda a humanidade, apesar de ser aparentemente ética e moralmente elevada, carrega consigo uma série de "injustiças", "desigualdades" e "acúmulos" anteriores, que teriam me capacitado a esse tipo de conforto? A alternativa (3) não se apresenta a você, também instintivamente, tão "injusta" e "desigual". Esse é o meu ponto, devo confiar no que meu instinto está sussurrando ao meu ouvido? Seria possível que esse impulso estivesse se disfarçando de razão?

Talvez alguém diga que a melhor alternativa seria cobrar preços justos. Eu pensei nisso também, mas não consegui definir justiça. Continuei me imaginando detentor do conhecimento da cura do câncer e tentei ponderar um preço justo. Com ele, cem por cento da humanidade teria condições de comprar o medicamento? Eu teria condições de decidir quem vai poder pagar? Qual é o número de pessoas que ficam de fora que faria tudo ser justo? Então, seria mais justo que ninguém tivesse acesso à cura?

Eu não estou tentando me convencer de que o Homem não pratica injustiças. Longe disso... Porém, se eu posso escrever um texto na internet, condensando a bagagem intelectual que adquiri até aqui, incluindo as condições socioeconômicas que me permitem "pagar" pelo acesso à rede, significa que o resultado da tentativa do Homem de melhorar o mundo, mas não de o estragar, me alcançou, uma vez que a condição original de todos nós é procurar comida na mata, levar picadas de mosquitos e nos entocarmos em cavernas fugindo de feras. Assim, o que eu estou propenso a considerar é que, talvez, o meu privilégio não esteja, nem sequer indiretamente, relacionado a subtração de outrem, pois, em primeira instância, poderíamos ter optado por não criar o "conforto" para não sermos "injustos".

Desviando: Em forma de agradecimento, digo que o que eu recebi é vinte, cinquenta, ou oitenta por cento – se não for mais – resultado da batalha de outras pessoas. Há muito tempo, em um programa de televisão, pessoas na rua tiveram a oportunidade de deixar mensagens à cantora Sandy. Uma delas disse que a cantora não sabia o que era a vida de verdade, pois nasceu em "berço de ouro" e teve todos os "privilégios do mundo". Achei a resposta da Sandy genial. Não lembro exatamente as palavras, mas ela disse que desfrutar dos privilégios que tinha recebido era uma forma de honrar os sofrimentos que o pai dela suportou para que ela, um dia, não passasse por eles também. Ela concluiu dizendo que seria ingratidão da parte dela ignorar as lutas do pai, contra todas as dificuldades, se abdicasse do favor que recebera dele. Eu fiquei tentando decifrar, entre o inquiridor e o respondente, quem está mais longe da compreensão sobre o que é a vida?

Voltando: Na Natureza não existe justiça e igualdade. Portanto, não me parece que o Homem esteja tentando as retirar do mundo, mas estaria tentando inseri-las. Todo o "conforto" que usufruímos hoje não são intrínsecos à Natureza, mas são resultados de esforços, e às vezes ao custo da própria vida, dos humanos do passado.

Permita-me dar outro exemplo da crítica do Homem Moderno. Aquele discurso de que a educação tem sido praticada de forma desigual. Não é o que dizem, "todos têm direito à educação"? Entretanto, quando essa última máxima é afirmada, o que se está querendo dizer? Primeiro, temos que concordar que mesmo para o Homem da Caverna, que desenhava nas pedras e colocava os "alunos" diante delas para "educa-los" a respeito de sua história, a educação envolvia custos. Então, seria leviano descartar essa percepção enquanto tentamos definir o aforismo de que todos tem direito a educação. Pois bem, ele significaria que todos tem direito a educação que puder "pagar"? Ou que todos teriam o direito que alguém assumisse os "custos" da educação? Ou "somente" que ninguém poderia ser privado do seu direito de obter educação? A máxima foi criada para definir a obrigatoriedade de dar, ou a proibição de vetar? (Considere a abrangência das palavras "pagar" e "custos" sugerida pelas aspas).

Desviando: Aliás, confesso que cometi um erro grave no parágrafo anterior. Nem sequer coloquei em pauta a pergunta, "o que é educação?". Ela pode fazer com que eu mude completamente minhas dúvidas. O que era a educação para o Homem da Caverna? O que é a educação para nós? Deveriam ser diferentes? Ela seria um meio para arrumar um bom emprego, ter uma boa vida e poder desfrutar de "confortos"? Minha avó educou nove filhos sem saber ler e escrever. Tenho um colega que frequentou um curso em uma faculdade pública brasileira, mas que não tem uma vida melhor do que teve a minha avó. Aliás, sob um aspecto mais transcendente, posso dizer que dificilmente a vida desse meu colega vai superar a qualidade de vida da minha avó. Então, novamente, o que é educação? Ela está relacionada ao quê? Como podemos medi-la? Para que ela serve?

Voltando: Eu também já falei aqui sobre a complexidade de classificar ideais moralmente elevados, tanto do ponto de vista conceitual quanto do ponto de vista prático. E, de certa forma, estou estendendo a mesma discussão. Quando colocamos em xeque as conquistas, ou "injustiças", do Homem do passado, o que estamos pedindo em essência? Para voltar à vida selvagem? Para que "paguem" pelo nosso "conforto" – ou pelo "conforto" dos outros? Como acumularíamos para pagar por outros? O acúmulo, em seu âmago, não seria parte do que criticamos? Apenas tirar o conceito de moeda do meio das relações humanas nos tornaria mais justos realmente? Nossos "ideais revolucionários modernos" estão tentando mesmo melhorar o mundo, ou apenas expandi-lo?

Para que não pensem que estou sendo tendencioso em meu discurso, não acho que estamos obtendo sucesso em inserir a justiça no mundo, mas tampouco acredito que estejamos a retirando, pois ela não existe intrinsecamente à Natureza, quiçá em nós. Parece-me sim que as ambições do Homem Moderno permanecem iguais àquelas do Homem da Caverna: domínio, pelo porte do fogo; privilégio, por usufruir da roda; direito, em ter acesso à Matemática. A única diferença no tempo seria a escala do alcance idealizado.

Quero dizer, nos faltaria apenas que o mundo que construímos fora da Caverna fosse expandido, de uma forma ou de outra? Estamos mesmo satisfeitos com o que nos tornamos, bastaria multiplicarmos? Nós deixamos mesmo de ser Homens da Caverna? Ou ainda, os ideais que concebemos dentro dela seriam mesmo suficientes para deixarmos de sê-lo? Quando nossos anseios migrarão do que está fora para o que está dentro?





domingo, 12 de dezembro de 2021

Lançamento do e-book "Formigueiro 52A"

"Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução."

Machado de Assis

É com muita alegria que compartilho o lançamento do meu e-book, "Formigueiro 52A", em parceira com a Editora Brilho Coletivo, já disponível na Amazon. Ele é uma evolução direta deste blog, que mantenho desde abril de 2015. E assim como no blog, o livro ganha forma a partir das inquietações geradas pela realidade paradoxal, delirante e fantasiosa que criamos.

A obra apresenta onze contos, com os quais tento revelar minha alma inquieta – por assim dizer... desconfortável com a lógica que usamos para construir nossa realidade. Como gosto muito de comparações, a leitura de cada história poderia se assemelhar a um salto ao mar, fazendo com que o leitor se sinta leve, deixando-se lançar distraidamente à realidade óbvia do contexto de cada narrativa. Entretanto, o "impacto na água" é inevitável, quando os paradoxos do comportamento humano são revelados, provocando espanto e irritação, ora pela revelação do equívoco dos paradigmas, ora pelas incoerências agora tão claras – antes displicentemente desapercebidas –, ou ainda pelo leitor se sentir inevitavelmente impelido em colocar em xeque as certezas do presente século – ou pelo menos algumas delas.

Soma-se aos contos a sessão de comentários, através dos quais as motivações para cada história são reveladas. No entanto, diferente do que se possa esperar, em cada uma das análises não são encontradas respostas para os dilemas apresentados nas narrativas, mas elas acrescentam mais angústias, perguntas e reflexões, agora na forma discursiva, assim como aperfeiçoado ao longo de anos, através deste blog.

Acesse o e-book aqui, confira a descrição/sinopse, adquiria o seu e deixe seu comentário.

Atualização: Agora também é possível adquirir a cópia impressa do livro “Formigueiro 52A", lançado através da plataforma “Clube de Autores”, clicando aqui, ou usando o botão "Clube de Autores" no painel ao lado.

Formigueiro 52A: Nós nascemos nesta terra, nesta realidade, e tudo nos parece equivocadamente óbvio

Agradecimento: a todos que me acompanham neste blog e que, por isso e mesmo sem saber, me motivaram a escrever este e-book, apenas estando juntos aqui comigo.


sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Leite Derramado... Que Leite?

"E assim é o ser humano: tão vazio que se preenche com qualquer coisa, por mais insignificante que seja." 

Blaise Pascal

O fonógrafo de cilindro foi, na prática, o primeiro dispositivo mecânico de gravação e reprodução sonora. Inventado por Thomas Edison em 1877, popularizou-se de tal maneira que tornou o cilindro um dos itens mais consumidos entre os anos de 1880 e 1910. Em 1889, surgiu o gramofone, ou fonógrafo de disco, cuja concepção é atribuída a Emile Berliner. Os discos eram mais fáceis de produzir, transportar e armazenar, além disso, permitiam gravações de som nos dois lados. Não à toa, após certo aprimoramento, os discos dominaram a indústria fonográfica até o final do século XX. Mais adiante, avanços na elétrica e no magnetismo possibilitaram a criação das fitas cassete, oficialmente lançadas em 1963, pela empresa Philips. Elas consistiam em fitas com dados armazenados magneticamente também dos dois lados, contribuindo ainda mais com a economia de espaço e facilidade de manuseio – também introduziram a facilidade da regravação doméstica. Já entre as décadas de 80 e 90, surgia o disco compactocompact disk (CD) –, que permitiu o armazenamento de dados digitalmente. Entretanto, o CD foi pouco longevo, pois a tecnologia que permitiu o seu surgimento, também foi o seu fim. Hoje, o principal meio de gravação e reprodução de som é o digital (pen-drives, celulares e streamings).

Dias atrás ouvi uma gravação de voz, era uma despedida incerta de alguém. Incerta, pois insinuava uma expectativa de que o trágico destino ainda pudesse ser apenas uma hipótese equivocada. Dizem que a "esperança é a última morre", ou que "no fim tudo dá certo".

Desviando: Interessante, escrevendo o parágrafo anterior, lembrei-me de um relato de Leonard Mlodinow, em seu livro Subliminar. Darei crédito ao "modo automático" de minha mente, no seu processo de "ligar pontos", sem tentar entendê-la. Leonard disse que, certa vez, o seguinte experimento foi feito... Separaram dois grupos de pessoas e disseram a todos que um novo teste havia sido desenvolvido, para detectar um tipo qualquer de câncer. O exame consistia em lamber uma fita de papel, de modo que o diagnóstico seria dado pela alteração, ou não, da cor da fita. Com os grupos separados, a um foi dito que, se a fita permanecesse branca, após a lambida, o resultado era negativo para o tipo de câncer em questão. Ao segundo grupo foi dito que, se a fita continuasse branca, o resultado era positivo. O que não foi dito aos dois grupos é que as fitas eram simples pedaços de papel e que não havia nada nelas que pudesse fazê-las mudar de cor. Enfim, todas as pessoas do primeiro grupo lamberam uma única vez a fita e se deixaram aliviar da tensão nos ombros. Enquanto as pessoas do segundo grupo, uma a uma, lamberam a fita, uma, duas, três, quatro, incontáveis vezes, até a exaustão, no anseio desesperado de que ocorresse a alteração de cor, até desistirem e devolverem as fitas aos experimentadores, com o olhar de uma criança que é obrigada a devolver o brinquedo a um adulto. Sei qual olhar é esse e me compadeço quando ele vem de adultos. Às vezes, podemos senti-lo até no tom de voz. Acho que foi essa a associação da minha mente com a gravação que mencionei.

Voltando: A pessoa dona da voz fez a gravação minutos, ou quem sabe segundos antes de sua morte. O que ela não sabia ainda era "como" lhe aconteceria, ligeiramente diferente de nós, que, por enquanto, não sabemos "se" algo pode nos acontecer em minutos.

O que me inquietou foi o fato de aquela gravação ter sido feita vinte anos atrás e não existir nada nela que me fizesse desconsiderar a possibilidade de ter sido feita há somente vinte minutos. Aliás, eu só me dei conta que era uma gravação antiga minutos após tê-la ouvido, quando entendi do que se tratava.

É muito estranho que a evidência da existência de uma pessoa não seja suficiente para identifica-la no tempo. Não tendo, aquela mensagem, sido gravada há vinte minutos, mas sim há vinte anos, faz com que ela não signifique nada hoje. Digo, perde-se a necessidade de efeito para uma causa – ou vice-versa. É só um registro, mas não um "gatilho". E por não significar nada hoje, permanecendo a indiferença da evidência no tempo – por não ser possível identificar se hoje, ou se há vinte anos –, por que eu deveria acreditar que a mensagem teve algum significado no momento em que foi criada? A gravação, no instante em que a ouvi, era somente um "nó" no tempo, unindo o "agora" com o "há vinte anos". Ela fez o passado parecer um sonho. Nós parecemos um sonho.

Percebe? A marca no tempo não perpetuou, ao contrário, revelou a insignificância. Chego à conclusão de que um legado não nos eterniza, mas nos confina. Ele confirma que não somos nada. Uma marca no tempo é apenas um "nó", eliminando todo significado e importância que damos ao "tique-taque". Não faz a menor diferença. Não fazemos a menor diferença.

Desviando: A quem possa interessar, aquela gravação foi a despedida de uma passageira de um dos voos do atentado de 11 de setembro, em 2001, nos EUA. Também já falei sobre nossa insignificância aqui.

Voltando: É muito estranho ouvir uma pessoa falar sobre a hipótese da sua morte, minutos ou segundos antes de ela se concretizar, quando hoje sabemos que foi tão certa. A irracionalidade de nosso cérebro parece nos impelir a tentar entrar em contato com aquela pessoa, do "agora" para "há vinte anos", e dizer a ela o que precisa ser feito, ou o que ela vai enfrentar. Nossa mente não "desata" bem "nós" no tempo.

Nossos corações, definitivamente, não foram preparados para aceitar o leite derramado, inclusive e principalmente, quando a jarra de leite é a nossa própria existência. E essa é causa, encarar o leite derramado nos revela que nós nem sabemos se existimos de verdade.



terça-feira, 19 de outubro de 2021

Vento, Ventania...

"Na admissão de uma opinião ou doutrina, os homens consultam primeiramente o seu interesse, e depois a razão ou a justiça, se lhes sobeja tempo." 

Marquês de Maricá

A Segunda Guerra Mundial, que ocorreu entre os anos de 1939 e 1945, foi causa de 70 milhões de mortes, aproximadamente. Um estado de guerra total, quando os envolvidos destinaram suas capacidades industriais, econômicas e científicas em prol do combate. Foi durante aquele conflito que ocorreu o Holocausto, quando aproximadamente 20 milhões de civis perderam suas vidas, entre eles, judeus, soviéticos, poloneses, ciganos, pessoas com necessidades especiais, homossexuais e testemunhas de Jeová. Além disso, também foi a única vez em que armas nucleares foram utilizadas, mas como "a história é [contada] pelos vencedores" – com a liberdade de parafrasear George Orwell – dizem que existiu somente um "bicho-papão" naquela batalha, o restante "entende-se" por atos "legítimos".

Desviando: Recomendo o filme Conspiração, sobre a decisão pelo Holocausto, ele é muito bom. E tenho a impressão que a frase "a história é contada pelos vencedores" também já foi dita por alguém.

Voltando: Utilizando a Segunda Guerra como pano de fundo, arriscarei tratar de um tema já mencionado superficialmente aqui, mas agora com um texto completamente dedicado a ele. A dúvida que desejo retomar é, o que torna um ideal moral elevado, seu aspecto conceitual, ou seu resultado prático?

No livro "O dilema de Einstein", o autor Jeremy Stangroom propõe o que ele chama de um impasse ético. Se tivéssemos uma máquina do tempo, deveríamos voltar ao passado e matar Adolf Hitler antes de sua ascensão? Responder que sim é um ideal moral elevado conceitualmente. Entretanto, e se nós tivéssemos nascido em consequência da ocorrência da Grande Guerra? Aliás, se tivéssemos sucesso em nossa empreitada temporal, o que seria dos filhos, netos, bisnetos e tataranetos de casais que se uniram em virtude do conflito e que hoje povoam o planeta, imensuravelmente? Muitas pessoas ficaram viúvas, conheceram novos parceiros durante e após o conflito, e seus descendentes "foram abençoados, foram férteis, multiplicaram-se, encheram a terra e subjugaram-na". Bem, poderíamos "resolver" essa questão sustentados na matemática, dada a proposta de ser a "única explicação para o Universo". Para isso, bastaria verificarmos se hoje os descendentes da Guerra superam as 70 milhões de vítimas fatais do combate – isso foi uma ironia. Pois é, por que confiamos tanto na nossa capacidade de julgamento?

O que estou tentando entender é, o que acontece com um ideal moral conceitualmente elevado quando levamos em conta as consequências práticas dele? E, caso essa história de viagem no tempo pareça abstrata e fantasiosa, o mesmo paradoxo ocorre em uma situação mais verossímil, também apresentada pelo Jeremy em continuidade à discussão do tema. Ele discorre sobre um nascimento como resultado de um estupro:

"(...) se não há uma exigência moral de alguém sacrificar a própria vida para impedir determinado mal, então também não se pode exigir que a pessoa lamente a ocorrência de um mal se a única maneira de o impedir seria à custa de sua existência.

"Entretanto, embora aqui acabe o paradoxo – obrigação moral de lamentar a ocorrência de um grande mal –, ainda seria estranho dizer que não lamentamos o Holocausto. Será que podemos trazer de volta as lamentações?

"Só podemos especular a possível construção de tal argumento. Veja, por exemplo, o que podemos dizer de um estupro que resultou em um nascimento.

"A. Sinto muito que o custo da minha existência tenha sido seu estupro.

"B. Sinto muito por você ter sofrido.

"A expressão do sentimento pode ser quanto aos fatos nus e crus da situação. 'Sinto muito que tenha sido assim. Escolho a existência, mas, se eu pudesse alterar as circunstâncias de meu nascimento, o faria'. Essa é uma forma de lamentar não a ocorrência do estupro, mas sim o fato de que só por meio dele uma existência foi possível."

Sabe por qual motivo os impasses anteriores ocorrem? Porque um ideal moral elevado conceitualmente pode deixar de sê-lo quanto aos seus resultados práticos. Ou assumimos isso, ou somos potenciais máquinas de matar à mercê de gênios em retórica.

Não foi isso o que aconteceu na Segunda Guerra Mundial? Os líderes de ambos os lados fundamentaram seus discursos sobre ideais morais elevados conceitualmente, pelo menos para seus próprios povos, sem apresentar também às suas respectivas nações quais seriam os resultados práticos dos mesmos ideais.

Não é estranho pensar isso, que verdades podem ser usadas para sustentar mentiras? Pensando assim, quem sabe Platão chegasse à conclusão que o homem não tem que sair da Caverna, mas a Luz é que deveria penetrá-la.

Bem, por enquanto estamos apenas xingando nossos "adversários" de boçais, gado, "esquerdopatas", fascistas, facínoras, escrotos, safados, etc. Tem xingamento para todos os gostos e para todos os lados, sem falar nos "linchamentos virtuais". Já paramos para ponderar a profundidade disso, de pessoas se ofendendo por causa de diferenças políticas?

"É assim que começa. A febre, a raiva, a sensação de impotência, que transforma homens bons em cruéis."

Alfred – Batman VS Superman (2016)

Diariamente, sofremos bombardeios com esse tipo de impasse moral, seja na TV, na igreja, na escola, no cinema, nas revistas em quadrinhos, nas redes sociais, na barbearia, na manicure, etc. E nunca – assumindo o risco da generalização –, nunca se trata igualmente, ou se leva em consideração na mesma proporção, os resultados práticos dos conceitos morais. Somos péssimos em simulações mentais.

Atualmente, temos sido impelidos a "engolir" ideologias originadas em ideais morais elevados conceitualmente, sem que sejam também analisados os resultados práticos. Vou além, até mesmo o fato de se propor colocar em discussão um ideal moral pode fazer sermos tachados, excluídos, classificados, rotulados, julgados, condenados e virtualmente linchados por esse posicionamento. E o problema disso é, quando os dois lados lutam pela "verdade e justiça" como distinguir quem é o monstro? Ora, "a história é contada pelos vencedores."

Desviando: Coincidentemente, dias atrás eu ouvi a seguinte frase de José Antonio Bruno: "Nenhuma ideologia propõe a morte do seu ego. Nenhuma delas propõe uma nova natureza humana, um salto ontológico existencial para ser um novo ser."

Voltando: Concluo com a observação de que sempre somos levados por "ventos de doutrinas" e pior, nos deixamos levar, às vezes cegamente, outras vezes negligentemente, quase sempre convenientemente. Há esperança? Não sei, mas Mario Quintana já disse certa vez, "no fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar."