quarta-feira, 27 de julho de 2022

Alice no País das Trivialidades

 "Louco é o homem que perdeu tudo, menos a razão."

G. K. Chesterton

Uma fotografia é uma imagem bidimensional, que contém registradas as diferentes intensidades de luz de uma cena qualquer. Complementarmente, um holograma inclui também a interferência dos feixes de luz provenientes da cena capturada. Em outras palavras, os hologramas são imagens ainda bidimensionais, mas que contemplam toda a informação necessária para criar uma representação tridimensional do objeto registrado. É como ver um filme 3D, em uma tela plana de cinema, sem precisar usar os óculos auxiliares – destaque para o contraste entre plano e 3D. Enfim, eu estou tentando chamar atenção para o fato de que a imagem tridimensional holográfica é como um "reflexo", projetado no espaço, da figura bidimensional. O holograma é uma ilusão.

Supondo que haja uma equação de tudo – ou várias equações –, que descreva a evolução do Universo desde o momento inicial até agora, poderíamos dizer então que as "diretrizes lógicas", ora traduzidas matematicamente, existiriam antes do próprio Cosmos? Para que o Universo ocorra, é necessário que as "regras" que o viabilizam existam antes? Quem é o "reflexo" de quem, entre a "realidade" e os princípios físicos sobre os quais ela se sustenta? Quem é a figura e quem é o holograma?

Pense na música, por exemplo. Uma melodia poderia existir antes de ser ouvida, ou antes mesmo de ser pensada? Será que o meio onde ondas mecânicas se propagam e a efetiva ocorrência disso não são somente a materialização de um conceito pré-existente? De fato, as notas musicais também podem ser representadas matematicamente, mas, ainda assim, gera-se uma expectativa sensorial, entre as combinações de sons, que parece suplantar os números.

Um último exemplo, a moral e a ética. Já refletimos sobre o motivo pelo qual os povos de milênios atrás, no Oriente Médio e na América, sacrificavam pessoas? Talvez por crueldade? Sim, acredito que sim. Entretanto, parece haver algo além. Veja, por que eu acreditaria que um deus se convenceria do meu "amor", se não fosse demonstrando uma capacidade de praticar algo que minha moral clama como monstruoso? Ou seja, a minha intelectualidade pode ser imatura – arbitrária, de fato – a ponto de tentar agradar um deus às custas de outra pessoa, mas não às minhas próprias custas. Porém, ela é rebuscada o suficiente, mesmo em seu obscurantismo bestial, para perceber que há um preço ético muito elevado no sacrifício de pessoas. Graças a Deus, aqueles hábitos foram abandonados – aliás, como estaríamos organizados hoje se Deus não tivesse oferecido o último sacrifício? De qualquer forma, o que eu estou tentando dizer é, parece-me que a moral e a ética precedem as religiões, precedem a organização social, precedem o intelecto, mesmo os seres humanos e, talvez, até o "mundo tangível". Reitero, quem é o holograma? Quem é a ilusão? Onde está a fonte?

Desviando: Há uma pergunta que, apesar de soar como brincadeira, pode tornar-se muito séria: "quem surgiu primeiro, o ovo ou a galinha?". Pense neste outro exemplo, o que veio antes, o leite ou os mamíferos? Quero dizer, a seleção natural teria criado primeiro o leite, as glândulas mamárias ou o sistema digestório, com a complexidade necessária para processar o leite? Pois, quem veio antes, o bem, a oferta ou a demanda? A teoria não sugere que a origem esteja associada a uma "codependência" entre eles? Além disso, supondo que o leite e as mamas surgiram antes, a capacidade de digestão desenvolveu-se aos poucos ou de uma vez? Pergunto por experiência própria, pois a falta de uma única enzima é capaz de me deixar de cama por dois ou três dias – o leite torna-se quase um veneno. Continuando, o que veio antes, o gameta masculino ou o feminino? Como o primeiro portador de células reprodutivas conseguiu passar adiante seu código genético se lhe faltava o par? Aliás, o que surgiu primeiro, os gametas ou os órgãos reprodutores? Qual a probabilidade de terem sido ambos, em dose dupla e ao mesmo tempo? Alguma chance individual pequena elevada à quarta potência? Por último, mas não por fim, o que veio antes, os códigos genéticos ou os seus "tradutores", que constroem as proteínas?

Aos mais desconfiados e aos mais românticos, não estou tentando insinuar qualquer tipo de relação entre teologia e ciência. Minha inquietação origina-se exclusivamente na ciência, ou melhor, na matemática, mais precisamente, na estatística. Tudo me parece colossalmente improvável. De qualquer forma, como citei, a pergunta "quem surgiu primeiro, o ovo ou a galinha?" é profunda demais e, talvez, possa exigir significativas releituras, se levada a sério. Provavelmente, por isso ela tornou-se uma piada.

Voltando: No grego, a palavra "logos" originalmente significava razão, pensamento, a lógica por traz de uma ideia. Entretanto, os filósofos da mesma região, e época, também usaram a palavra para representar algo mais amplo. Por exemplo, segundo Heráclito, o "logos" seria aquilo que conecta o discurso racional a estrutura também racional do mundo. Ela seria uma lei universal, um ponto de origem comum a partir do qual todas as coisas se estabelecem, embora as pessoas tenham um entendimento próprio do que as rodeia. Já para Aristóteles, o "logos" distinguiria o ser humano dos demais seres, pois é ele quem permite que as pessoas diferenciem o bem do mal, gerando então uma sociedade consciente e ética. Os filósofos estoicos se apropriaram do termo "logos" como um princípio gerador do Universo, o mesmo conceito que, posteriormente, influenciaria os neoplatonistas. Já segundo a definição do apóstolo João: "No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez."

Enfim, a realidade parece ser apenas o holograma projetado no espaço de uma verdade precedente, independente e causal. Talvez, não possamos nem mesmo chamar nosso Universo, o espaço e o tempo de realidade. Estes, de certo, seriam apenas os efeitos colaterais de algo anterior. Quem sabe, eles seriam o resultado material inevitável de uma vontade de potência externa ao espaço. Ou seriam ainda a somatização de uma pulsão desatada do tempo. O Logos seria a resposta para a pergunta, "por que existe algo em vez de não existir nada?".

Tendo a acreditar que nós somos apenas um olhar pelo furo de uma janela fechada.

Eu li uma frase, de autoria desconhecida, que dizia: "na escala do Universo, árvores são mais raras que diamantes". A Alice passou tanto tempo neste "País", por isso deixou de maravilhar-se com ele. De fato, ela nasceu aqui e nem percebeu onde está inserida. Tudo se tornou trivial demais e por isso fez escolhas e tomou decisões levianamente. Ela reduziu tanto a complexidade das coisas que não somente abandonou o fascínio por elas, como deixou de enxergar qualquer piada nelas. Ela poderia, pelo menos, rir de si mesma. No "País das Maravilhas", a Alice renunciou a tudo, menos à razão. Antes tivesse deixado de lado somente esta última. Pois que seja então bem-vinda ao "País das Trivialidades".



quarta-feira, 29 de junho de 2022

O Joio e o Trigo

"As verdades são frutos que apenas devem ser colhidos quando bem maduros." 

Voltaire

Existem vários tipos de barreiras, ou muitas formas de criar uma. Em primeira instância, refiro-me àquelas mais diretas, como uma porta, uma parede, um muro, uma pedra, um monte e até mesmo um curso d'água. Entretanto, gostaria de focar em outras mais engenhosas.

Durante a pandemia, foi implantada a política do isolamento social, que culminou em algumas polêmicas. Entre elas, discutiu-se a possibilidade de uma cidade litorânea proibir a entrada de visitantes, na ocasião do primeiro feriado prolongado. No fim, o acesso não pôde ser negado, devido a alguma questão legal – algo relacionado ao direito constitucional de ir e vir. Porém, isso não impediu que um "bloqueio" fosse estabelecido: deixou-se somente uma cancela de pedágio aberta na autoestrada. Ou seja, não era que a cidade havia impedido o acesso, mas eram os turistas que "não queriam" visita-la – afinal, se as filas nos pedágios levam horas mesmo com todas as cancelas abertas, imagine com somente uma disponível. Em suma, uma barreira simples e eficaz foi engenhosamente implantada.

Este tipo de bloqueio indireto fez eu considerar algo maior. Um universo imensuravelmente grande é um tipo de barreira muito singular – no sentido matemático da expressão –, pois impede que seus limites sejam alcançados e superados precisamente por serem indetermináveis. É isso o que torna tudo muito "curioso". Aliás, isso torna o Universo singular ou engenhoso? Pondere por um instante o tipo de realidade que estaríamos vivendo se existisse um muro no céu. Enfim, assunto para outra ocasião.

Desviando: Há algum tempo tenho enxergado o Universo como uma festa surpresa de aniversário. Não pela comemoração em si, mas sim pela imprevisibilidade da situação do ponto de vista do aniversariante. A pessoa chega em casa, passa pela entrada com o cômodo principal ainda escuro. Ela joga a chave do carro sobre o aparador, tira os calçados, pendura o casaco no cabideiro, afrouxa os primeiros botões da camisa e, então, acende a luz. Nesse momento, o aniversariante toma um susto, ao perceber que aquele cômodo, indubitavelmente vazio em sua mente, acomodava dezenas de pessoas o espreitando, além de estar organizado completamente diferente do que presumia há poucos segundos. É como não saber que se poderia saber algo. Pois eu fico imaginando se, um dia, a "luz deste cômodo", que demos o nome de Universo, irá se acender.

Voltando: E então, qual o meu interesse em barreiras? É ter identificado bloqueios caracterizados pela forma como algumas palavras tem sido escritas. Você já leu algum texto na internet, ou viu a legenda de algum vídeo, ou qualquer outra escrita, usando palavras da seguinte maneira, M O R T E, VI0LÊNC14, S3X0, 4B0RT0, por exemplo?

Eu deduzi que, se estamos precisando usar "máscaras" para expressar ideias, significa que os algoritmos moderadores – ou as pessoas – não estão conseguindo "separar o joio do trigo". E isso, talvez, culmine em uma barreira indesejável.

Aliás, a descoberta da nossa incapacidade de moderar não é algo novo, mas é uma percepção milenar: "Os servos do dono do campo dirigiram-se a ele e disseram: 'O senhor não semeou boa semente em seu campo? Então, de onde veio o joio?' Então respondeu ele: 'Um inimigo fez isso.' Os servos lhe perguntaram: 'O senhor quer que vamos tirá-lo?' Ele respondeu: 'Não, porque, ao tirar o joio, vocês poderão arrancar com ele o trigo. Deixem que cresçam juntos até a colheita'." – destaque para o fato de que o trigo não foi impedido de crescer por causa da presença do joio.

Pois bem, se o que é autorizado expressar está precisando se disfarçar, concluo que não temos conseguido identificar o que não é autorizado. E mais, questiono se nossa incompetência se limita apenas à incapacidade de fazer diferença entre o que é permitido e o que não é, ou se ela se expande também à definição do bem e do mal. Quero dizer, por que confiamos tanto em nossos julgamentos a ponto de acreditarmos que sabemos distinguir o que "pode" do que "não pode"? Não estou dizendo que não existam diferenças entre o bom e o ruim, mas estou colocando em dúvida se sabemos identificá-las. Como se não bastasse, também estamos acreditando inocentemente que o "não permitido" seja incapaz de se disfarçar, assim como o "permitido" tem feito – como diria um texto judaico, "as verdades podem ser nuas, mas as mentiras precisam estar vestidas."

Negligenciar nossa incapacidade de estabelecer os limites pode resultar em um efeito colateral significativo. Imagine que em um campo desportivo qualquer exista algo relevante para a sociedade ou para o indivíduo, alguma ideia que possa – ou deva – ser expressada. Em contrapartida, nas arquibancadas, cada torcedor representa uma mentira. A figura abaixo esclarece o que estou tentando dizer, mesmo que seja exagerada, em certa medida. O primeiro quadro é a condição inicial, sem nossa interferência. O segundo quadro é o que poderíamos fazer, não tirar o direito dos três indivíduos de escolherem onde desejam focar a atenção – uma interferência legítima de nossa parte, por exemplo, seria garantir que o jogo fosse cativante. O último quadro é o que estamos fazendo, bloqueando tudo, sob a prerrogativa de proteger das mentiras os três indivíduos.

Alguém poderia perguntar: não deveríamos impedir de alguma forma a propagação de ideias nocivas? Gostaria de oferecer mais perguntas. Não seria mais apropriado desenvolvermos consequências em vez de cerceamento? Do contrário, não estamos correndo o risco de silenciar algo que não deveria ser censurado? Nós temos tanta certeza assim que sabemos a partir de que terras a verdade pode brotar?

Fato é que, em vez de ajudarmos na superação de barreiras através de esforços individuais ou colaborativos, mantendo atrativo apenas aquilo que é válido do outro lado, nós estamos "expandindo o universo" e, consequentemente, tornando tudo muito "curioso". Ao criar obstáculos para tudo, agora definidos precisamente pela impossibilidade de serem alcançados, tornamos também tudo inevitavelmente atraente, até a mentira, ou principalmente ela. Quem nunca entrou em um estádio se fascina até com a torcida.

Enfim, nossa colheita antes da hora vai precisar de um pouco mais de tempo para mostrar seu resultado. Porém, em tempo, não posso deixar de registrar que não me arrisquei tratar de algo ainda mais crítico. Entre tudo o que foi exposto, não considerei o fato de que nossas ideias estão sendo submetidas à autorização sabe-se lá de quem. V0c3 s4b3 qu3m t3m f3it0 a c01h3it4?

terça-feira, 31 de maio de 2022

Mundo Caído

"Posso partilhar tudo, menos o sofrimento." (Oscar Wilde)

Eu já vi algumas situações... muito intensas. Por exemplo, vi uma mulher sendo esbofeteada, de mãos dadas com o filho – em torno de três anos – que a encarava assustado, enquanto ambos caminhavam para o local de suas execuções, apenas porque professavam uma religião diferente daquela dos donos das metralhadoras – eu os vi serem mortos e já falei disso aqui. Também vi um bebê de dois meses morrer após ter sido arremessado pelo próprio pai através da janela de um apartamento. Eu vi animais de estimação serem vestidos, alimentados e abrigados em melhores condições do que crianças com fome, sede e frio. Eu vi crianças morrerem desnutridas e doentes. Vi recém-nascidos serem encontrados embrulhados dentro de caçambas de lixo e até em um lago – no caso do lago, o bebê tremia de frio e chorava com os lábios roxos. Também vi fetos, de todos os tamanhos, abortados e acondicionados em frascos de vidro. Eu vi um jovem e seu fiel cão de estimação morrerem em um acidente de carro, lamentável e ironicamente, como uma "punição" à coragem de terem escolhido viver. Enfadonhamente, vi pessoas sem coragem terem vidas mais longas. Aliás, vi pessoas boas se darem mal e pessoas más se darem bem. Também vi um homem muito franzino, após um dia pesadíssimo de trabalho, sem coragem de levantar a cabeça e encarar os olhos de outro homem, apenas porque o outro homem tinha sido socialmente "condecorado" com o título de chefe – de qualquer coisa. Vi pessoas agradecendo displicentemente um serviço prestado, sem olhar nos olhos de quem executou o favor, sem lhe dar a devida importância – o choque veio quando meu olhar cruzou o olhar do funcionário, nos entendemos. Eu vi um cachorro abandonado na rua, com espasmos, com fome e com sede, não ser alimentado para que não fizesse morada no lugar onde se encontrava – seria um incômodo, um estorvo. A propósito, falando de cachorros, certa vez eu vi um cão atropelado em uma autoestrada, com os ossos quebrados, tentando se levantar. Acho que a falta de racionalidade dos animais não os permite entender que não conseguirão se mover com os ossos quebrados, talvez por isso, ele repetia constantemente os mesmos movimentos, como um disco riscado, que toca sempre os mesmos segundos de música até que alguém puxe a tomada da vitrola. Ninguém desconectou a tomada do cão – pensando friamente, teria sido menos cruel se fosse feito. A inocência dos animais definitivamente nos comove. Eu vi o vídeo de um homem que, para mostrar virilidade, sem qualquer outro motivo, deu um tiro de espingarda, "à queima roupa", na testa de uma égua – ele falou algumas palavras idiotas antes. Eu vi quando o equino caiu morto. Eu vi um homem morrer asfixiado dentro do porta-malas de um carro, por causa da fumaça de uma bomba de gás lacrimogênio lançada por policiais. Vi pessoas se jogando pelas janelas de prédios em chamas – também ouvi o barulho do impacto no solo. Vi homens degolando outros homens à base do facão. Eu vi imagens de corpos sem vida e mutilados nas ruas de países em guerra. Também vi questões "menores", como desrespeito a pais, avós e professores, impaciência com filhos e crianças, intolerância entre familiares, crimes entre irmãos, disputas por dinheiro e tantas outras desavenças no âmbito familiar, todas praticadas por pessoas que defendem um mundo melhor, desde que, sem perceber, seja um mundo longe delas – aquela antiga história dos revolucionários que querem salvar os povos, mas não querem arrumar a cama. Enfim... Não estou dizendo que sei que essas coisas acontecem, mas estou dizendo que eu vi tudo isso e muito mais e, como diz o ditado, "com estes olhos que a terra um dia há de comer".

Ah, eu vi um homem que viu tudo isso e não fez nada, ou pior, que até fez algumas dessas coisas.

No conto "História Interrompida", de Clarice Lispector, a personagem principal disse, em certo momento: "Peguei numa folha de papel e enchi-a de alto a baixo: 'Eternidade, Vida. Mundo. Deus. Eternidade. Vida. Mundo. Deus. Eternidade...' Essas palavras matavam o sentido de muitos de meus sentimentos e deixavam-me fria por umas semanas, tão minúscula eu me descobria."

Seguindo essa "sugestão", eu tentei fazer o mesmo, pensar em coisas grandiosas que tornariam minhas visões insignificantes. Já falei aqui, por exemplo, que colocar todo o tempo da existência do Universo dentro da escala de um ano, faz os últimos cinco milênios da humanidade caberem nos 15 segundos finais do ano. Outro fato interessante é que a nossa galáxia, a Via Láctea, possui 100 mil anos-luz de diâmetro. Isso significa dizer que, se nós pudéssemos viajar à velocidade da luz – 300 mil quilômetros por segundo – levaríamos 100 mil anos para percorrer a galáxia de uma extremidade à outra. A próxima curiosidade está relacionada à orbita de Plutão, pois ele leva 248 anos para completar uma volta no sol. Portanto, considerando o ano de 2022, na última vez que Plutão esteve no ponto onde ele está agora, o rei Luís XV da França estava sendo sepultado – em 1774. Como se não bastasse, também podemos dizer que existem mais estrelas no Universo do que grãos de areia na Terra. A nossa galáxia possui uma média de 300 bilhões de estrelas, e ela é somente uma em 140 bilhões de galáxias no Universo. Poderíamos citar ainda o Supervazio encontrado no espaço, uma região com baixíssima densidade de galáxias, "sugadora" de luz e com diâmetro em torno de 1,8 bilhão de anos-luz – e já sabemos qual a grandeza de um único ano-luz. Por fim, gostaria de mostrar a imagem abaixo, uma foto do planeta Terra, registrada em 1990 pela sonda Voyager 1, quando ela alcançava os limites do nosso sistema solar – ínfimos 6 bilhões de quilômetros de distância. Isso, nosso planeta é aquele pálido pontinho azul, quase imperceptível, coincidentemente riscado por um raio de luz refletido pelas lentes da sonda. Aliás, recomendo este poema de Carl Sagan, com o mesmo título, "Pálido Ponto Azul".

Sim, eu tentei, mas novamente fui estimulado pelas ideias de Clarice Lispector, desta vez, escritas no conto "Gertrudes Pede Um Conselho": "Cada pessoa é um mundo, cada pessoa tem sua própria chave e a dos outros nada resolve; só se olha para o mundo alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que sobrenada e que não é o vital; o 'mal de muitos' é consolo, mas não é solução." Assim, é este tipo de ideia que explica minha incapacidade de transformar a grandiosidade do espaço sideral em solução para as minhas visões. A nossa imponente realidade consegue ser um consolo, mas não o remédio.

Não sou capaz de imaginar nenhum bem nesta Terra que, subtraído do mal, possa resultar em zero. Quantas crianças sorrindo seriam necessárias para assumir que o choro de apenas uma não tem importância? Quantas crianças alimentadas nos autorizaria negar comida a somente uma faminta? Uma única criança sofrendo é mais relevante que o deleite de todas as crianças que já existiram e existirão juntas. Quero dizer, não conheço nenhum bem que faz o mal ser como se não fosse, ou não tivesse sido. Algo que diga, "ah sim, agora o mal está explicado, ou está autorizado acontecer". E não estou falando somente de crianças, tampouco somente sobre choro e fome, como bem mostraram minhas visões.

Desviando: Curioso, lembrei-me de um aforismo de Jesus: "Haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam arrepender-se." Parece que encontro apoio na sensação explicada pelo seguinte ditado, "basta uma fruta podre para estragar toda a caixa".

Voltando: Para fechar aquela equação, é necessário algo além de nosso Universo, algo inimaginavelmente impensado, inexplicavelmente inconcebível, sobrenaturalmente além do mundo natural. Não há bem suficiente na nossa realidade para extirpar o mal futuro e dar cabo de qualquer sombra do mal passado, como se nunca tivesse sido. Antes é necessário algo que ainda não exista do lado de cá do véu. Logo, é imperativo que as profecias estejam certas, ainda que hoje elas sejam somente um arquétipo surrealista de um absoluto incompreensível.

Quero dizer... O Céu existe? Não sei, tampouco saberia dizer o que esperar dele. Se ele existir, um dia saberemos. Entretanto, hoje, eu acredito em sua existência, por pura necessidade, para não enlouquecer, no "menos pior" dos finais possíveis.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

O Quarto Poder

"Em tempo de revolução, cuidado com a primeira cabeça que rola. Ela abre o apetite ao povo." 

Victor Hugo

O futebol foi criado na Inglaterra por volta de 1863. Desde então, ocorreram algumas mudanças, principalmente com as regras – mas que não descaracterizaram o esporte como concebido. Atualmente, o regulamento é composto de apenas dezessete diretrizes. Entre elas, a diretiva de que uma partida deve ser conduzida por um árbitro (regra número 5). Um fato curioso é que, até 1868, os dois times acertavam as faltas entre acordos de cavalheiros, pois não havia árbitros. Mesmo após a introdução da figura do juiz de futebol, tudo continuou sendo decidido entre os capitães das duas equipes, por algum tempo. O árbitro foi munido de autoridade somente a partir de 1894.

Outra curiosidade sobre o futebol está relacionada aos cartões amarelo e vermelho. Em 1966, num jogo conturbado entre Argentina e Inglaterra, problemas de comunicação, entre o árbitro alemão e os atletas, dificultaram a expulsão de um jogador sul-americano e a punição de dois jogadores britânicos. O líder da arbitragem daquela ocasião, Ken Aston, viu a necessidade de tornar a comunicação independente do idioma e dos gestos. A inspiração veio dos semáforos de trânsito. Entretanto, somente na Copa do Mundo de 1970, os cartões seriam utilizados pela primeira vez, quando foram incorporados à diretriz número 12 das regras do futebol.

É extremamente complexo submeter decisões a dois lados que se opõem, pois: há conflito de interesses; há vozes simultâneas; não se garante a idoneidade entre todos os agentes; pode haver subjetividade de interpretação; talvez haja ignorância quanto às regras; corre-se o risco de haver manipulação por causa de ganhos (extracampo, no caso do futebol); pode envolver emoção; pode haver erros, enganos e equívocos; entre outros.

Considerando a dificuldade de desenvolver um jogo de futebol mesmo com um árbitro e todas as suas regras, tentei imaginar qual deveria ser a complexidade quando os próprios atletas tomavam as decisões. E fui além, cogitei, por um momento, o que ocorreria se as torcidas tomassem as decisões de uma "simples" partida? Foi isso que me fez lembrar de um comportamento social recorrente.

Há alguns poucos meses, um apresentador de podcast brasileiro e um deputado federal sofreram um "cancelamento" virtual de significativas proporções. Ambos defenderam a ideia de que o Nazismo não deveria ser criminalizado e que, inclusive, um partido deveria ser autorizado. Entre os motivos, encontra-se a "preocupação" de que os ideais extremistas se desenvolvam nas "sombras". A lógica do raciocínio deles consiste em considerar que é "melhor" ter um inimigo à mostra do que um escondido. Ainda assim, eles disseram acreditar que grupos inclinados ao extremismo, uma vez expostos, seriam – e deveriam ser – combatidos diretamente pela sociedade.

De minha parte, o Nazismo deve, precisa e tem que ser criminalizado, mas não vou expor os porquês, pois já foram todos exaustivamente esgotados nos meios de comunicação ao longo de semanas. Basta fazer uma pesquisa rápida na internet. A discussão que quero promover é outra...

O que gostaria de colocar em pauta é a confiança dos dois "cancelados" no absolutismo do povo. Eu considero os poderes Legislativo, Judiciário e Executivo como extensões da sociedade. Então, uma vez que esses poderes decretam que o Nazismo é crime, passam a sentenciar de acordo com essa diretriz e dão cabo da condenação, isso é o mesmo que dizer que a sociedade encontrou seu modo de repudiar e combater aquelas atrocidades, ainda que "indiretamente".

Aliás, já paramos para ponderar o motivo pelo qual os Três Poderes foram criados? Que necessidade, ou deficiência, eles vieram suprir? Portanto, a minha dúvida é, por que "precisamos" tanto de uma intervenção direta do povo? É mesmo o povo quem tem interferido? Enfim, fiquemos com as perguntas, pois não tenho as respostas. Entretanto, suspeito que poderíamos encontrar algo na história, um certo "fetiche", de alguns grupos, por revoluções.

Desviando: Reitero, eu tenho dificuldade em compreender a ideia que separa o povo do governo, pelo menos em países ocidentais democráticos. Mas sim, entendo que o governo não atende à todas as demandas sociais como deveria, por diversos motivos. Seria leviano, ingênuo e negligente de minha parte esperar que ele me representasse cabalmente. Por isso, sob certos aspectos, o povo deveria "assumir as rédeas" de algumas "melhorias" diretamente. Por exemplo, suponhamos que nossos representantes vetem a distribuição gratuita de absorventes a quem necessita, seja por interesses partidários, seja por sinceridade no controle dos gastos públicos. Porém, o que me impediria de comprar mensalmente alguns itens e entrega-los gratuitamente a quem precise deles, caso eu considere isso uma pauta válida e necessária? A não ser que a sugestão por essa benfeitoria possa ser também apenas uma manobra político-partidária (como saber?). Essa é outra dúvida, até que ponto eu acho mesmo pertinente uma pauta que anuncio aos quatro ventos (facebook, instagram, youtube e twiter) ser válida e necessária? Certa vez alguém disse: "Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma."

Voltando: O mais irônico, no caso do "cancelamento" do apresentador e do deputado, é que os dois foram submetidos àquilo que disseram apoiar, um repúdio direto da "sociedade" aos potenciais ideais nazistas. Aconteceu exatamente o que eles sugeriram. A "sociedade" fez o primeiro deles perder a participação no programa de entrevistas e ser bloqueado nas mídias sociais de maior relevância – perdendo o direito, inclusive, à monetização de seus conteúdos. O outro foi submetido a uma investigação da Procuradoria Geral da República – aliás, ambos foram, mas não pesquisei qual foi o desfecho disso.

Isto posto, o apresentador e o deputado entenderam o que aconteceu com eles? Perceberam que foram submetidos àquilo que sugeriram? Foi isso mesmo que idealizaram? Uma vez à mercê da materialização de suas idealizações, eles continuam defendendo a "nova" organização da sociedade (intervenções diretas) em detrimento da "tradicional" (intervenção das partes competentes)? Ou essa é só mais uma daquelas "brilhantes" ideias que deveriam servir apenas para os outros?

Supondo que todo o caso anterior tenha sido, de fato, guiado pelo povo, converge-se, inevitavelmente, à outra dúvida, qual deveria ser a voz da sociedade? Aquela que sai diretamente de suas bocas e de seus cliques? Ou aquela manifestada pelos Três Poderes? Não, não foi bem colocado. Pode parecer que meu posicionamento seja contrário à voz do povo. A pergunta correta é, que parte da sociedade deveria criar as regras, julgar e executá-las? O "juiz de futebol" ou a "torcida"? E quanto a todos aqueles problemas que ocorriam quando não havia árbitro em uma partida de futebol? Como lidar com eles? Isso é um avanço ou um retrocesso?

Enfim, como acredito que não haverá retorno, talvez precisemos de uma reestruturação. Alguém poderia dizer que a "sociedade" agiu desproporcionalmente contra os dois "cancelados". Porém, esse é o meu ponto, quem faz a regulação do Quarto Poder, a voz do "povo"? Pois, os Três Poderes há muito estabelecidos regulam-se entre si – aliás, o objetivo da divisão de poderes é justamente esse, definir os limites.

Outro exemplo de desproporcionalidade: você deve se lembrar do caso do cachorro Manchinha, morto por um segurança no estacionamento do Carrefour, mas talvez não se lembre do jovem morto em um supermercado no Rio de Janeiro. Veja, eu nem sei o nome do supermercado do segundo caso, quanto mais o nome do rapaz. Além disso, o homem que matou o cachorro foi sentenciado e condenado pelo "povo", e está pagando a pena até hoje. No caso dos assassinos do jovem, ainda nada.

Lembro de outro caso icônico, em 1994, quando uma emissora de televisão tradicional e outros veículos de reportagem divulgaram o caso da Escola Base, no qual o senhor e a senhora Shimada – e mais seis pessoas ligadas à escola – foram acusados de molestar e praticar orgias com crianças no horário escolar. Indignado, o "povo" imediatamente assumiu às "rédeas" da situação. Os envolvidos, por pouco, não foram linchados. A escola foi depredada e fechada e o casal Shimada foi à falência, com dificuldades financeiras pelo resto de suas vidas. Entretanto, tudo não passou de "fake news", sem que ninguém (no caso, o "povo") fosse responsabilizado pelos danos causados às verdadeiras vítimas, a família Shimada e seus funcionários. Sugiro esse link para conferir a história na íntegra.

Desviando: "Você deixou seus pés correrem livremente

O tempo passou enquanto caíamos

(...)

Você teria coragem de olhá-los bem nos olhos?

Porque eles vão te perseguir

Até a escuridão

Sim e eles vão perseguir você

Até você cair

E eles vão te perseguir

Até o seu interior

Até que você não possa mais rastejar

E ladeira abaixo nós vamos"

Way Down We Go - Kaleo

Voltando: A história mostra que o "povo" já julgou, sentenciou e executou muitas pessoas (até o próprio Deus), mas foge ao meu conhecimento quantas vezes ele realmente esteve certo, neutro, idôneo e, principalmente, autônomo. E, infelizmente, não consigo imaginar formas de garantir isso. Como citei, não confio tanto assim em um "povo" absolutista.