domingo, 28 de agosto de 2016

Quebrando Um Paradigma

"Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas."
Luis Fernando Veríssimo


A causalidade é uma relação de causa e efeito entre dois eventos. É tentador imaginarmos que a lógica deste princípio seja "se ocorre o evento 'A', então acontece o evento 'B'". Porém, esse raciocínio está incompleto. O sentido correto é "se não 'A', então não 'B'". Vamos pensar em um exemplo. Imagine um acidente de carro. O motorista acessou uma curva em alta velocidade e, com medo de perder o controle, acabou saindo da pista ao pisar no freio. Considere, o motorista saiu da pista porque travou as rodas. Ele esqueceu-se da recomendação de que durante curvas não se freia. Entretanto, não seria necessário acionar o freio, tampouco importaria lembrar-se da recomendação, caso ele não tivesse entrado na curva acima da velocidade. Então, para o efeito "B" igual a "acidente", a causa "A" é "velocidade acima do limite", mas não "o pisar no freio" ou o "esquecer-se da recomendação".

Um raciocínio decorrente do princípio da causalidade é o Argumento Cosmológico, cujos primeiros registros remetem a Grécia Antiga, com Aristóteles e Platão. Esse argumento diz o seguinte, "tudo que começa a existir tem uma causa; o Universo começou a existir; portanto, o Universo teve uma causa".

Contudo, vamos desprezar a causa primeira do Big-Bang, evidentemente, porque não a conhecemos. Nesta condição, se estabelecermos que o "nosso" Universo está alicerçado sobre o princípio de causalidade, nós inevitavelmente inserimos o componente probabilidade em tudo o que existe e tudo o que acontece. Em outras palavras, tudo não passaria da materialização de uma chance, uma vez que existiriam inúmeras opções e tempo suficiente para que a maioria delas, ou todas, ocorressem.

Desviando: Ao lançar um dado, a probabilidade de qualquer número ser sorteado é de 1/6. E se o dado fosse arremessado infinitas vezes, as seis faces seriam sorteadas o mesmo número de vezes cada uma. Desse jeito:


Já na Natureza, a aleatoriedade comporta-se de uma maneira diferente. Ela respeita a chamada distribuição Normal, ou Gaussiana. Pensemos, por exemplo, na distribuição de altura dos seres humanos. Os tamanhos são aleatórios, mas tendem a uma média. Digamos que a faixa de altura de um grupo de mil pessoas seja entre 1,60 e 2,00 metros. Neste caso, os valores devem variar, aleatoriamente, segundo a distribuição apresentada no quadro abaixo. Verifique que a chance da altura de uma pessoa estar 1,76 e 1,80 metros é de pelo menos 25%.


Por outro lado, se uma consciência interferir nos eventos, o gráfico não se comportará como o sorteio realizado com um dado, ou sequer como o perfil de altura de um grupo de pessoas. Considere, por exemplo, a distribuição dos tipos de filmes que eu vi na TV no último ano. No gráfico abaixo, é possível perceber que prefiro os filmes de ficção e ação. É uma questão de opção e não de probabilidade.


Voltando: Seríamos simples obra do acaso? Poderia tudo se resumir a uma infindável cadeia de causa e efeito, culminando comigo aqui, escrevendo esse texto? E com você aí, o lendo? Penso que mais do que possível, é muito plausível. Mas, como diria John Constantine, sempre há um porém. Se essa suposição for verdadeira, obrigatoriamente terei que contestar minha competência, minhas conquistas e meus méritos, inclusive a minha consciência e minha racionalidade. Não seria coerente, por exemplo, acreditar que o Universo é  exclusivamente probabilidade e ao mesmo tempo gabar-me de ter sido aprovado no vestibular porque esforcei-me nos estudos. Racional seria acreditar que, em um Universo com infinitas possibilidades e com tempo suficiente para que muitas delas ocorram, eu fui apenas o sorteado em ser aquele que se esforçaria e, consequentemente, passaria na prova. Ou seja, inevitavelmente, tudo o que aconteceu com qualquer pessoa do planeta, em qualquer época, iria acontecer, mas com quem não tem a menor importância. Nós estaríamos vivendo no Universo das possibilidades concretizadas, nada além disso.

Sabe por que esse conflito entre mérito pessoal e um Universo causal ocorre? Porque eu acredito que eu sou alguém. Para que essa incompatibilidade fosse resolvida, eu deveria considerar que sou apenas um grão de poeira estelar "pensando" que existe. No entanto, tenho que confessar, é bem difícil aceitar que eu não existo, principalmente quando acerto o pé na quina da parede. Afe... dói.

Então, como eu resolvo esse conflito na minha mente? Eu volto lá na nossa consideração inicial, quando desprezamos o Argumento Cosmológico (sugiro também a leitura do terceiro texto publicado neste blog). Para mim, um forno, uma forma e os ingredientes não são suficientes para fazer um bolo, mas são sim necessários. Eu acredito que sem a vovó, o bolo não sai. Se não surgimos por acaso, mas fomos pretendidos, o conflito é resolvido na minha cabeça. Em outras palavras, eu acredito que o gráfico da minha existência não segue o perfil do lançamento de dados e muito menos da distribuição de altura em seres humanos, mas sim o perfil da lista de filmes que eu vi neste ano. Só não me pergunte qual seria o gênero da película.

Enfim, a primeira vez que ouvi alguém dizer que não acreditava em Deus, eu fiquei razoavelmente abalado, por dois motivos. Primeiro, foi seguido de um sonoro "isso é coisa para quem tem preguiça mental". Segundo, porque estava dizendo, indiretamente, que eu não tive mérito em minhas conquistas, que eu não passava de um grão de poeira cósmica de muita sorte. Entretanto, com o passar do tempo, eu reconsiderei a afirmação e deixei de sentir-me impactado por ela, também por dois motivos. Primeiro, porque eu levei duas semanas para terminar de escrever esse texto, por exemplo, então posso até ser devagar com o raciocínio, mas preguiça mental eu não tenho, acho. Segundo, porque aprendi com aquela pessoa que nós nem ao menos sabemos quão profundas são as ideologias que dizemos ter. Nós ficamos apenas repetindo frases de efeito. Relativizamos tudo até o limite de nossos interesses, com o único objetivo de validar o que escolhemos acreditar.

Percebeu? Nada de verdade, nada de lógica, mas sempre uma escolha. Nós não acreditamos tão sinceramente assim no que dizemos que acreditamos, mas dizemos que cremos porque temos um interesse nisso, mesmo que estejamos sendo sinceros (na verdade, ingênuos). O ponto é descobrir qual é o interesse, para podermos nos libertar e então passarmos a acreditar em coisas novas. Quando eu consigo fazer isso, costumo dizer que meus "neurônios fritam". Os psicólogos afirmam que isso é um processo de desconstrução para criação de um novo sentido. Porém, podemos ser simples e usar uma expressão mais comum, a quebra de um paradigma.

Desvio sem volta: Se um dia você ouvir alguém dizer que acredita em Deus, sinta-se lisonjeado, pois esse alguém também estará dizendo que acredita em você.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Não Sei se Tomo um Remédio para Dormir ou se Compro um Despertador

"Quando se tem insônia você nunca dorme de verdade e você nunca acorda de verdade."


Dias atrás, eu tive um daqueles sonhos cheios de carga emocional. Um daqueles dos quais acordamos afoitos, desorientados, agradecidos, ou desolados, por ter sido apenas um sonho. Foi uma tristeza muito forte, comparada a perda de um ente querido. Porém, a situação sonhada era ridícula. Eu sentia uma forte compaixão, de chorar, por um cachorro a quem dava um doce.

Após acordar, fiquei tentando entender porque tinha sonhado aquilo e sentido tamanha emoção por uma situação tão insignificante. Foi então que lembrei-me de Freud, da teoria de que nossos sonhos são ferramentas para nos ajudar a elaborar o que não conseguimos enquanto estamos acordados. Pois, eu tinha visto no dia anterior uma reportagem sobre maus tratos contra animais. Bingo! Essa foi fácil.

Então, não foi o sonho que gerou a emoção, mas o sentimento já existia e, para tentar compreendê-lo, uma história foi criada por minha mente. O meu inconsciente criou um significado que eu pudesse aceitar, já que conscientemente é difícil de "engolir" maus tratos, mesmo contra animais.

Desviando: Eu não entendo porque não paro nas respostas que encontro. Por que eu continuo ligando os pontos, sempre lembrando de uma coisa, que puxa outra, que remete a outra etc? Se bem que, pensando agora, talvez eu saiba o motivo, mas vou deixar para outro dia essa reflexão. Não vou "gastar todas as balas" de uma única vez. Sem falar que, novamente, um assunto puxaria outro, que remeteria a outro etc, e a abstração de hoje não terminaria nunca. Aliás, em todos os posts, eu fico com a sensação de que não terminei o texto, como se esperasse por uma última publicação que esclareça tudo.

Voltando: Depois daquele sonho, eu fiquei pensando na "vida real", quando estamos acordados. As emoções seriam mesmo resultado da interpretação de um acontecimento no mundo real? Ou a interpretação do fato seria influenciada pelos sentimentos que carregamos naquele momento?

Desta vez, lembrei-me do livro "Subliminar", de Leonard Mlodinow. Ele diz que, segundo a Teoria da Emoção de William James, os sentimentos e as manifestações físicas delas em nosso corpo estão sendo interpretadas invertidas. Nas próprias palavras de Leonard, sobre a teoria de James, "não trememos porque estamos zangados e nem choramos porque estamos tristes, mas nós tomamos ciência de que estamos zangados porque trememos e nos sentimos tristes porque choramos".

Já ouviu falar do teste da teoria de Schachter-Singer? Dois grupos de pessoas foram informados que receberiam uma injeção de uma vitamina para estimular a acuidade visual. Porém, sem saber, elas receberam uma simples dose de adrenalina e não de vitamina. O primeiro grupo foi alertado sobre possíveis efeitos colaterais, como aumento da frequência do batimento cardíaco e excitação, ou seja, todas as consequências fisiológicas esperadas para quem está "cheio" de adrenalina no sangue. O segundo grupo não foi alertado sobre nada. E ainda um terceiro grupo recebeu a injeção de uma solução salina sem ter sido avisado disso, ou seja, as pessoas deste grupo pensaram ter recebido a mesma vitamina que as pessoas dos outros dois grupos. Então veio o teste, duas situações diferentes, uma para estimular a raiva e outra a felicidade. Na primeira situação, um cúmplice dos pesquisadores foi inserido na sala e demonstrou raiva por ter sido deixado tanto tempo na sala. Na segunda vez, o mesmo cúmplice demonstrou alegria por ter sido confiado ao experimento.

Quais foram os resultados? As pessoas do primeiro grupo sofreram os efeitos da adrenalina, porém já tinham uma resposta convincente para o que sentiam, apenas efeitos colaterais do teste. Assim, esse grupo não relatou e nem transpareceu raiva ou felicidade. O terceiro grupo, aquele da injeção de solução salina, não sentiu efeito colateral nenhum, portanto também não associou nenhuma emoção de raiva ou felicidade ao experimento. Porém, as pessoas do segundo grupo, que não haviam sido informadas dos efeitos colaterais, relataram e transpareceram as mesmas emoções simuladas pelo cúmplice, incluindo os motivos. Todos foram iludidos, acreditaram que as causas de suas alterações fisiológicas, mesmo sem tê-las percebido, foram motivadas por emoções.

Citando Leonard Mlodinow mais uma vez: "Devemos tomar cuidado com a interpretação que daremos a uma entrevista de emprego caso o acesso a sala do entrevistador seja feito através de um razoável lance de escadas. Podemos interpretar a proposta de emprego como um 'Uau', quando na verdade não passaria de um 'Hum'".

Depois desta teoria de Schachter-Singer, inúmeros testes continuaram sendo realizados nesse sentido. Um deles consistiu em testar pessoas que possuíam falhas de comunicação entre os dois hemisférios cerebrais. Após dar uma ordem a um dos hemisférios de uma pessoa com esse tipo de deficiência, para que ela sorrisse, os pesquisadores questionaram o outro hemisfério o motivo do sorriso. Uma das resposta foi, "porque vocês são engraçados".

Quando não conhecemos as reais motivações de uma emoção, nós criamos uma história que a explique convincentemente. De fato, não é que inventamos, mas buscamos em nossa "base de dados" a causa mais plausível, mesmo que não seja a verdade.

Ainda no livro "Subliminar", há o seguinte trecho que condensa bem a mensagem: "Eu penso sobre meus sentimentos, minhas motivações. Falo com meu terapeuta sobre eles, e finalmente saio com uma história que parece fazer sentido, que me satisfaz. Eu preciso de uma história para acreditar. Mas será verdade? Provavelmente não. A verdade real está em estruturas como meu tálamo, hipotálamo e amígdala, e a isso eu não tenho acesso consciente, não importa o quanto eu sonde o meu interior."

Desviando: Certa vez, acordei de madrugada no escuro. Eu estava deitado em minha cama. Um fio de luz entrava por uma fresta na janela, provavelmente a luz da Lua. Tudo estava em silêncio. Tentei levantar para pegar um copo d’água, mas não consegui me mexer. Sentia como se a coberta pesasse uma tonelada sobre mim. Minha esposa estava comigo, dormia virada para o outro lado. Tentei chamá-la, mas a voz não saiu. No começo só achei estranho, mas logo comecei a ficar desesperado. Passei a tentar gritar cada vez mais forte. De repente, tomei um grande susto. Tudo continuava como eu havia visto e sentido. Eu estava ali na mesma posição. O fio de luz estava ali, entrando pela janela. A mesma coberta estava ali, sobre mim. Porém, de repente, a minha esposa já não estava deitada na cama virada para o outro lado, mas estava virada para mim, tentando me acordar, dizendo que provavelmente eu estava tendo um pesadelo. Percebi que eu estava sonhando com a realidade e foi só naquele momento, em que ela me tocou, que eu acordei de verdade. As vezes, aquela mesma sensação ocorre novamente, mas agora enquanto estou acordado. Sinto como se estivesse prestes a ser acordado a qualquer momento.

Voltando: Qual é a verdade independente do meu eu? O que é a realidade? Até que mundo ou universo ela se estende? Um dia a minha vez irá passar e darei lugar a outros sonhadores. O momento será deles e não mais meu. Fico tentando imaginar qual será a sensação ao "acordar" do lado de lá e qual explicação darei sobre o lado de cá. Tudo parecerá ter sido mesmo um sonho aqui, ou pensarei estar sonhando lá?

Acho que vou procurar um especialista, sabe-se lá do que, para que ele me diga o que eu preciso ouvir, para que dê a explicação que eu vou acreditar e que vai satisfazer minha consciência, mesmo que não seja a verdade. Que baita "sinuca de bico". Escolho permanecer alienado, mas em paz? Ou cheio de dúvidas, mas com a chance, mesmo que remota, de não estar sendo iludido?

"Sabe, sei que este bife não existe. Sei que, quando eu  o coloco na boca a Matrix diz ao meu cérebro que ele é suculento e delicioso.
Após nove anos, sabe o que percebi? A ignorância é maravilhosa.
Não quero me lembrar de nada. Nada. Entendeu? E eu quero ser rico. Você sabe, alguém importante. Tipo um ator.
Leve o meu corpo de volta à usina e me coloque de novo na Matrix."

Cypher - The Matrix (1999)

domingo, 17 de julho de 2016

Os Artistas Passam, o Espetáculo Continua

"O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou."

Bobos da corte eram funcionários encarregados de fazerem reis e rainhas rirem, isso lá pelas tantas dos séculos XIV a XVI. Justamente por causa dessa incumbência, eles eram as únicas pessoas autorizadas a criticarem os monarcas sem que corressem risco de vida. Entre suas peripécias, muitas vezes apontavam os vícios e as ignorâncias da sociedade de forma bem grotesca. Por isso, com exceção do casal real, as pessoas sempre consideravam os bobos bem desagradáveis.

Não devemos confundir bobo da corte com palhaço. A principal diferença é que este último tem como base a ingenuidade e a inocência, expondo a si mesmo ao escárnio, enquanto o bobo da corte desnudava o ridículo e as incoerências das autoridades e da sociedade. Pensando na etimologia da palavra, pelo menos para o Português, palhaço vem do italiano paglia, que quer dizer palha. Por volta do século XVI esse material era muito utilizado para preencher colchões de dormir. Os precursores das palhaçadas vestiam-se do mesmo tipo de pano usado nos colchões, preenchendo as partes mais salientes do corpo também com palha, para poderem dar suas cambalhotas sem se machucarem.

Eu nunca tive a chance de conhecer um bobo da corte, em função do século que eu nasci, claro. Porém já vi bastantes palhaços. Muitas crianças tem medo deles. Eu não lembro-me de temê-los, mas de fato, não eram seres sobre os braços de quem eu me atirava. Eu gostava de manter certa distância e confesso que ainda hoje prefiro rir de longe.

Enquanto lembrava de palhaços e da minha infância, eu me dei conta de algo "inédito". Até por volta dos meus vinte e cinco anos de idade, eu, inconscientemente, mantive-me separado do conceito de adulto. Como assim? Durante a maior parte a minha vida, os meus pais foram adultos e eu fui criança, adolescente, ou  jovem. Dias atrás, percebi que aos vinte cinco anos eu entrei em uma faixa de idade que, enquanto criança, eu vi os meus pais terem. Isso mudou drasticamente a forma de olhar para mim mesmo, foi quando eu "percebi" que eu sou adulto. Não que eu não soubesse disso a mais tempo, mas é diferente quando você realmente toma consciência disso e deixa de ser apenas uma ponderação. Parece que quando esse tipo de percepção acontece os fatos tem mais peso. Já falei aqui, por exemplo, que faz muito tempo que eu sei que a morte existe, mas apenas poucos anos atrás eu ponderei de fato que ela está a um suspiro de distância de cada um de nós.

Desviando: Mario Sergio Cortella disse nesse vídeo que o primeiro ato de uma pessoa após o nascimento é inspirar o ar. O último ato, imediatamente antes da morte, é expirá-lo. E que entre esses dois momentos existe vida.

Voltando: Já que tocamos no assunto morrer, lembrei-me de outra abstração (é intrigante como um tema puxa outro e tudo parece se conectar – espero que se conecte). A morte é algo que está ao nosso redor, sempre presente, e todos sabemos que o nosso dia chegará. Ela é tão natural quanto o nascimento. Porém, tratamos o fim bem diferente do começo. A morte nos espanta mais do que o nascimento nos arrebata. É estranho como, apesar de tão presente e trivial durante toda a nossa existência, nós não nos adaptamos a ela. Acho que isso acontece porque é uma experiência individual e consciente. Quando uma criança nasce, a casa se enche e a mente do bebe é como um computador vazio que ainda precisa ter os softwares instalados (como diria um amigo meu). A criança não faz ideia do que está acontecendo, por isso o nascimento é muito mais uma experiência de quem já está aqui do que de quem está chegando, pelo menos de forma lúcida. No dia do nosso fim, a viagem será uma experiência mais de quem está partindo, solitária, deixando para trás todos os que ficam e consciente do que se passa (salvo algumas exceções). Aliás, fico curioso ao tentar imaginar quais seriam nossas ansiedades se existisse uma fila para nascer.

Até certo ponto, nós podemos considerar que a vida nos generaliza, mas a morte nos individualiza. Quando nascemos, entramos para o grupo. Quando morremos, deixamos o grupo e vamos sozinhos. Acredito que, naquele momento final, devemos ter a sensação de que o tempo passou mesmo, de que não era apenas uma história para crianças, como aquelas que contamos para que se mantenham afastadas do perigo. Acredito que, naquele instante, nós devemos sentir um grande peso por termos evitado pensar no assunto, da mesma forma como eu prefiro manter os palhaços a certa distância, pois do contrário teríamos tido coragem, ou motivação suficiente para fazer escolhas diferentes.

Desviando: Depois que a vela é acesa, não precisamos fazer mais nada até que ela se consuma até o final. A diferença entre nós e uma vela? Ela não sabe que está acesa. Ou isso seria uma semelhança?

Voltando: Para mim, elucubrar sobre tudo isso é bom e ruim. É bom pois permite reduzir um pouco o peso lá no final, ao guiar-me por alguns lampejos de escolhas que realmente importam. É ruim, pois sinto-me como um doente terminal, que sabe do valor de fazer só o que realmente importa, mas sem a doença propriamente dita, sobre a qual eu poderia apoiar-me para que a sociedade não me considerasse um lunático, já que me falta a coragem. Enfim, eu estou vivendo esta fase, de trabalhar a ousadia na tentativa de aproveitar melhor o tempo sem ser considerado um desequilibrado (já falei disso aqui). Tenho que dar um jeito de ser considerado no máximo um excêntrico, pois está mais na moda e a sociedade considera a moda o máximo.

"Tempo, fique parado
Eu não estou olhando para trás
Mas quero olhar ao meu redor, agora
Tempo, fique parado
Ver mais das pessoas
E dos lugares que me rodeiam, agora.
(...)
O verão está passando rápido
As noites ficando mais frias
Crianças crescendo
Velhos amigos ficando mais velhos"

Eu não disse que tudo tinha que se conectar de alguma maneira? Pois então, o tempo é um grande bobo da corte de pseudo reis sentados em seus pseudo tronos, que estão sendo ridicularizados por fazerem bobagens para parecerem sérios. Porém, existem alguns palhaços que, percebendo suas ingenuidades, passaram a rir ou a chorar de si mesmos. Eu estou tentando migrar para o grupo dos palhaços, que fazem bobagem para parecerem bobos.


Agradecimentos: A PB, de quem tirei a ideia de que um bebê é como um computador vazio e a SR que sugeriu o tema sobre o tempo que passa.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Há Coisas Que Ganhamos Mesmo sem Acreditar Nelas

"Mesmo as pessoas que dizem que tudo está predeterminado e que não podemos fazer nada para mudá-lo, olham para os dois lados antes de atravessar a rua."
Stephen Hawking

Foi Gregor Mendel quem, em 1866, estabeleceu pela primeira vez, através de estatística, padrões de hereditariedade em algumas espécies de ervilhas. Hoje, já sabemos que a genética é o que nos determina biologicamente, geração após geração. Em síntese, um conjunto de características herdadas de nossos antepassados, todas codificadas em cadeias moleculares e armazenadas em cada uma de nossas células. Nosso código genético possui todas as informações necessárias para "montar" cada estrutura de nosso corpo, desde um fio de cabelo até um órgão extremamente complexo, como o nosso cérebro. Porém, e os nossos comportamentos? Eles estariam também registrados nesses códigos? Se sim, nossas formas de agir, pensar e reagir poderiam ser pré-definidas? Nossa personalidade vem "pronta de fábrica", ou é construída ao longo de nossa vida?

É muito interessante ver um pássaro chocando um ovo, ou uma criança com minutos de vida sugando o peito da mãe pela primeira vez, ou ainda um bezerro tentando levantar-se segundos após ter nascido. De onde vieram estes comportamentos, uma vez que não são conscientes? Estariam registrados nos códigos genéticos?

Desviando: É prudente tomar muito cuidado ao dizer que comportamentos podem ser definidos geneticamente, o que chamamos de determinismo genético. Esse raciocínio pode levar a perguntas como, quanto uma pessoa é culpada de um crime de fato e quanto ela não teve opção e foi programada a tais tendências? Também surgiram na História pessoas que tentaram eliminar alguns grupos étnicos baseando-se na ideia de perfeição genética. Tudo bem, naquele caso as motivações foram outras e o DNA teria sido usado apenas como subterfúgio. Mas já parou para pensar na lenda do Tarzan? Homem branco, olhos claros, filho de aristocratas, criado por gorilas, que conseguiu se desenvolver sozinho mesmo perdido em uma floresta, que virou líder dos símios e que, de volta ao mundo civilizado, também apresentou habilidades físicas superiores aos demais seres humanos. Pois então, essa lenda foi criada em 1914.

Voltando: Existem sim tendências de comportamentos armazenados em nossos genes, mas é importante lembrar que a classificação do que é bom contra o que é ruim somos nós que fazemos e não a Natureza. Aliás, justamente por não lembrarmos disso, nós temos dificuldade em aceitar que alguns comportamentos sejam tendências genéticas. Eu já falei aqui, por exemplo, que não temos dificuldade nenhuma em associar diferentes comportamentos entre diferentes raças de cachorro, mas que quando olhamos para nós, tendemos a desconsiderar a possibilidade de que ansiedade, passividade, impulsividade, entre outros, possam "estar no nosso sangue". Até levantei a pergunta, nos medicamos para voltar a ser, ou para deixar de ser?

Vamos pensar em uma máquina, pois são ótimos exemplos. Se um computador conseguisse imitar a consciência humana em todos os seus aspectos, poderíamos dizer que ele possui personalidade? Não seria apenas um software extremamente complexo executando linhas de código? Pois então, nós fomos programados, ou somos livres? Quanto de nós está mesmo sob nosso controle? A pergunta central, ou o devaneio de hoje: e a nossa liberdade?

Eu acredito que o livre arbítrio é impreterivelmente resultado de sermos pretendidos. Se admitirmos que fomos colocados aqui, propositadamente, só nesta condição podemos acreditar que nossa liberdade existe. Pense no contrário. Se considerarmos que tudo não passa de probabilidades, então não temos escolhas. Nós seremos o resultado de pura causalidade, de eventos baseados em causa e efeito. Uma bola de bilhar batendo em outra, que bate em outra, que bate em outra e assim por diante.

Imagine que você encontrou alguém com quem deseja passar o resto dos seus dias. Se você acredita que tem livre escolha, você sabe que pode parar de procurar um(a) companheiro(a), que você tem mérito na manutenção do seu relacionamento, que você está construindo algo com alguém, que você está do lado de quem você escolheu continuar ao lado. Porém, se você considerar que a existência não passa de "lançamento de dados", você terá que acreditar que tudo que ocorreu no Universo, inevitavelmente, levaram-te até o momento em que reações bioquímicas do seu corpo fizeram você se aproximar do(a) seu(ua) amado(a). E pior, tudo continua sendo apenas reações, causa e efeito que prendem você a pessoa "amada". Neste caso, você não tem escolha, nunca teve. Pura causalidade e você teria que se perguntar, o que é o amor, o respeito, as conquistas, o talento, a própria vida? Uma realidade, ou uma ilusão?

Desviando: Certo homem tinha a função de cruzar cidades para ajudar pessoas a tornarem-se indivíduos melhores. Porém, havia uma cidade específica, cujo povo ele detestava. E o que o homem temia aconteceu, foi incumbido de ir também àquele local odiado e mostrar às pessoas como poderiam ser mais evoluídas. Sem cerimônias, ele negou, pois não queria que aquele povo se tornasse melhor, queria sim que todos desaparecessem da face da Terra. Porém, acabou indo obrigado. Literalmente capturado, ele foi transportado até a cidade. Uma vez no povoado, sem outra alternativa, concluiu com sucesso o seu trabalho, mesmo ainda abominando aquelas pessoas. Pois bem, essa história sugeriu-me duas perguntas. Primeira, o livre arbítrio daquele homem foi suprimido? Tenho para mim que ele possuía uma função, por isso, se quisesse mantê-la, era obrigado a executar a sua tarefa. Porém, o direito de amar ou odiar as pessoas daquela cidade não lhe foi tirado. A mente dele não foi transformada, como um software de computador, para que ele obrigatoriamente passasse a amar aquela gente. A individualidade dele foi respeitada. A segunda pergunta, quem pode garantir que o objetivo daquela jornada não seria ensinar justamente o instrutor a ser uma pessoa melhor? Para quem se interessou pela história, o nome do homem era Jonas e o nome da cidade era Nínive.

Voltando: Qual a reposta correta? Fomos ou não fomos colocados aqui? Somos ou não somos livres? Quando algo parece ter várias respostas não quer dizer que signifique tudo necessariamente, mas sim que ninguém conhece ainda qual é a verdade.

O meu palpite? Seguir regras e códigos não significa não ter livre arbítrio, assim como não segui-los, não significa ser livre. Todas as nossas escolhas, por mais pesadas ou mais leves que sejam, estão relacionadas aos ganhos que pretendemos, a quão valiosos os consideramos. Se nunca soubéssemos que há uma opção diferente daquela que escolhemos e vivêssemos presos a uma única alternativa como realidade, nesse caso sim, nós não teríamos livre arbítrio. A verdadeira liberdade é ter opções de individualidade. É nunca ser como o lado de uma moeda, que jamais saberá que o outro lado existe.

Enfim, você é livre para escolher se prefere acreditar na causalidade ou na liberdade. Ninguém conseguirá provar o contrário do que você optar, pois se fosse possível provar, isso inevitavelmente tiraria seu livre arbítrio.