quarta-feira, 22 de junho de 2016

Fisgados pelo Nariz

"Nenhum preço é alto demais quando se paga pelo privilégio de ser dono do próprio nariz."
Friedrich Nietzsche


O conceito entre o bem e o mal não é tão antigo quanto aparenta. Começou a despontar com Demócrito, através de seus significados absolutos, em 400 A.C., período da filosofia pré-socrática. Resume-se a avaliação de objetos, pessoas e comportamentos sob um espectro dualístico. O bem refere-se a aspectos pró vida, continuidade e felicidade, enquanto o mal destaca-se pelas características contrárias a estas. Porém, atualmente, está cada vez mais difícil separar os dois lados. Às vezes encontramos motivações maldosas no bem que é praticado e outras vezes até conseguimos identificar alguma nobreza em situações de cunho negativo. Não é à toa que os anti-heróis tem feito muito sucesso. Uma mistura entre o bem e o mal, o dia e a noite, deuses e homens. Tenho a opinião de que essa mescla é vital para que os Homens elevem-se à condição de deuses. Precisamos dar um jeito de explicar um Universo em que seus senhores podem ser imperfeitos. O que fazemos? Fundimos o bem com o mal.

Nesta matéria, sobre os dez momentos nos quais o "politicamente correto" passou dos limites, entre as várias situações bem intrigantes, uma chamou mais a minha atenção. Uma atleta brasileira foi assaltada e levou um tiro dos agressores. Ela foi entrevistada e questionada sobre o que gostaria de dizer aos bandidos...

"Entrevistador: Você diria alguma coisa aos rapazes que lhe assaltaram?
Vítima: Só consigo pensar em desculpas. Eu sinto muito, porque, infelizmente, o que aconteceu comigo é reflexo da sociedade em que vivemos.
Entrevistador: Você gostaria de pedir desculpas a eles?
Vitima: Sim.
Entrevistador: Por quê?
Vitima: Porque assim como fui vítima, eles são vítimas de tudo que vivemos hoje. É muito frustrante passar por uma situação como essa e ver que as pessoas se colocam nessas posições para sobreviver."

Uma dúvida me ocorreu, que tipo de discursos temos ouvido para que passemos a questionar o mal? Por que estamos ficando em dúvida sobre o que realmente é mau e o que de fato é bom? Quem tem feito esses discursos? São conclusões inevitáveis, ou são ideias alicerçadas tijolo a tijolo nas nossas mentes?

Desviando: Existe uma história antiga que diz que o Homem vivia na inocência. Naquele período, ele habitava o Paraíso. Em algum momento, por quaisquer que tenham sido as razões, o Homem deixou a pureza e fez distinção entre o bem e o mal. Conta a história que, a partir daquele instante, o Homem iniciou seu processo de decadência. Continuando na linha do tempo, agora olhando para o futuro, o mesmo livro faz uma previsão. Diz que chegarão tempos em que o Homem não mais distinguirá o bem do mal, mas os dois conceitos irão misturar-se em sua mente, por consequência, reverberando em tudo que seja proveniente de sua mão. O livro conclui que esse período será o último estágio da decadência. Será o período da autodestruição.

Voltando: Imagine que você possui um amigo que, frente a atual crise política e econômica, passa por sérias dificuldades financeiras. Ele acaba sendo despejado de casa, pois deixou de pagar as parcelas do financiamento imobiliário. Você, sensibilizado com a situação, oferece abrigo a ele e família até que possam equilibrar-se novamente. Poucos dias após instalarem-se na sua casa, acontece algo inesperado. O filho deste amigo faz um mal terrível ao seu(sua) filho(a). Algo chocante, "imperdoável" (imagine o que quiser). Você não sabe se chora de tristeza ou de raiva. Emocionalmente, você não consegue separar a responsabilidade do garoto da responsabilidade do amigo. Racionalmente, você sabe que precisa ponderar tudo com muita calma para chegar a melhor solução possível. Ou vice-versa. A culpa é do garoto, ou é do pai dele? O garoto é malvado, ou ele é a consequência da criação que recebeu? Do ponto de vista do seu(sua) filho(a), a culpa poderia ser sua, por ter aberto a porta de casa para "estranhos"? Ou foram todos vitimas da situação econômica e política do país?

Tudo bem, você poderia responder que nunca passaria por uma situação assim. Por que deveria ficar imaginando situações como esta? Talvez você tenha razão. Porém, os governantes europeus não podem dar essa mesma resposta, pois são justamente situações como estas que eles estão enfrentando, com as imigrações a partir de países do Oriente Médio. Algumas pessoas que fugiram de crises civis de seus países, que receberam abrigo, fizeram muito mal a mulheres europeias (filhas de alguém). Como resolver essa questão? Por mais que não aconteça diretamente conosco, é uma situação da qual fazemos parte. E o ponto é, nossos julgamentos estão distorcendo a fronteira entre o bem e o mal, ou esse limite nunca existiu de fato?

Sabe o que acontece quando o Homem perde-se em seus valores, tomando aquilo o que lhe é conveniente como certo ou errado? Abre-se a brecha para outro Homem apresentar um interesse que possa ser compartilhado. Então, o primeiro Homem, confuso, pode ser guiado cegamente. Já ouviu aquela famosa frase do conto "Alice no Pais das Maravilhas" que diz, "se você não sabe para onde vai, qualquer caminho serve"? Enfim, será que eu estou exagerando? A última experiência que tivemos com esse tipo de situação foi no período da Segunda Guerra Mundial, com Adolf Hitler. Aliás, a Segunda Grande Guerra foi uma das consequências das ações de um povo que deixou-se guiar, levianamente, por um líder que dizia conduzi-los à grande guinada para fora do caos.

Desviando: Sabe o que é interessante? O mesmo livro que citei no "desviando" anterior conta que quando os seres humanos, globalmente, perderem-se em seus valores, um homem surgirá com a resposta e os guiará ao seu próprio extermínio. Você acha que isso nunca mais poderá acontecer de novo? Então recomendo-lhe assistir o filme "A Onda", informar-se sobre a cadeia de eventos que embasaram o Terceiro Reich e comparar com o que tem acontecido nos dias de hoje, mundialmente. Não sei você, mas eu fico muito espantado com essas coisas. Se fosse eu quem tivesse escrito o livro que venho citando, eu colocaria essa frase no final, incluindo a interrogação: "Isso é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência (?)". Ou, talvez, eu apenas desse o nome de profecia.

Voltando: Nós não aceitamos mais fazer o que tem que ser feito apenas porque é o correto a se fazer. Nós relativizamos os conceitos, pois sempre há alguma conveniência. Nós não nos guiamos mais nem pela razão, nem pela emoção. Não nos guiamos mais nem pelo ceticismo, nem pela fé. Já falei aqui que, mesmo sabendo que temos 171.452 vezes mais chances de morrer a caminho da lotérica do que de ganhar na Mega-Sena, nós ainda assim escolhemos sair de casa para fazer uma aposta. Outro exemplo? Um religioso que segue uma vida reta porque tem medo de passar a eternidade sofrendo e não porque é o que deveria ser feito. Os ideais são avaliados em função de nossos interesses. Infelizmente, isso nos trará o caos um dia. Basta que a situação fique crítica o suficiente, então estaremos suscetíveis a liderança de alguém que apresente um caminho coletivo, que nos guie por entre os vales das nossas dúvidas, mesmo que não saibamos bem onde iremos chegar.

Minha conclusão? Não é que o bem e o mal não são tão bom e mau, respectivamente, mas o verdadeiro bem é muito mais sublime do que podemos imaginar e todo o resto é mau. Nós sentimos isso, mas não assumimos, pois é mais conveniente que tudo seja circunstancial. Pensar assim nos dá a sensação de que somos donos do próprio nariz, seja qual for o preço. Uma pena que não consigamos enxergar as consequências um palmo a frente deste mesmo nariz.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Um Otimista Idealista ou Pessimista Sem Expectativas?

"O que esse país realmente precisa é que alguém apague a luz no fim do túnel"
Millôr Fernandes


Semanas atrás, almoçando com amigos, eu fui questionado por um deles (é importante contextualizar que, naquele dia em específico, o processo de impeachment da até então presidente do Brasil seria analisado). A pergunta foi, "seus textos são somente filosóficos, ou você vai aproveitar a atual situação política do país e dar sua opinião?" Eu respondi, "não sabia que meus textos eram filosóficos." Aquele meu amigo conseguiu criar a inquietação em minha mente. A pergunta ficou lá, coletando informações, formando e estruturando uma raciocínio, até que finalmente, três ou quatro semanas depois, acabou virando um texto. Tudo bem, irei dar minha opinião sobre política, mas não sem ir mais além.

Desviando: Há muito tempo, vendo o programa Show do Milhão no SBT, eu ouvi o Silvio Santos fazer um comentário que nunca mais esqueci. O objetivo do jogo era responder perguntas de conhecimentos gerais, acumulando dinheiro a cada acerto. Quando o participante tivesse somado um montante considerável, as regras do jogo forçavam-no a arriscar nas perguntas seguintes o que ganhara nas anteriores. Um dos participantes, tendo acumulado uma quantia significativa em dinheiro, abandonou o jogo praticamente na reta final. Ele ficou com o que tinha conquistado e desistiu de seguir em frente até a pergunta de um milhão. Foi aí que o Silvio Santos fez o comentário. Não lembro exatamente as palavras, mas foi praticamente isso: "Você começou o jogo com algum dinheiro? Tudo o que você ganhou até aqui era seu? Então porque você está com medo de arriscar aquilo que você nunca teve na tentativa de conquistar mais?"

Voltando: Recentemente, um pensamento veio a minha mente. Se eu fosse eterno, provavelmente viveria todos os meus dias sempre iguais, pois as possibilidades de viver um dia diferente seriam infinitas. Eu teria incontáveis chances de escolher diferente quando quisesse. Continuei ponderando... Se eu fosse eterno e tentasse imaginar uma vida finita, provavelmente eu diria que, nesse caso, aproveitaria ao máximo a minha vida diariamente, sabendo que ela poderia acabar a qualquer momento.

Eu aprendi três lições com esse raciocínio. Primeiro, eu vivo uma vida finita como se ela fosse infinita. Segundo, o meu planejamento nunca condiz com a realidade, ou seja, quando a situação idealizada se torna realidade, não faço o que digo que faria. Eu penso em possibilidades diferentes apenas pelo prazer de imaginar outro contexto. Terceiro, eu tenho muito medo de perder o que nunca foi meu.

Desviando: Em certo trecho de um discurso, Steve Jobs fala sobre o fim da vida. Transcrevo as palavras dele.

"Pelos últimos 33 anos, eu olho-me no espelho toda a manhã e questiono-me: 'e se hoje fosse o último dia da minha vida, eu faria o que eu estou prestes a fazer hoje?' E mesmo que a resposta tenha sido não para muitos dias seguidos, eu sei que preciso mudar alguma coisa. Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que encontrei para ajudar-me a fazer grandes escolhas na vida. Porque quase tudo, todas as expectativas externas, todo orgulho, todo medo do constrangimento ou fracasso, essas coisas simplesmente somem frente a morte, restando apenas o que é verdadeiramente importante. Lembrar-se que você vai morrer é a melhor maneira que conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu, não há razão para não seguir seu coração. (...)"

Voltando: Eu particularmente não acredito em "vida loka". Então, o que eu projeto como vida plena? Deixe-me refletir um segundo... Ah sim. Pense em tudo o que existe no mundo e que é bom, mas que não foi construído pelo homem, ou não sofreu sua interferência. Não vou dar exemplos, pois não quero ser tendencioso. Eu sinto-me desapontado comigo mesmo, por ajudar a esculpir um mundo em que as coisas que consideramos boas estão sendo fabricadas. E fico mais frustrado ainda em reconhecer que tenho medo de apostar o que eu nunca tive para conquistar o que é bom de fato. Paradoxalmente, se eu tivesse a vida que idealizo, provavelmente eu ainda iria querer construir um mundo diferente.

Onde eu quero chegar com todo esse discurso? Eu estou tentando dizer que, como ser humano, é de minha natureza acreditar que "a grama do jardim do vizinho é sempre mais verde que a grama do meu jardim", mesmo que o vizinho não tenha um jardim. E para continuar acordando de manhã, levantando da cama, eu transfiro o vazio que eu sinto para causas tangíveis, como um emprego, um cargo, uma casa, um relacionamento, a política. Tão logo um objetivo seja conquistado, outro propósito precisa ser criado, para que o ciclo se reinicie. Quando isso vai terminar? Nunca, pois eu tenho uma fome e uma sede que não serão saciadas por nada que eu possa fazer. Cortinas de fumaça, iludindo-me a acreditar que um dia o ciclo se encerrará. Tudo isso para que eu não precise olhar para dentro, para o meu próprio jardim, para a verdade, de que eu sou limitado.

Talvez agora seja a hora de dar a minha opinião sobre política. Pense nas principais civilizações humanas da história. Tenha em mente os Sumérios, Babilônios, Assírios, Egípcios, Hebreus, Persas, Fenícios, China Antiga, Grécia Antiga, Roma Antiga, Império Bizantino, Império Mongol, Idade Média, Império Otomano, América Pré-Colombiana, Europa, Alemanha, Rússia, EUA e até o Brasil. Dentro do Brasil vamos nos lembrar do Império, da Republica e da Ditadura Militar. Pense no primeiro presidente brasileiro após a Ditadura e que foi deposto. Pense na presidente atual, do partido de esquerda, a esperança de mudança e que também está sofrendo processo de impeachment. Responda, quando o ciclo se encerrará? Quando vai melhorar? Com quem vai melhorar? A partir de qual governo as coisas serão mesmo diferentes? A humanidade está mesmo evoluindo? Os dias de hoje são menos violentos? Passa-se menos fome? Respeita-se mais? Os interesses atuais são mais nobres do que foram nas civilizações passadas? Que plano, que ação, que revolução foi realmente eficaz? Tudo bem, atualmente temos o sofá, a TV, o controle remoto, o celular, a Internet e o quarto com banheiro (para quem pode tê-los). Talvez as coisas realmente tenham melhorado um pouco (espero que tenha entendido que tentei ser irônico).

Por piores que sejam e mereçam mesmo a punição, os depostos de todas as civilizações não passaram e não passam de "bois de piranha", mais uma vez a cortina de fumaça, para que um novo ciclo possa recomeçar. Assim tira-se a atenção do verdadeiro responsável pelo mundo construído, nós mesmos. Nós ficamos sempre lutando contra um vilão que está lá fora, pois se ele está lá, não pode estar aqui. Se o bicho-papão é ele, não pode ser eu. Todos os problemas deveriam ter sido resolvidos por ele, mas não foram, então é hora de colocar outro ele no lugar. Assim, não precisamos assumir o fato de que não conseguiremos.

Enfim... Se eu não consigo transformar a minha essência através das minhas próprias forças, assim como a humanidade nunca terá um futuro diferente do que teve nos últimos dez mil anos, então a última opção é algo além, para que sejamos completos, para que sejamos plenos, para que a humanidade evolua no mais absoluto do sentido da palavra. Não adianta mais continuar me enganando, o mundo nunca ficará melhor através das minhas mãos, o que me conduz a uma última esperança, de que a solução só poderá vir de longe.

"Eis que eu lhes digo um mistério: nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados. Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade."
1 Coríntios 15:51-53

Talvez eu não seja tão pessimista, mas seja um baita de um otimista, visto que eu não tenho mais a expectativa sobre as promessas dos homens, porém esteja susceptível as promessas excelsas. Ou eu sou mesmo um pessimista sem expectativa nenhuma, ou eu sou um otimista bem idealista. No entanto, não descarto a possibilidade de que os dois conceitos sejam meros sinônimos.

Agradecimento: ao FOS, que perguntou-me se eu escreveria um texto sobre a atual situação política do Brasil e que acabou inspirando o texto de hoje.

Abraço: aos amigos RLC, PB e RT, que também estiveram junto no almoço relembrando tempos bons.

domingo, 29 de maio de 2016

Identidade Secreta

"Os reis deixaram aqui suas coroas e cetros; os heróis, suas armas. Mas os grandes espíritos, cuja glória estava neles e não em coisas externas, levaram com eles sua grandeza."

Fiquei muito impressionado como, em 2016, tivemos tantos lançamentos consecutivos de filmes de super-heróis. Batman Versus Superman foi lançado em 24 de Março, Capitão América: Guerra Civil foi lançado em 28 de Abril e X-Men: Apocalipse em 19 de Maio. Nos últimos três meses, nós tivemos praticamente um lançamento mensal para cada uma das mais icônicas personagens em quadrinhos que já existiram. Sem falar que está previsto para 4 de Agosto pelo menos mais um lançamento, Esquadrão Suicida. Neste caso, serão vilões que apelarão para o lado altruísta de si mesmo (vamos esperar o filme explicar esse enredo). Enfim, será que há alguma lógica por trás dessa "febre"?

Superman foi o primeiro super-herói em quadrinhos criado, no ano de 1938. Este link mostra em detalhes a cadeia de eventos históricos que culminou no lançamento do primeiro gibi desta personagem. Aquela revista serviu como estopim para o surgimento de tantas outras figuras, como Batman, Mulher-Maravilha, Vingadores, X-Men etc. A maioria dos lançamentos e das criações de super-heróis aconteceram no  final da década de 30 e início de 40. O que ocorria naquele período? Pois foi uma época de recuperação após a maior recessão econômica já vista, bem como o intervalo entre os dois maiores conflitos mundiais, a Primeira e a Segunda Grande Guerra.

E hoje, o que acontece hoje? É um período que busca a recuperação após a pior crise econômica mundial desde aquela primeira da década de 30. Além disso, guerras civis, crises políticas e terrorismo estão espalhados pelo mundo como nunca visto antes. Seria coincidência estarmos tão interessados em super-heróis novamente? Parece que alguém está esperando um salvador, um messias. Consciência coletiva... global? Aliás, sabia que um dos criadores da figura do Superman foi Joseph Shuster, canadense, filho de imigrantes judeus, o primeiro povo a esperar por um salvador, um messias?

Desviando: O Capitão América foi criado por Joe Simon e Jack Kirby, e fazia parte da Timely Comic (atualmente Marvel Comics) de Martin Goodman. Após dar um calote nos dois criadores da personagem, que acabaram indo procurar emprego na DC Comics, Goodman decidiu que não precisaria contratar mais ninguém para tocar suas publicações. O que ele fez? Promoveu a editor um office-boy de 19 anos que não lia quadrinhos, Stanley Lieber, ou Stan Lee, que foi apenas o criador de Vingadores, X-Men, Homem-Aranha e outros heróis.

Voltando: Existe um programa de TV chamado Os Super-Humanos de Stan Lee, da History Channel. É uma série que procura por humanos capazes de feitos extraordinários, impossíveis para qualquer outro ser humano comum. Tem de tudo, homem que não se fere com furadeira, outro que consegue entrar em uma banheira de água fervendo sem queimar-se, ainda outro que é imune a choques elétricos, um que consegue estourar bolsas de água quente apenas assoprando etc. A ideia do programa é promover uma caçada por alguém que possa ser considerado um super-herói da vida real, com super poderes de verdade. Então, eu fiquei pensando, se existisse um herói como dos quadrinhos, o que ele precisaria fazer para que eu acreditasse nele? Usar uma fantasia? Voar? Lançar fogo pelos olhos? Talvez ricochetear a bala de uma arma de fogo? Ou ainda, erguer automóveis como quem ergue uma folha de papel? Seria necessário todas essas coisas juntas, ou pelo menos uma delas? Pense você, alguém aparece na sua frente e diz que é um super-herói, o que você esperaria ver para acreditar nele?


Durante este devaneio, eu resolvi extrapolar a questão. Não sei como ser menos direto, portanto, se Deus aparecesse na minha frente, o que Ele precisaria fazer para que eu acreditasse que Ele existe e é Deus? Eu fiquei pensando... E se Ele viesse com algum tipo de roupa especial, uma farda por exemplo? Acredito que isso sugeriria a perda da minha liberdade e talvez motivaria a rebelião em mim. Será que eu precisaria ver sinais poderosos, super poderes? Mas isso poderia provocar medo e faria com que eu quisesse esconder-me dEle. Talvez Ele tivesse que aparecer com algum armamento extraordinário? Uhm... Isso inspiraria vingança, "olho por olho, dente por dente" e como em uma reação em cadeia nós poderíamos nos extinguir. Quem sabe Ele tivesse que aparecer com um super exército? No entanto, isso "cheiraria" a dominação e fatalmente iríamos querer destituí-lo do seu "cargo". Ou ainda, teria Ele que mostrar que é um ser avançado de uma galáxia longínqua? Desta vez, que tipo de deus seria um limitado pelas leis da física e da biologia? OK, e um ser transcendente, um espírito pairando no ar, contemplativo? Além de transparecer passividade, nunca teria direito de fazer cobranças, pois não saberia o que é ser um humano.

Há registros de que, certa vez, um homem apareceu dizendo que era Deus, claramente. Ele disse que se desfez da sua divindade e tornou-se igual a nós para nos ensinar o que é a vida de verdade, para mostrar que Ele sabe o que é ser um ser humano e que, consequentemente, conhece todas as nossas aflições. Entre suas missões, uma foi nos inspirar a prática de atos que não sabíamos que éramos capazes de executar, ou que sabíamos, mas estavam inertes. Ele foi simples, sem farda, sem super poderes, desarmado, sem um exército e de carne e osso, apesar de sua natureza divina. Ele disse muitas palavras, que apesar de modestas, são muito difíceis de se entender, a tal ponto que, por pura ignorância de minha parte, as vezes acho mais fácil nem tentar entendê-las. Sem falar dos atos praticados. Aliás, as vezes não tentamos entender algumas coisas apenas por que o assunto é muito batido, de tal maneira, que acreditamos já saber o suficiente. Isso já não é ignorância, mas presunção de minha parte.

Não é estranho? As primeiras características que listei parecem ser de uma divindade em quem acreditaríamos, mas que por outro lado nós não gostaríamos que existisse. As últimas listadas, as mais simples, são aquelas que gostaríamos de ver em Deus, mas que por sua vez, tendo sido exatamente desta maneira, não acreditamos que seja verdade. Se eu não sei o que esperar de Deus e por isso eu não acredito Nele, isso é uma limitação minha, mas não de Deus. Então, começo a acreditar que a questão relevante não é se Deus existe, mas sim o que Deus teria que fazer para que eu acreditasse que Ele existe.

Enfim, cada um deve ter sua própria resposta. Há quem diga que Deus é tudo. Jeová, Jesus, Buda, Oxalá, Natureza, Universo, Infinito etc. Mas deve haver alguma coisa que faça com que todos O reconheçam igualmente, algo padrão.

"Acreditar em tudo é o mesmo que acreditar em nada."

"Se um sistema é muito fechado, ele tende a morrer. Porém, se um sistema for muito aberto, muito fluido, ele tende a se descaracterizar."
Ed René Kivitz 

Para finalizar, "não reconhecer" não é sinônimo de "não existir". Se Deus aparecesse na sua frente bem agora, o que Ele teria que fazer para você acreditar que Ele existe e é Deus? Somente com essa questão em mente estaremos prontos para reconhecê-lO, caso Ele apareça. Inclusive, talvez nos surpreendamos ao descobrir que Ele sempre esteve lá, "disfarçado" entre nós. Ou não, podemos apenas considerar que tudo não passa de "histórias em quadrinhos", coincidências e que não merece mais atenção do que duas horas de uma sessão de cinema.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Eu, Eu Mesmo e Minha Consciência

"Até aos quarenta anos o homem permanece louco; quando então começa a reconhecer a sua loucura, a vida já passou."
Martinho Lutero

Segundo a definição convencional, filosoficamente falando, vida é o fenômeno que anima a matéria. Uma entidade poderá ser considerada um ser vivo se apresentar os seguintes fenômenos, pelo menos uma vez em sua existência: desenvolvimento; crescimento; movimento; reprodução; respostas a estímulos, e; evolução. Resolvido? Nem tanto. De acordo com esse conceito, poderíamos dizer que as estrelas são seres vivos.

Desviando: No caso específico dos seres humanos, também é comum empregar a palavra vida ao se referir ao tempo gasto com o que faz bem, ou com o que dá prazer. Descanso, férias, praia, esporte, lazer, piscina, ar livre, relaxamento, família, amigos etc. É um conceito muito usado para especificar o período entre uma sexta-feira, imediatamente após a jornada de trabalho, e uma segunda-feira, segundos antes do inicio da nova jornada. Tudo bem, segundos antes do inicio da jornada de trabalho é forçar a barra, que tal segundos antes de deitar-se domingo a noite?

Voltando: O fato de exceções como as estrelas encaixarem-se na definição filosófica de vida pode ser remediado se adicionarmos a palavra metabolismo ao conceito. Biologicamente falando, vida pode ser descrita como um processo contínuo de reações químicas e metabólicas, em um ambiente que apresente condições favoráveis a ocorrência e manutenção destas mesmas reações. Por isso que cada célula de nosso corpo, de uma árvore, ou de qualquer outro ser são consideradas vivas. Neste contexto, vida não tem relação nenhuma com consciência. Obviamente, se tentássemos fazer essa correlação, não obteríamos sucesso. Os animais irracionais e os vegetais não possuem consciência, mas são biologicamente vivos (já parou para pensar que chamar um animal de irracional não é um pleonasmo?)

Então, as questões, o que é consciência e qual sua função para a vida? (Claro que não tenho a menor pretensão de dar alguma resposta, por motivos óbvios, não sei). Será que tudo não passa de um incrível, minucioso e camuflado sentido de instinto, que nos ilude a acreditarmos que exista um eu (já citei aqui algo sobre um conjunto de circuitos que acreditava ser alguém). Diz-se que os seres conscientes são os únicos que sabem sobre si mesmo, sabem que existem e que são algo. Ou melhor ainda, são os únicos que possuem a capacidade de diferenciar a si mesmo do outro. Portanto, faço mais perguntas, "o que é ser?", "o que é existir?" e "o que é não ser o outro?". Já que também não sabemos as respostas para esses três conceitos base, então, talvez, a consciência não seja nada mais que a habilidade de fazer perguntas. Questiono, logo existo?

A série americana True Detective falou sobre ilusão, consciência e vida. Segue um vídeo aqui e a transcrição abaixo.

Sobre a consciência: "Eu acho que a consciência humana foi um erro trágico na evolução. Nós nos tornamos demasiadamente conscientes de nós mesmos. A Natureza criou uma parte separada dela mesma. (...) Somos coisas que vivem a ilusão de ser alguém. Temos a noção de que vivemos experiências sensoriais, que temos sentimentos. Programados, com certeza, de que cada um de nós é um alguém. Quando de fato, não somos ninguém."

Sobre a vida: "É isso que eu quero dizer quando eu falo sobre o tempo, a morte e a futilidade. Você olha nos olhos delas, mesmo numa foto, e não importa se estão vivas ou mortas. (...) Sabe o que você vê? Elas escolheram a morte. Não de primeira, mas ali, naquele último instante. É um nítido alívio. Porque elas estavam com medo. E agora elas viram, pela primeira vez, o quão fácil era simplesmente se deixar levar. E elas viram, naquele último nano segundo, o que elas eram de fato. Você, você mesmo, todo esse grande drama, não é nada mais do que um remendo de presunção e desejos tolos. E você pode simplesmente se deixar levar, enfim... agora que você não tem que se apegar com tanta força. E perceber que toda a sua vida, não importa o quanto você amou ou odiou, toda a sua memória, a sua dor... foi tudo a mesma coisa. Tudo fez parte do mesmo sonho. Um sonho que você teve dentro de um quarto trancado. O sonho de ser uma pessoa."

Então, a consciência, que busca sua individualidade e nos separa do outro, talvez seja o nosso grande mal. Ou melhor, quem sabe ela esteja sendo usada de forma errada. Não me admiraria se descobríssemos que ela foi criada com o objetivo de reconhecer o outro, mas não de conhecer a si mesma. Se a teoria evolucionista da seleção natural for mesmo correta, a consciência poderia ter sido desenvolvida apenas para permitir saber que há um outro. Somente assim, juntos, a espécie se perpetuaria. Reiterando, talvez a consciência não tenha sido criada para individualizar, mas para unir. Não tenha sido criada para saber quem é o um, mas para saber que, apenas como vários, os "uns" conseguiriam seguir em frente.


É justamente esta linha de raciocínio que o professor Clóvis de Barros Filho apresenta neste vídeo. É a ideia de um pensador singular, que revolucionou a humanidade ao introduzir o conceito de que a vida que vale a pena viver é aquela completamente dedicada ao outro, de que o amor é mais valioso que a vida (veja o vídeo antes de discordar). Uma ideia, até então, contrária a todos os outros pensadores, que pregavam o bem-estar, o individualismo, as conquistas e a satisfação pessoais.

Desviando: É incrível, como alguém conseguiu ter uma visão da humanidade tão além em uma época tão remota, de forma que chamá-lo de mente evoluída ainda seria limitar muito? É sobre-humana a capacidade de criar e apresentar conceitos que, mesmo com muita explicação, a humanidade inteira ainda pena para entender. O que há por trás desta mente? O que está por de trás das cortinas? O que ela viu além da entrada da caverna? O que foi escrito nas palavras e que ainda não conseguimos ler? Talvez por isso seja mais fácil apenas pedir para que se confie. Talvez por isso seja mais fácil apenas pedir para que se tenha fé.

Voltando: O que estamos tentando entender é "o que acontece se colocarmos consciência em um ser dotado de instintos?" A gente, acontece a gente, os seres humanos. Eu acredito que existem três tipos de seres. Primeiro, os animais, fundamentados na fome e nos desejos, puramente instintivos. Segundo, os seres humanos, que possuem toda a estrutura instintiva como os animais, mas que receberam a dádiva, ou o infortúnio, da consciência. Terceiro, os seres puramente conscientes, sem instinto, ou com estes completamente domados pelas rédeas do discernimento (já citei aqui sobre a possibilidade de aparecerem seres com roupas estranhas, em "caravelas", que nos mostrem que vivemos nus). Por isso nós ficamos nesta batalha entre o que se deseja contra o que se deve, entre o que eu sou contra o que eu gostaria de ser. Quase literalmente, seria a mesma coisa que, por um truque de mágica, dotar um símio de consciência.

Neste sentido, faço duas observações. A primeira é a esperança de um dia alcançarmos o patamar dos seres puramente conscientes, que não vivem para preencher o vazio do eu, mas sim o vazio do outro (o Céu). Então, conseguir escapar de uma vida de fome e sede insaciáveis, de dor e desconforto infindáveis (o Inferno). A segunda observação é que alguém poderia dizer que não seria bom perdermos nossos instintos, pois são justamente eles que nos tornam humanos. Porém, eu não fico plenamente confortável com essa ponderação. Já citei aqui que nossas conclusões são, em sua maioria, tendenciosas. O caso daquela tia que, ao acertar na loteria, não pretende comprar uma casa grande, pois dará muito trabalho para limpar. Ela avalia a situação sob o aspecto de quem não tem dinheiro, mas se esquece que, se milionária, poderia pagar para outras pessoas arrumarem a sua grande casa nova.

Enfim, a nossa sociedade, a partir de nossa geração, está se especificando demais. Está se subdividindo em muitos grupos de interesses. A cada dia surgem mais classes, partidos, tribos, facções, seitas, equipes, corporações, simpatizantes etc (haja sinônimo). Durante meus 36 anos de vida, nunca fui colocado frente a escolhas de lado, a escolhas entre posições ideológicas, tanto quanto atualmente. Perdi as contas de quantas vezes fui "forçado" a diferenciar-me de um grupo e identificar-me com outro, de quantas vezes fui questionado nesse sentido. Se nossa reflexão, sobre o verdadeiro propósito da consciência estiver correta, talvez estejamos tornando-a um problema, ou obsoleta. E se foi mesmo a seleção natural quem a criou, arrisco dizer que, ou seguiremos o caminho da extinção, ou a Natureza vai perceber que errou e dará um jeito de corrigir. Relevante frisar que uma opção não exclui a outra.