terça-feira, 29 de novembro de 2016

Porque Sim Não é Resposta

"Muitas vezes as coisas que me pareceram verdadeiras quando comecei a concebê-las tornaram-se falsas quando quis colocá-las sobre o papel."


Existe uma ferramenta de Gestão da Qualidade chamada de "5 Por Quês", que foi desenvolvida por Taiichi Ono, pai do Sistema de Produção Toyota. Ela consiste em formular cinco "por quês" consecutivos com o objetivo de convergir para a causa raiz de um defeito ou problema (já falei de causa e efeito aqui).

Nada impede que mais ou menos "por quês" sejam formulados. O número 5 vem apenas da observação do criador da receita de que essa quantidade é suficiente para descobrir o motivo central de uma falha. Geralmente, quando somos indagados sobre um problema, tendemos a encontrar uma desculpa e um culpado, mas não a procurar a causa primária. Mais ou menos assim:

Primeiro porquê, temos um sintoma

Segundo porquê, temos uma desculpa

Terceiro porquê, temos um culpado

Quarto porquê, temos uma causa

Quinto porquê, temos a causa raiz

Apesar deste método ser muito utilizado nos ambientes corporativos, ele também pode ser usado no nosso dia a dia.  Sabe quem é craque nesse tipo de técnica? Crianças em torno dos cinco anos de idade. Aquele período da vida em que todas elas tornam-se "chatas", pois querem saber o porque de tudo.

Criança: Pai, por que não podemos ficar juntos o tempo todo?
Pai: Porque o pai tem que trabalhar.
Criança: Por que você tem que trabalhar?
Pai: Porque precisamos pagar as contas.
Criança: Por que temos tantas contas para pagar?
Pai: Porque compramos muitas coisas.
Criança: Por que compramos muitas coisas?
Pai: Porque precisamos suprir as nossas necessidades.
Criança: Por que temos tantas necessidades?
Pai: Vai brincar lá fora, vai.

É incrível como os "5 Por Quês" funcionam tão perfeitamente. Nós conseguimos (ou toleramos) no máximo três ou quatro respostas, pois a desculpa e o culpado são fáceis de encontrar. No diálogo entre a criança e o pai,  exatamente no momento que a vida vai ser avaliada, que será dado nome e significado às escolhas feitas, que se correrá o risco de que "os olhos sejam abertos", é que a resposta é evitada. Talvez porque a essência demande muito de nossa mente, ou porque simplesmente não sabemos a resposta, ou quem sabe ainda porque não queremos, providencialmente, conhecê-la.

Usei aspas ao chamar a criança de chata, pois na prática nós somos os chatos. É incoerente para uma criança gastar seu tempo ou aceitar conclusões que não valham a pena, que não lhe sejam úteis, que não façam sentido. E é neste período da infância que ela é moldada ao mundo dos macaquinhos que não deixam ninguém pegar o cacho de bananas no topo da escada, só porque sempre foi assim (já falei dessa metáfora aqui).

Aplicando a lógica dos "5 Por Quês", acabei avaliando minhas conquistas e os objetivos que ainda tenho. Foi quando cheguei a conclusão de que um dos grandes problemas que enfrentamos, durante essa curta jornada que chamamos de vida, são as expectativas. Aliás, tenho pensado muito nas minhas recentemente, pelo simples fato de ter percebido de que tenho bem poucas.

Por exemplo, dizem que os pobres são os únicos efetivamente felizes, pois não são presos a bens materiais, sucesso e a status. Porém, pode ser que essa ideia esteja equivocada.

Desviando: "(...) o reles antidemocrata de hoje lhe dirá solenemente que não há na natureza nenhuma igualdade. Ele está certo, mas não percebe o adendo lógico. Não há na natureza nenhuma igualdade; mas também não há nenhuma desigualdade. A desigualdade, tanto quanto a igualdade, implica um padrão de valores.

Ver aristocracia na anarquia dos animais é exatamente tão sentimental como ver nela democracia. Tanto a democracia quanto a aristocracia são um ideal: a primeira diz que todos os homens são preciosos; a segunda, que alguns homens são mais preciosos que os outros. Mas a natureza não diz que os gatos são mais preciosos que os ratos; a natureza não faz nenhuma observação sobre o assunto. Ela nem sequer diz que o gato é digno de inveja ou que o rato é digno de dó. Nós pensamos que o gato é superior porque temos (ou a maioria de nós tem) uma filosofia particular afirmando que a vida é melhor que a morte. Mas se o rato fosse um rato pessimista alemão, ele talvez não pensasse que o gato o havia de algum modo derrotado. Pensaria que ele havia derrotado o gato chegando antes dele à sepultura. Ou então poderia sentir que ele de fato infligira um tremendo castigo ao gato mantendo-o vivo."

Ortodoxia – G. K. Chesterton (Edição Centenária 1908 - 2008)

Voltando: É bem provável que os autenticamente felizes não sejam nem os pobres e nem os ricos, mas aqueles que conseguiram conquistar todas as suas expectativas. Porém, não pelo sucesso, mas sim porque perceberam que o vazio, força motriz de tantos planos e objetivos, não foi preenchido. Talvez sintam-se frustrados, no entanto, não perceberam quão felizes são, pois a partir de agora nada os prendem mais. Eles finalmente libertaram-se da ilusão de que precisam de algo.

Aqueles que ainda estão em busca de seus planos não perceberam que querem apenas por querer. Por exemplo, já ouviu alguém dizer que com suas forças e dedicação são capazes de conquistar o mundo? Pois eu pergunto-me, após conquistar o mundo, o que faremos com ele? É claro que estou usando um exemplo extremo, mas o objetivo é poder ter a referência de como aplicar os "5 Por Quês" aos nossos objetivos. Ficarei sinceramente feliz caso você consiga viver bem com as respostas que encontrar.

Fechando o laço (foi a melhor palavra que achei para a ideia de loop), é justamente por isso que a expectativa torna-se um problema. Ficamos constantemente presos a ilusão da conquista e não percebemos que sempre tivemos tudo, ou melhor, que nunca precisamos de nada. Como no caso do gato e do rato de Chesterton, o problema é o padrão de valores implícito na nossa realidade. Ou seria um padrão admissivelmente imposto?

Desviando: Imagine uma pessoa que vai a um bosque gravar vídeos, junto a um riacho, árvores, pássaros, grama e tranquilidade. Seu objetivo é que sirvam como referência e ajuda para quem esteja precisando apenas de um "empurrãozinho". Seria lógico dizer que o acesso que essa pessoa tem ao campo e que os momentos que pode passar naquele local viabilizam o seu objetivo, gravar vídeos sobre o tema e ajudar pessoas a "encontrarem-se".

Porém, eu parei para refletir sobre esse caso e cheguei a seguinte conclusão. Se o objetivo desta pessoa fosse viver entre as árvores, junto a um riacho, aos pássaros etc, seria muito mais óbvio pensar que o trabalho que ela está executando, de gravar vídeos de motivação, é apenas o pano de fundo para que possa, ou deve (com o perdão da ênfase), viver a vida que sempre quis ter. O que separa a satisfação da inquietação neste caso? Porque ela continua vídeo após vídeo? São as expectativas, aquela vontade de fazer a diferença na vida de alguém, de encontrar um propósito para a sua própria vida, de eternizar-se quando consegue espalhar um pouco de si mesma dentro de outras pessoas.

Tentando ser um pouco mais otimista, quem sabe o trabalho de gravar os vídeos seja uma estratégia inconsciente, para que ela possa convencer-se conscientemente de viver a vida tranquila no campo. Enquanto o seu lado consciente fica insatisfeito, sempre buscando algo, preso a ilusão das conquistas, o seu eu mais profundo fica lá dentro gritando, "cara, olhe ao seu redor". Passo até a ficar com outra dúvida agora, qual parte de nós é mais racional, a razão propriamente dita ou os "instintos"?

"É o coração que sente Deus e não a razão."

Aliás, porque eu continuo escrevendo textos atrás de textos neste blog? Já sei, vai brincar lá fora, vai.

Voltando: Não à toa, já foi dito que uma casa onde há morte é melhor do que uma onde há nascimento. Não porque a morte seja melhor do que a vida, mas sim porque quando pensamos na morte deixamos de avaliar a vida sob o prisma das expectativas.

Agradecimento: Ao RT que indicou-me a ótima leitura "Ortodoxia" de Chesterton.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Por que o Prêmio Tem de Ser Colocado Atrás de Uma Porta?

"Existem certas ocasiões em que um homem tem de revelar metade do seu segredo para manter oculto o resto."


A expressão "crise dos sete anos" popularizou-se através do filme "The Seven Year Itch", clássico de 1955 que, no Brasil, recebeu o nome de "O Pecado Mora ao Lado". No enredo, o editor de livros Richard Sherman (Tom Ewell) aproveita a viagem de sua esposa para aproximar-se da vizinha, interpretada por Marilyn Monroe.

Enquanto mantém fantasias com a moça, o protagonista dedica-se à leitura de um livro chamado "A Coceira do Sétimo Ano" (tradução literal do nome do próprio filme). A narrativa do livro abordaria uma possível tendência masculina à infidelidade após sete anos de casamento. É como se a personagem Richard Sherman estivesse lendo a história do próprio filme, ou como se o filme estivesse contando a história do livro. Ou seja, tudo ficção.

Não acredito, tudo não passa de um filme e o "mundo" trata a questão como se fosse fato? Pois já ouvi pessoas, que se consideram extremamente racionais, expondo essa "superstição" como quem cita um artigo científico. É interessante como encontramos "fé" nas mais diversas categorias de pessoas, mesmo naquelas que dizem não tê-la.

A ideia enraizou-se de tal maneira que, nos dias atuais, a "crise dos sete anos" não está limitada apenas a tendências masculinas e a infidelidade, mas também é aplicada a qualquer tipo de problema de relacionamento. Nós seres humanos somos tão suscetíveis a sugestões assim? Parece-me bem óbvio, é mais fácil encontrar uma causa externa e intangível para nossos problemas, incluindo deixar-se levar sem requerer explicações, do que tentar reconhecer nossas responsabilidades, buscar por soluções e colocá-las em prática. Preparar a lasanha congelada no forno microondas é sempre mais fácil.

Fiquei curioso e resolvi pesquisar o assunto. Segundo essa reportagem da VEJA, com dados coletados pelo IBGE entre 1984 e 2014, a duração média do matrimônio caiu de 19 para 15 anos. Então, se houver alguma crise previsível nos relacionamentos, ela deve ocorrer aos 15 anos e não aos sete, pelo menos no Brasil de hoje. É o que diz a matemática e acreditamos nela, correto? Eu confesso que só acredito na ciência quando me convém (já tratei deste tema aqui).

Desviando: É impressionante como mesmo essa reportagem na revista VEJA, que supostamente tem o objetivo de trazer alguma lucidez ao assunto, também deixa suas sugestões na nossa mente. Segundo o mesmo artigo, o divórcio vem ganhando força desde 2010, ano em que a legalização da separação teve a burocracia reduzida. Essa interpretação apresentada sugeriu-me (não precisei pensar) que as pessoas não se separavam apenas porque havia muita papelada para assinar, ou muitas regras a serem seguidas. Pois eu tive que refletir para interpretar diferente (e raciocinar é sempre mais oneroso). Por exemplo, talvez o número de separações não tenha sido alterado, ou o tenha por motivos diversos, mas não necessariamente porque a burocracia facilitou. Ou nós acreditamos mesmo que, no passado, duas pessoas ficavam morando na mesma casa e unidas a contra gosto somente porque não conseguiam obter um papel assinado por um juiz? A reportagem seria mais precisa se dissesse que o número de "separações legalizadas" aumentou em virtude de facilidades na burocracia. Consegue perceber a diferença? Está certo, talvez eu esteja exagerando, com mania de teorias da conspiração. Quem sabe o repórter tenha apenas inocentemente interpretado os dados de forma equivocada (não estou tentando ser irônico). Ou mais simples ainda, quem sabe tenha sido eu quem entendeu errado.

Voltando: Não parece estranho? Seria planejado, popularizar que aos sete anos de relacionamento todos os casais passam por uma crise, enquanto a estatística diz diferente? Ou seria mero acaso? Talvez apenas leviandade? Por que não veiculam que cada casal faz o seu próprio relacionamento?

O mesmo "mundo" que prega que podemos conquistar o que desejarmos, com nosso esforço e dedicação, acaba criando regras, sugerindo regras, falácias, que dificultam ou impedem o nosso "sucesso". Qual seria o objetivo de nos abrirem o mundo e ao mesmo tempo criarem obstáculos; e pior, obstáculos que não necessariamente existem? Deixo claro desde já que não conseguiremos responder essa pergunta, mas não estamos escrevendo (eu) e lendo (você) este texto para obtermos respostas, mas sim para fazermos perguntas, correto?

Desviando: Não teremos a resposta, mas presenciei algo que cogito ser uma boa analogia. Dias atrás eu vi um Palio no trânsito. Estava com o vidro traseiro coberto por um grande símbolo da Nike, o logotipo da marca. Fiquei pensando, "a menos que o motorista trabalhe para a empresa, ele está tentando passar uma imagem de que é 'descolado', independente, arrojado, alguém que todos gostariam de ser ou ter como amigo". Essa aparência é buscada, provavelmente, por influência de propagandas da marca, que geralmente apresentam o mesmo estereótipo como propósito de vida. Porém, mal sabe o dono daquele automóvel que todas essas ideias teriam sido criadas na mente dele com um único objetivo, aceitar fazer a propaganda da Nike de graça. Já falei neste texto que nossas ideologias nem são nossas mesmo.

Voltando: Há quem se deixe iludir por uma marca, outros por uma ideia. Há quem não se iluda por nada, mas essa pode ser a mais profunda de todas as ilusões. Não consigo deixar de ir além com minhas dúvidas. Quais são outras ideias que existem por aí, de forma análoga a "crise dos sete anos", cuja origem também não conhecemos, que talvez nem existam, e que mesmo assim assumimos como verdade absoluta? Quem está "vendendo" as ideologias? Incomoda-me muito ter essa dúvida, não porque ela não será esclarecida, mas sim pelo fato de que estar ciente dela não é suficiente para livrar-me de seu contexto.

Enfim, tenho a nítida impressão de que estou participando daqueles jogos onde pedem para escolher uma entre três portas. Duas delas escondem cabras e apenas uma possui um prêmio. Por que colocar a recompensa atrás de apenas uma entre três portas? Por que as portas?

"Todo dia o sol da manhã
Vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo
Quem já não o queria
(...)
E a cidade que tem braços abertos
Num cartão postal
Com os punhos fechados da vida real
Lhes nega oportunidades
Mostra a face dura do mal
(...)
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em que"

domingo, 23 de outubro de 2016

A Mordida no Fruto Proibido

"Quando o Homem não tem mais em quem jogar a própria culpa diz: é a vontade de Deus."


Como alguém que acredita na ética pode fazer coisas que não são moralmente aceitáveis? Por exemplo, por que há pessoas reconhecidamente honestas que já colaram na prova, ou que já falaram mal de alguém por ter uma ideia política diferente, que já fizeram piada com a "desgraça" de um amigo, ou que já usaram o "jeitinho brasileiro"? Para facilitar, sejamos, supostamente, tendenciosos e discorramos sobre uma única questão. Como alguém que se diz religioso continua cometendo erros? Não à toa, condenamos esse tipo de pessoa como o "pior dos seres humanos" quando erra, uma vez que não pode contar com a ignorância como álibi. Aliás, essa atitude soou-me bem soberba agora, ou talvez oportuna. Manter esse tipo de pensamento é o mesmo que afirmar que conhecemos a verdade quando pretendemos julgar o religioso, mas que não se aplica a nós quando estamos sentados no banco dos réus. Agora já fiquei na dúvida sobre quem é o pior tipo de pessoa.

Desviando bastante: Neste artigo, o humorista Fabio Porchat mostra o quanto ficou indignado com os resultados das eleições de 2016. Ele expõe a ideia de que o povo não tem subsídios suficientes para opinar sobre quem seria o melhor governante e que, na maioria das vezes, tampouco se interessa por isso. Neste sentido, ele chama a Democracia de "burra".

Primeiro, eu gostaria de fazer uma pergunta. Ele teria escrito esse artigo se o candidato ou o partido dele tivesse vencido as eleições? Acho que não. Porém, como estou apenas supondo, nada mais justo do que especular a favor dele também. Talvez ele não tivesse escrito, mesmo assim acredito que ainda teria essa mesma opinião.

Em segundo lugar, quero fazer uma observação. Mesmo que a população fosse politicamente "inteligente", o problema que Porchat aponta não seria resolvido (já falei sobre causa e efeito aqui). Apesar de ter percebido uma falha no sistema democrático, penso que ele errou o enfoque. O ponto central não é a "ignorância" do povo, mas sim dois cruciais pressupostos sobre os quais a Democracia se baseia e que pouco foram explorados no passado recente. Sabe como é, com tantas nações lutando contra Ditaduras e com tantos interesses econômicos envolvidos, sempre deu muito "azar" a quem ousou questionar a Democracia. Perceba, por exemplo, que a palavra Democracia significa literalmente "governo do povo". E assim o é, pois enquanto na Ditadura os governantes caçam os "rebeldes", na Democracia o próprio povo sempre trata de execrar quem a questiona. No fim, todos os sistemas de governo possuem o mesmo fim, o poder. A única característica que muda é quem o detém; e de tão óbvio passa desapercebido.

Enfim, quais são os dois pressupostos da Democracia que mencionei, mas que ainda não expliquei?

Primeiro, a Democracia é apenas um sistema e, portanto, ela não é suficiente em si para habilitar e capacitar o Estado em exercê-la. A única exigência do sistema democrático é que o poder seja exercido pelo povo, independentemente da condição moral desse povo.

Segundo, a Democracia pressupõe que os membros da sociedade tenham disciplina e virtude acima da média, ou pelo menos assim o seja para a maioria que fará valer os ideais. Um movimento democrático com governantes sem disciplina e sem virtude poderá transformar-se em Ditadura (isso está acontecendo em alguns países da América do Sul, por exemplo).

Nós sempre nos esquecemos do principal componente de qualquer sistema, o Homem. Então, desconsiderando as paixões partidárias e atentando-se a artigos e opiniões como as de Fabio Porchat, por que a Democracia sempre foi tida como o sistema acima de qualquer suspeita? É importante frisar que não estou sugerindo um sistema em detrimento de outro, estou apenas falando em questionamento, em busca contínua por melhorias, que parece ter sido desacelerado quando assumiu-se o sistema democrático. Por que é aceitável que eu lute por um representante íntegro e justo na Democracia, mas é inaceitável que eu faça isso na Monarquia, por exemplo?

Como eu disse, o problema não é o sistema, nunca foi. O problema sempre foi o Homem. Os sistemas nem são reais, mas são sim uma ilusão que existe apenas na nossa mente. Basta retirarmos o Homem do Universo e todos os sistemas sumirão. Isso não significa que não sejam necessários, existem justamente porque somos o problema; úteis em conter nossas predisposições irracionais. Já falei disso aqui.

Ufa, voltando: Para responder a pergunta central, exposta no primeiro parágrafo, temos que colocar em pauta os tipos de pessoas que existem, ou pelo menos algumas delas. Quem é que está cometendo o erro? Seria um "bandido", que diz ter ideologia e crenças apenas para levar vantagem sobre alguma situação? Ou seria alguém "cego", que nem ao menos percebe os erros que comente? Poderia ser ainda alguém que tenha consciência de suas falhas, mas mesmo assim, dia após dia, continua tentando fazer a coisa certa?

Identificar o tipo de pessoa é por si só a resposta para a pergunta central. Ou seja, a questão não está relacionada a crenças e ideologias, mas sim a humanidade. Os valores e princípios são apenas as referências utilizadas para saber o que deve ser feito, o que é aceitável, qual o caminho que deve-se almejar para uma evolução pessoal. Os ideais são úteis para podermos identificar quando alguém está além ou aquém deles. Fico curioso para saber no que se transformará um mundo em que a verdade e o padrão são relativos? Um mundo em que o "depende" é mais correto que o "sim" e o "não"? Aliás, acho que este mundo já está diante dos meus olhos.

Só mais um desvio: Segundo o artigo do Porchat, a Democracia é, por enquanto, o que temos de menos pior. Essa ideia demonstra que tanto ele quanto eu temos a mesma fé. Nós temos a esperança de que um dia haverá um sistema pleno em si mesmo e à prova de seres humanos. A única diferença é que ele acredita que nós seremos capazes de criar esse sistema, mas eu não.

Voltando: Considerando que os sistemas não existem, mas são apenas devaneios de nossas mentes e que o Homem é o responsável pela transformação do mundo, começo a entender a mensagem da narrativa contada no livro de Genesis, onde é dito que o Homem corrompeu a Criação. História, inclusive, que eu soberbamente, ou oportunamente, via como um mero "conto de fadas" até alguns anos atrás, tomado-a como verdade apenas quando desejava condenar quem confessava acreditar nela, isentando-me das responsabilidades. Percebo que a mordida no "fruto proibido" foi bem mais profunda do que as aulas da escola bíblica dominical conseguem explicar.

Lembrei-me da letra de uma música de 1989, original da banda Uns e Outros.

"Missionários de um mundo pagão
Proliferando ódio e destruição
Vêm dos quatro cantos da terra
A morte, a discórdia
A ganância e a guerra...
E a guerra
Missionários e missões suicidas
Crianças matando crianças inimigas
Generais de todas as nações
Fardas bonitas, condecorações
Documentam na nossa história
O seu rastro sujo de sangue e glória
Vindo de todas as partes, indo pra lugar algum
Assim caminha a raça humana
Se devorando um a um
Gritei para o horizonte
E ele não me respondeu
E então fechei os olhos
Sua voz, assim me bateu."

domingo, 9 de outubro de 2016

O Inferno Somos Nós Outros

"Qualquer um que tenha violado um tabu torna-se tabu porque possui a perigosa qualidade de tentar os outros a seguir-lhe o exemplo."
Sigmund Freud


Conhece aquela história do marido super fiel, mas que possui uma esposa muito, muito "zelosa"? Ela vive desconfiada de seu parceiro, descarregando todo o seu ciúmes sobre ele, tratando-o como se estivesse mesmo "pulando a cerca". Um dia ele percebe que está pagando por uma divida que não tem e sem tirar "proveito" da situação de fato. Então, o confiável marido decide fazer por merecer, consuma a infidelidade.

Hoje eu darei motivo para ser considerado mentalmente preguiçoso, pois de fato não vou pensar. Eu vou transcrever o que disse alguém que possui mais crédito na esfera intelectual (interessante eu ter usado a palavra "mais", sugere que eu também tenha crédito). As palavras que serão reproduzidas constituem parte de uma entrevista com o filósofo Luiz Felipe Pondé para a revista Veja, na edição de 13 de Julho de 2011 (espantou-me esse tipo de entrevista na Veja).

Como fiquei sabendo desta matéria? Eu vi uma postagem com o vídeo abaixo que citou a entrevista. Aliás, percebam que o vídeo foi produzido pelo mesmo filósofo. Importante, sem teoria da conspiração, não fiquei sabendo antes da entrevista simplesmente porque não leio a Veja e não a leio por pura preguiça.


Desviando: Já que compartilhei o vídeo acima, aproveito para citar o trecho dele que achei mais interessante, foi quando o filósofo comparou o fascismo ao plano, sabe-se lá de quem (pertinente mencionar isso), de utilizar a escola para "orientar" as crianças sobre escolhas de sexualidade. Nunca tinha feito essa observação. Lembrei-me que, na minha época de criança, falar sobre sexualidade era um tabu. Não que isso seja necessariamente o correto, mas acabei constatando que, talvez, um tabu tenha lá sua função, o de evitar que coloquem ideias nas nossas mentes quando ainda não pensamos a respeito, ou quando ainda não ouvimos a opinião de pessoas que julgamos confiáveis (os responsáveis por nós, por exemplo).

Outro exemplo de tabu pode ser a fé (não vamos falar de religião, pois é corruptível). Dependendo do quanto você pode estar despreparado sobre esse tema, considerá-lo um tabu o protegerá de ser influenciado por alguém que tenha seus métodos de manipulação de "massas".

Ainda desviando: Já que falei de fé, tive outra lembrança. Certo dia pediram para que eu fosse claro sobre o que acredito, pois diante de tanta insatisfação com o mundo seria de se esperar que eu fosse do tipo suicida. Interessante, pois falei justamente sobre isso com minha esposa (psicóloga) recentemente. Eu disse a ela que, para resolver um problema insolúvel, eu acredito ser do tipo que se suicidaria, mas que não mataria. Ela respondeu, "isso você faz mesmo". O verbo fazer no presente bombardeou minha mente de significados mais rápido do que eu pude citar apenas um deles.

Enfim, quais as minhas convicções? Acredito que por mais que eventualmente eu consiga ter alguns sucessos, eu nunca conseguirei ser de fato uma pessoa boa (já falei da escala da bondade aqui). A humanidade nunca vai melhorar no sentido de ser. Nos milênios que se passaram nem sequer mostramos essa tendência. Penso que a transformação só poderá vir de fora. O ponto é, como resolver esse "pessimismo" ao invés de afogar-me em uma banheira? Sugiro essa leitura, mas atendendo ao pedido por clareza, eu escolhi acreditar no único Deus que, ao invés de pedir que nós O alcançássemos através de nossas forças, ofereceu vir nos buscar. Justamente por saber de nossas limitações, Ele apareceu por aqui como pessoa pedindo que apenas confiássemos Nele. Eu nunca tive uma experiência sobrenatural que justificasse a minha escolha, apesar de não conseguir explicar racionalmente algumas coisas, por isso percebi que não fui convencido pelos feitos excepcionais, mas sim pelas palavras. A promessa por uma realidade transformada, assim como quem acorda de um pesadelo pela manhã, é o que mantém-me longe da banheira. Descobri que o plano não sou eu, mas que apenas faço parte, mesmo quando há favores aparentemente em meu benefício, pois se a finalidade fosse a minha pessoa, eu estaria apresentando-me como deus, mas não falando Dele na terceira pessoa. Aliás, já falei exatamente disso aqui.

Voltando tudo: Acabo de perceber que, apesar de não ter fugido ao tema, pensei demais. Há quem possa dizer que expus minha alienação, como quem solta os micos de circo. Prolonguei-me por um assunto geralmente considerado um tabu e isso pode sugerir uma tentativa de exercer influencia. Enfim, transcrevo as palavras de alguém letrado e que, por isso, consegue convencer melhor de que não está querendo convencer ninguém de nada. A única ressalva é que, diferente dele, eu acredito que o tema transcenda a filosofia.

"Veja: Por que a política não pode ser redentora?

Pondé: O cristianismo, que é uma religião hegemônica no Ocidente, fala do pecador, de sua busca e de seu conflito interior. É uma espiritualidade riquíssima, pouco conhecida por causa do estrago feito pelo secularismo extremado. Ao lado de sua vocação repressora institucional, o cristianismo reconhece que o homem é fraco, é frágil. As redenções políticas não têm isso. Esse é um aspecto do pensamento de esquerda que eu acho brega. Essa visão do homem sem responsabilidade moral. O mal está sempre na classe social, na relação econômica, na opressão do poder. Na visão medieval, é a graça de Deus que redime o mundo. É um conceito complexo e fugidio. Não se sabe se alguém é capaz de ganhar a graça por seus próprios méritos, ou se é Deus na sua perfeição que concede a graça. Em qualquer hipótese, a graça não depende de um movimento positivo de um grupo. Na redenção política, é sempre o coletivo, o grupo, que assume o papel de redentor. O grupo, como a história do século 20 nos mostrou, é sempre opressivo.

Veja: Em que o cristianismo é superior ao pensamento de esquerda?

Pondé: Pegue a ideia de santidade. Ninguém, em nenhuma teologia da tradição cristã – nem da judaica ou islâmica –, pode dizer-se santo. Nunca. Isso na verdade vem desde Aristóteles: ninguém pode enunciar a própria virtude. A virtude de um homem é anunciada pelos outros homens. Na tradição católica – o protestantismo não tem santos –, o santo é sempre alguém que, o tempo todo, reconhece o mal em si mesmo. O clero da esquerda, ao contrário, é movido por um sentimento de pureza. Considera sempre o outro como o porco capitalista, o burguês. Ele próprio não. Ele está salvo, porque recicla lixo, porque vota no PT, ou em algum partido que se acha mais puro ainda, como o PSOL, até porque o PT já está meio melado. Não há contradição interior na moral esquerdista. As pessoas se autointitulam santas e ficam indignadas com o mal do outro."

Essa entrevista de 2011 está mais atual do que parece. Eu vi recentemente um líder de esquerda comparar-se a Jesus Cristo (o Deus que mencionei anteriormente).

"Veja: O senhor acredita em Deus?

Pondé: Sim. Mas já fui ateu por muito tempo. Quando digo que acredito em Deus, é porque acho essa uma das hipóteses mais elegantes em relação, por exemplo, à origem do Universo. Não é que eu rejeite o acaso ou a violência implícitos no Darwinismo – pelo contrário. Mas considero que o conceito de Deus na tradição ocidental é, em termos filosóficos, muito sofisticado. Lembro-me sempre de algo que o escritor inglês Chesterton dizia: não há problema em não acreditar em Deus; o problema é que quem deixa de acreditar em Deus começa a acreditar em qualquer outra bobagem, seja na história, na ciência ou sem si mesmo, que é a coisa mais brega de todas. Só alguém muito alienado pode acreditar em si mesmo. Minha posição teológica não é óbvia e confunde muito as pessoas. Opero no debate público assumindo os riscos do niilista. Quase nunca lanço a hipótese de Deus no debate moral, filosófico ou político. Do ponto de vista político, a importância que vejo na religião é outra. Para mim, ela é uma fonte de hábitos morais, e historicamente oferece resistência à tendência do Estado Moderno de querer fazer a cura das almas, como se dizia na Idade Média – querer se meter na vida moral das pessoas.

Veja: Por que o senhor deixou de ser ateu?

Pondé: Comecei a achar o ateísmo aborrecido, do ponto de vista filosófico. A hipótese de Deus bíblico, na qual estamos ligados a um enredo e um drama morais muito maiores do que o átomo, me atraiu. Sou basicamente pessimista, cético, descrente, quase na fronteira da melancolia. Mas tenho sorte sem merecê-la. Percebo uma certa beleza, uma certa misericórdia no mundo, que não consigo deduzir a partir dos seres humanos, tampouco de mim mesmo. Tenho a clara sensação de que às vezes acontecem milagres. Só encontro isso na tradição teológica."

Assumindo o risco de ser simplista demais, segundo Sartre, "o inferno são os outros", e eu passei a enxergar-me em todos eles.